10 Novembro, 2009

O vestido das cavernas - Geisy

08 Novembro, 2009

Primeira transexual brasiliense a chegar a um doutorado na UnB fala sobre preconceito

Coragem para ser mulher »

Primeira transexual brasiliense a chegar a um doutorado na UnB fala sobre preconceito


Engajada em movimentos sociais e defensora das minorias, ela deseja que seu exemplo possa ser seguido por outras pessoas que sofrem o mesmo drama


por Marcelo Abreu

Publicação: 08/11/2009 08:51 Atualização: 08/11/2009 09:59

O encontro foi marcado na Universidade de Brasília (UnB) ao meio-dia e meia da quinta-feira chuvosa. Lá estava ela, pontualmente. O ambiente lhe é muito familiar. Afinal, as mais recentes conquistas — aquelas que conduziram e ainda conduzirão seu destino profissional — ali aconteceram. De longe, avista-se aquela mulher negra, de 1,77m e 75 kg. O peso só foi revelado depois. Talvez, depois da idade, seja o maior e mais temido segredo de qualquer mulher. Os cabelos, em aplique, são médios e cuidadosamente cacheados. Veste terninho bege, com blusa de seda preta. Os sapatos, de salto alto, combinam com a blusa. A bolsa também é preta.


Nos dedos da mão direita, dois grandes anéis. E uma aliança muito especial no anelar da esquerda. É a prova do compromisso de casamento. A moça ainda vive a lua de mel. O noivo — um homem solteiro, jornalista, pai de três filhos — mora no Rio de Janeiro, mas se prepara para mudar-se para Brasília. A fala é delicada, sutilmente delicada. Não há falsete. Ela anda sem rebolar, sem estardalhaços, sem provocações. Não faz questão de chocar. A moça, de 31 anos, além de elegante, é discreta. Tem o sorriso bonito, às vezes tímido, como se ainda tivesse medo de sorrir. Dentes perfeitos. Olhos amendoados realçados com lápis preto e sombra. Nas unhas, esmalte vermelho. Nos lábios, batom do mesmo tom.
"Quero terminar meu doutorado, viver com o meu companheiro e lutar por todas as causas sociais e contra quaisquer formas de discriminação"


O nome dela? Jaqueline Jesus. Brasiliense, nascida no Hospital São Lucas, na Asa Sul. É filha de um sergipano operador de computador e de uma professora mineira de ciências. Família pequena, só tem um irmão, mais novo que ela. Jaqueline viveu a maior parte de sua vida em Ceilândia, no Setor O. Estudou em escolas com formação religiosa. Sempre foi uma das melhores alunas da sala. Gostava de artes , especialmente desenho. É funcionária da UnB, cedida ao Ministério do Planejamento. Formou-se em psicologia na universidade. Antes, porém, havia passado para química, mas desistiu no primeiro ano.

Fez mestrado — foi aprovada em primeiro lugar. Ano que vem, defenderá sua tese de doutorado no Instituto de Psicologia da UnB. Em tempo: também foi aprovada em primeiro lugar na seleção para o doutorado. Em tudo que se propôs fazer, Jaqueline se destacou como exemplo.

E daí? O que esta história tem de tão espetacular, além de revelar uma enorme capacidade de luta e conquista dessa moça? Quantos outros também não conseguiram tanto? A história de Jaqueline começa a fazer toda a diferença quando se descobre que ela nem sempre foi Jaqueline. Como? Jaqueline é uma impostora? Usou documentos de outra pessoa? Fraudou exames? Mentiu para todos o tempo todo? Nada disso. Na verdade, Jaqueline nasceu Jaques Jesus. Há um mês virou, efetiva, assumida e psicologicamente Jaqueline — uma mulher transexual (leia Para saber mais).

Preconceito

Esta história começa pelo fim. Mas, para entendê-la, é preciso voltar ao começo. O menino Jaques sempre foi delicadamente diferente. “Aos 6 anos, minha tia percebeu que eu não era como os outros meninos. Gostava de bonecas. Cheguei até a fazer casinhas de papelão pra elas, mesmo que não as tivesse por perto. Fingia que elas existiam e brincava assim mesmo. Não me identificava com nada de menino”, conta Jaqueline.

Aos 12 anos, além da tia, do pai, da mãe, dos parentes mais próximos e até de alguns vizinhos, todos sabiam que o filho do operador de computador e da professora era “diferente”. “Delicado demais”, cochichavam alguns, à meia-boca. A palavra homossexual jamais fora pronunciada. “Com 12 anos, tive a minha primeira relação com um garoto. Foi quando descobri que realmente me sentia atraída por homens.”

Jaqueline se tornou adolescente. Na escola — e fora dela —, sofreu toda sorte de preconceitos. “Os meninos me perseguiam, me agrediam verbalmente”, diz. Ainda assim, engolindo o choro, ela não tinha dúvida da sua orientação. “Aos poucos, fui construindo a minha identidade sexual e me vendo como um rapaz gay. O preconceito era duplo: além de negro, eu era gay.” O adolescente gay se tornou um homem gay. Passou a discutir questões da sexualidade, diversidade e os direitos das minorias. Engajou-se, para se sentir vivo.

Em 1997, aos 19 anos, começou a cursar psicologia. Na mesma época, Jaqueline entrou para a militância do Movimento de Gays, Lésbicas e Transgêneros (GLBT) de Brasília. Presidiu o Grupo Estruturação. Lutou por aquilo em que acreditava. Foi recebida por autoridades. Algumas conquistas se somaram. Em casa, porém, a homossexualidade de Jaques não era comentada. Assunto nunca dito. Palavra jamais pronunciada. O silêncio se fez respeito. Em 2000, aos 22 anos, mudou-se para o Plano Piloto. Foi morar com o primeiro companheiro. A relação durou 12 anos. “Ele terminou comigo assim que dei início ao meu processo de transformação. Disse que não saberia viver com uma mulher. Eu entendi. Sofri muito. Ficou a amizade.”

Carta
Jaqueline mergulhou na análise. “Me perguntava o tempo todo: ‘Será que sou mesmo transexual?’. Passei por momentos de muita angústia.” Com a ajuda da terapeuta, descobriu aos poucos que não desejava se sentir um homem homossexual, mas uma mulher. “Era a minha própria identidade de gênero”, explica. Ela começou a frequentar o grupo de transexuais do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Ouviu depoimentos de outros transexuais — homens e mulheres.

Jaqueline leu tudo a respeito do assunto. Procurou médicos e uma fonoaudióloga. Em maio deste ano, começou a usar hormônios, receitados por uma endocrinologista. E sentiu, aos poucos, as transformações físicas no seu corpo. Cresceram os seios. As feições ficaram mais delicadas, mais femininas. Os pelos, que eram poucos, hoje são eliminados com depilação a laser.

E é chegada a hora de mudar o guarda-roupa. Ternos, gravatas e sapatos deram lugar a terninhos, vestidos e saltos. “Doei todas as roupas masculinas.” Tudo pronto para a nova mulher que ela já sabia existir. E como enfrentar os colegas de trabalho, no ministério? Como sair Jaques, na sexta, e voltar Jaqueline, na segunda?

Com a formação em psicologia e o apoio recebido durante os anos de terapia, Jaqueline fez uma carta aos colegas do ministério. “Eu explicava todo o processo da minha transexualidade. E dizia que um dia chegaria vestida como de fato me sentia. Tive uma reunião com a chefia. O psicólogo do HUB foi ao meu trabalho”, detalha. Há um mês, Jaqueline se vestiu pela primeira vez como mulher. “Logo que cheguei, os porteiros comentaram que eu tava muito bonita. Me senti segura.”

Cirurgia
Alguns transexuais optam pela cirurgia radical de mudança de sexo — procedimento reconhecido e autorizado pelo Sistema Único de Saúde. Não aceitam de forma alguma a genitália masculina. Em casos extremos, quando não recebem apoio psicológico e não conseguem operar, chegam à automutilação e ao suicídio. Jaqueline faz acompanhamento no HUB justamente para decidir se quer ou não a cirurgia. “Meu órgão genital não me causa repugnância. Operar é uma decisão que requer análise e maturidade. E nenhuma dúvida”, reflete a doutoranda da UnB.

A luta agora é para conseguir mudar, na Justiça, o nome e, se possível, o gênero — feminino — nos novos documentos. “Juntarei os laudos médicos e darei para o meu advogado. O que fiz foi ajustar o meu corpo à minha identidade social”, explica. Com os olhos marejados, reconhece, ajeitando a aliança: “Consegui sair de dentro de mim mesma. Isso é renascimento”.

No Instituto de Psicologia da UnB, a torcida pela aluna do doutorado é unânime. “Há muito tempo não via a Jaqueline. Na verdade, a última vez que a vi, ela era Jaques. Esse é um momento histórico para toda a academia. Alguém que assume essa transformação, não apenas no ambiente privado, tem uma atitude política, no sentido de dizer que é possível sermos diversos, com nossas opções, escolhas, orientações, seja qual o nome se queira dar. O ser humano tem que estar bem na pele dele — seja com saia ou calça. E precisa ser reconhecido e aceito assim na sociedade”, defende a professora de Jaqueline, Ângela Almeida.

Ainda comovida com a nova aluna e tentando usar o pronome corretamente (“isso virá com o tempo”, explica), Ângela continua “Ele (ela) sempre foi brilhante e impertinente. Lutou pelo respeito e pela não homofobia”. Danielle Coenga, colega do mestrado, emenda: “Ela tá colocando em prática o discurso politicamente correto. É como se dissesse: ‘Eu sou isso aqui...’”. Para Sandra Studart, psicóloga e coordenadora do grupo de transexuais do HUB, a vitória de Jaqueline ajuda a sociedade a compreender melhor o universo dos transexuais: “Isso quebra o estigma da marginalidade, da prostituição e do subemprego que normalmente cerca essas pessoas”. Jaqueline é a primeira mulher transexual brasiliene a chegar ao doutorado na UnB.

Se no ambiente de trabalho e na academia a aceitação foi normal, em casa não houve tanto espanto. É bem verdade que o pai preferia ter um filho homossexual a uma mulher transexual. “Ele acha que o preconceito seria menor.” A mãe morreu há dois anos. “Ela entenderia bem. Sempre me aceitou”, diz. O irmão apresentou-a à namorada como irmã. No casamento de uma prima, Jaqueline se mostrou pela primeira vez vestida de mulher. Levou o novo companheiro. A avó, de 89 anos, olhou-a com compaixão e lhe disse, na frente de todos: “Minha filha, se você tá feliz, é isso que importa”. Todos entenderam. Novamente o silêncio se fez respeito.

E o que Jaqueline quer mais? “Terminar meu doutorado, viver com o meu companheiro e lutar por todas as causas sociais e contra quaisquer formas de discriminação. É isso que sonhei a vida toda. Minha luta não será em vão.” Antes de qualquer coisa, esta é uma história feita de demasiada coragem.


Para saber mais
Quando o gênero é incompatível

Transexualismo é a condição clínica em que se encontra um indivíduo biologicamente normal e, que segundo sua história pessoal e clínica e exames psiquiátricos, apresenta o sexo psicológico incompatível com a natureza do sexo somático. Portanto, um indivíduo que se encontra nesta condição tem uma autoimagem invertida e, por isso, se sente diferente (espécie/gênero) daquilo que fisicamente o representa (sexo/órgão). Isolado por esta disparidade, necessita se afirmar socialmente, inclusive em seu papel sexual, como pertencente ao sexo oposto.

Uma mulher transexual é uma pessoa que foi designada física e culturalmente como homem, no nascimento, mas que percebe a si, e espera que as pessoas a identifiquem como uma mulher. Algumas mulheres trans podem optar ou não por realizar uma cirurgia de redesignação sexual. Outras ainda podem não desejar fazê-lo. Isso porque partem do princípio de que mulher é acima de tudo uma condição social e não física.



Assista videoreportagem Fonte


05 Novembro, 2009

Mensagens de texto revelam os sensíveis ‘metrotextuais’

Pesquisa mostra que tecnologia ajuda a 'sensibilizar' público masculino.
Cada vez mais homens mandam beijo para outros homens por SMS.


Da Reuters
Com a ajuda das tecnologias móveis, os homens estão demonstrando mais afeto ao terminar suas mensagens a amigos com um beijo (x), derrubando preconceitos ao formarem uma nova geração conhecida como "metrotextuais".



Com o advento do celular e das mídias sociais, (...) os homens podem compartilhar seus sentimentos mais facilmente -- especialmente com amigos homens"

Novos estudos da empresa de telefonia celular T-Mobile revelam que quase um quarto dos homens (22%) inclui regularmente um beijo em mensagens de texto para outros amigos homens, afirmou a T-Mobile em comunicado.

A “metrotextualidade” é especialmente comum entre jovens de 18 a 24 anos, uma vez que 75% deles, frequentemente, terminam seus SMS com um beijo. Já 48% admitem que a prática já se tornou comum entre seus amigos.

Nessa mesma faixa etária, quase um quarto dos homens (23%) até gosta de ver um "x" em mensagens de pessoas que não são tão próximas.

Mas não são apenas os mais jovens que se tornaram “metrotextuais” -- um em cada dez homens com mais de 55 anos frequentemente termina suas mensagens de texto com um beijo, segundo a pesquisa.


O estudo também revelou que há certas regras de etiqueta para a “metrotextualidade”. Um "x" minúsculo é preferível entre a maioria dos entrevistados (52%), ante os 17% que preferem um "X" mais confiante, em caixa alta. Além disso, um em cada três homens mostra ainda mais carinho com três beijinhos em letra minúscula (xxx).

O psicólogo Ron Bracey afirmou que homens são tradicionalmente relutantes em compartilhar seus sentimentos com amigos e tendem a ser fechados.

"No entanto, com o advento do celular e das mídias sociais, cada vez mais a comunicação é feita de forma não-verbal, e através disso os homens podem compartilhar seus sentimentos mais facilmente -- especialmente com amigos homens", disse Bracey.

Metrotextual assumido, Nick Kirkham, de 25 anos, afirmou que ele e seus amigos enviam beijos uns para os outros há anos.

"Inclusive, meu chefe e meus clientes à parte, não há ninguém a quem não mandaria um beijo por SMS", disse Kirkham, que trabalha com seguros.

20 Outubro, 2009

Mãe é mãe??? MENTIRA!!!

recebi por email e gostei... confira os mitos (quebrados) sobre maternidade...

______________

MÃE É MÃE: mentira!!!
Mãe foi mãe, mas já faz um tempão!
Agora mãe é um monte de coisas: é atleta, atriz, é super star.
Mãe agora é pediatra, psicóloga, motorista.

Também é cozinheira e lavadeira.
Pode ser política, até ditadora, não tem outro jeito.
Mãe às vezes também é pai. Sustenta a casa, toma conta de tudo, está jogando um bolão.
Mãe pode ser irmã: empresta roupa, vai a shows de rock pra desespero de alguns filhos, entra na briga por um namorado.

Mãe é avó! ):
Moderníssima, antenadíssima, não fica mais em cadeira de balanço, se quiser também namora, trabalha, adora dançar.
Mãe pode ser destaque de escola de samba, guarda de trânsito, campeã de aeróbica, mergulhadora.
Só não é santa, a não ser que você acredite em milagres.
Mãe já foi mãe, agora é mãe também.

MÃE É UMA SÓ: mentira !!!
Sabe por quê? Claro que sabe!
Toda criança tem uma avó que participa, dá colo, está lá quando é preciso.
De certa forma, tem duas mães.
Tem aquela moça, a babá, que mima, brinca, cuida.
Uma mãe de reserva, que fica no banco, mas tem seus dias de titular.
E outras mulheres que prestam uma ajuda valiosa. Uma médica que salva uma vida, uma fisioterapeuta que corrige uma deficiência, uma advogada que liberta um inocente, todas são um pouco mães.
Até a maga do feminismo, Camille Paglia, que só conheceu instinto maternal por fotografia, admitiu uma vez que lecionar não deixa de ser uma forma de exercer a maternidade.
O certo então, seria dizer: mãe, todos têm pelo menos uma.

Ser mãe é padecer no paraíso: mentira!!!
Que paraíso, cara-pálida?
Paraíso é o Taiti, paraíso é a Grécia, é Bora-Bora, onde crianças não entram.
Cara, estamos falando da vida real, que é ótima muitas vezes, e aborrecida outras tantas, vamos combinar.
Quanto a padecer, é bobagem. Tem coisas muito piores do que acordar de madrugada no inverno pra
amamentar o bebê, trocar a fralda e fazer arrotar.
Por exemplo?
Ficar de madrugada esperando o filho ou filha adolescente voltar da festa na casa de um amigo que você nunca ouviu falar, num sítio que você não tem a mínima idéia de onde fica. Aí a barra é pesada, pode crer...

Maternidade é a missão de toda mulher: mentira!!!
Maternidade não é serviço militar obrigatório, caraca!
Deus nos deu um útero, mas o diabo nos deu poder de escolha. Como já disse o Vinicius: filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-los? Vinicius era homem e tinha as mesmas dúvidas.
Não tê-los não é o problema, o problema é descartar essa experiência.
Como eu preferi não deixar nada pendente pra a próxima encarnação, vivi e estou vivendo tudo o que eu acho que vale a pena nesta vida mesmo, que é pequena, mas tem bastante espaço.
Mas acredito piamente que uma mulher pode perfeitamente ser feliz sem filhos, assim como uma mãe padrão, dessas que têm umas seis crianças na barra da saia, pode ser feliz sem nunca ter conhecido Paris, sem nunca ter mergulhado no Caribe, sem nunca ter lido um poema de Fernando Pessoa. É difícil, mas acontece.

Mamãe, eu quero: verdade!!!
Você pode não querer ser uma, mas não conheço ninguém que não queira a sua.

19 Outubro, 2009

blog legal

visite o blog de FERNANDO LUCIO - ARTE.COM.CIÊNCIA
"É preciso buscar a harmonia através da Arte e nunca esquecê-la, assim a paz estará existindo para sempre".

O Analista de Sistemas e a Engenheira

Um analista de sistemas meio(!?) introvertido finalmente conseguiu realizar o sonho da sua vida: um cruzeiro.

Era a coisa mais doida que tinha feito até então. Estava começando a desfrutar da viagem quando um furacão virou o navio como se fosse uma caixa de fósforos...
O rapaz conseguiu agarrar-se a um salva-vidas e chegar a uma ilha aparentemente deserta e muito remota.
Deparou-se com uma cena belíssima:
cachoeira, bananas, coqueiros... mas quase nada além disso. Ele se sentiu desesperado e completamente abandonado.
Vários meses se passaram, até que um belo dia apareceu, remando, uma belíssima engenheira, daquelas de fazer parar o trânsito.
A engenheira começou logo uma conversa:
- Eu sou do outro lado da ilha. Você também estava no cruzeiro?
- Estava! Mas onde conseguiu esse bote?
- Simples: eu sou engenheira e usei meus conhecimentos!
Tirei alguns galhos de árvores, sangrei umas seringueiras, defumei até virar borracha, reforcei os galhose fiz a quilha e os remos com madeira de eucalipto.
- Mas..... com que ferramentas?
- Bom, achei uma camada de material rochoso, evidentemente formado por aluviões.
Descobri que esquentando esse material a certa temperatura, ele assumia uma forma muito maleável. Mas chega disso!
Onde você tem vivido esse tempo todo?
Não vejo nada parecido com um teto...
- Para ser franco, eu tenho dormido na praia.....
- Gostaria de ver a minha casa?
O analista de sistemas aceitou, meio sem jeito.
A engenheira remou com extrema destreza ao redor da ilha.
Quando chegou no 'seu' lado, amarrou a canoa com uma corda que mais parecia uma obra-prima de artesanato.
Os dois caminharam por uma passarela de pedras e madeira construída pela engenheira, e depararam, atrás de um coqueiro, com um lindo chalé construído sobre palafitas, pintado de azul e branco.
- Não é muito, disse ela, mas eu o chamo de 'meu lar'.
Já dentro, ela procurou deixá-lo à vontade:
- Sente-se, por favor! Aceita um drinque?
- Não, obrigado! Não agüento mais água de coco!
- Mas não é água de coco! Eu tenho um alambique meio rudimentar lá fora, de forma que podemos tomar Piñas coladas autênticas!
Tentando esconder a surpresa, o analista de sistemas aceitou.
Sentaram no sofá dela para conversar.
Depois de contarem suas histórias, a engenheira perguntou:
- Você sempre teve barba?
- Não.. Toda a vida eu andei bem barbeado.
- Bom, se quiser se barbear, tem uma navalha lá em cima, no armarinho do banheiro.
O homem já não perguntava mais nada.
Subiu uma escada em caracol e foi em cima, no banheiro, e fez a barba com um complicado aparelho feito de osso e conchas, tão afiado quanto uma navalha.
A seguir, tomou um bom banho, sem nem querer arriscar palpites sobre como ela tinha água quente no banheiro.
Desceu sem poder deixar de se maravilhar com o acabamento do corrimão.
- Você ficou ótimo! Vou lá em cima também me trocar por algo mais confortável.
Nosso herói continuou bebericando sua piña colada.
Em instantes a engenheira estava de volta, com um delicioso perfume de gardênias e vestindo um estonteante e revelador robe, muito bem trabalhado em folhas de palmeira.
- Bom, disse ela, ambos temos passado um longo tempo sem qualquer companhia...
Você não tem se sentido solitário?
Há alguma coisa de que você sente muita saudade?
Que lhe faz muita falta e da qual todos os homens e mulheres precisam?
- Mas é claro, disse ele esquecendo um pouco a sua timidez.
Tem uma coisa que venho querendo todo esse tempo.
Até sonho com isso à noite. Mas... aqui nesta ilha... sabe como é... era simplesmente impossível.
- Bom, ela disse com um sorriso maroto, já não é mais impossível, se é que você me entende...
O rapaz, tomado de uma excitação incontrolável, disse, quase sem fôlego:
- Não acredito! Você não está querendo dizer que... você bolou um jeito de acessar a internet aqui na ilha?

aluno passivo no século XXI?

"A forma de organização e funcionamento da escola foi pensada para o século 19 e parte do século 20. Há uma cultura escolar rígida e inflexível que leva o aluno a uma postura passiva. (...) O aluno não faz um trabalho sozinho para ser guardado na gaveta. Ele pode fazer um trabalho com relevância social, que será lido e compartilhado com todo mundo. Com isso, você estimula ética, cidadania, responsabilidade social e mostra que o estudante pode interferir no mundo. Ao mesmo tempo, transforma a escola em algo que tem mais a ver com o mundo dele. A internet possibilita um trabalho colaborativo e libertário, mas a minoria dos usuários sabe manipular esses recursos. A maioria só usa parte disso."

Márcia Padilha, especialista em tecnologias de comunicação da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) (O Estado de SP, 28/9)

18 Outubro, 2009

QUATRO LIÇÕES BÁSICAS DE SOBREVIVÊNCIA NO EMPREGO

Lição número um


Um urubu está pousado numa árvore, fazendo nada o dia todo. Um coelho viu o urubu e perguntou:


– Posso sentar como você e ficar fazendo nada o dia todo?


O urubu respondeu:


– Claro, por que não?


Assim, o coelho sentou-se embaixo da árvore e ficou descansando. Subitamente apareceu uma raposa que saltou sobre o coelho e o comeu...

MORAL DA HISTÓRIA: Para ficar sentado sem fazer nada, você precisa estar sentado muito, muito alto.









Lição número dois


O peru estava batendo papo com o touro.


– "Eu adoraria ser capaz de chegar ao topo daquela árvore", suspirou o peru, "mas não tenho força..."


– "Ora," replicou o touro, "por que você não come um pouco do meu esterco? Ele tem muitos nutrientes".


O peru bicou um pedaço de esterco e verificou que realmente isso lhe dava a força necessária para chegar ao primeiro galho de árvore. No dia seguinte, depois de comer mais uns bons nacos de esterco, ele chegou ao segundo galho. Finalmente depois de duas semanas, comendo esterco de boi, de búfalo, das zebras, ele estava orgulhosamente empoleirado no alto da árvore. Imediatamente foi visto por um fazendeiro que atirou nele...

MORAL DA HISTÓRIA: Qualquer bosta pode levar você ao topo, mas não manterá você lá.










Lição número três:


Quando o corpo foi criado, todas as partes queriam ser chefe. O cérebro foi logo dizendo:


– Eu deveria ser o chefe, porque controlo todas as respostas e funções do corpo.


Os pés disseram:


– Nós deveríamos ser o chefe, porque carregamos cérebro para onde ele quiser ir.


As mãos disseram:


– Nós é que deveríamos ser o chefe, porque fazemos todo trabalho e ganhamos o dinheiro.


E assim foi com o coração, pulmões, olhos, até que chegou a vez de o cu falar. Todas as partes riram do cu por querer ser o chefe. E foi daí que ele entrou em greve, bloqueou-se e recusou-se a trabalhar.


Em pouco tempo os olhos ficaram vesgos, as mãos crisparam, os pés se retorceram, o coração e os pulmões entraram em pânico e o cérebro teve febre. No final todos, concordaram, e o cu passou a ser o chefe. Todas as outras partes, então, faziam seu trabalho, e o chefe ficava sentado e deixava a merda passar!

MORAL DA HISTÓRIA: Você não precisa de cérebro para poder ser um chefe; qualquer cuzão pode ser.









Lição número quatro:

Era uma vez um pardal cansado da vida... Um dia, resolveu sair voando pelo mundo em busca de aventura. Voou até chegar numa região extremamente fria e foi ficando gelado até não poder mais voar e caiu na neve. Uma vaca, vendo o pobre pardal naquela situação, resolveu ajudá-lo e cagou em cima dele. Ao sentir-se aquecido e confortável, o pardal começou a cantar. Um gato ouviu o seu canto e foi até lá, retirou-o da merda e o comeu...

MORAL DA HISTÓRIA:
1)Nem sempre aquele que caga em cima de você é seu inimigo;
2) Nem sempre quem tira você da merda é seu amigo;
3) Desde que você se sinta quente e confortável, mesmo que esteja na merda, conserve seu bico fechado!!!

17 Outubro, 2009

Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta

Big Brother Belchior
Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta


por Francisco Bosco


No famoso plano-sequência de Profissão: Repórter, o assassinato de David Locke é narrado de modo indireto, por meio de uma janela com grade. Mas a força da cena não está exatamente em seu caráter indireto - o qual sempre se exalta - e sim na mediação da janela gradeada. Como se sabe, o repórter David Locke aproveita-se da morte de um desconhecido em um vilarejo remoto na África para falsificar sua própria morte e assumir a identidade do outro.

O que está em jogo para ele é uma tentativa de sair radicalmente de si. Como repórter, ele viaja o mundo fazendo entrevistas, matérias, documentários, mas sente que os deslocamentos geográficos e culturais não o levam a afastar-se de si próprio, pois ele, em suas palavras, acaba codificando toda a diferença nos seus (dele) próprios termos, fazendo-a desembocar sempre de volta no registro da identidade. Ao valer-se da morte de um desconhecido para tentar desconhecer-se, Locke vê-se herdeiro imediato da vida desse outro, David Robertson, um traficante internacional de armas.

Passa, então, a ser perseguido por agentes de um governo africano, pois Robertson fornecia armas para uma guerrilha que se lhe opunha. Ao mesmo tempo, a ex-mulher de Locke descobre que a morte de Robertson foi falsificada e começa ela também a persegui-lo. Locke não demora muito para concluir que sua tentativa fracassara. Não lhe bastara colar sua foto no passaporte de outro para transformar-se em outra pessoa. Pior, agora ele estava multiplamente emparedado: dentro de si mesmo, dentro da realidade de outro (mas não de sua subjetividade) e dentro de seu passado, que não pudera aniquilar. O emparedamento descortina-lhe o nome: David Locke, Locke D., ou seja, locked, trancado.

É por isso que o famoso plano-sequência é narrado através da janela gradeada, que assoma, então, como o correlato material da impossibilidade existencial a que se lançou Locke. Dentro do quarto, ele dorme, enquanto, pelas grades - portanto, da perspectiva dele -, vemos a realidade que lhe assaltaria, mas que ele não podia alcançar. Vemos, então, os agentes chegarem, andarem na direção do hotel e saírem do enquadramento.

Em seguida, ouvimos um tiro. A partir daí há uma extraordinária inversão de perspectiva. A jovem que Locke conhecera em Barcelona e passara a acompanhá-lo em sua fuga entra no quarto no mesmo momento que a ex-mulher dele, acompanhada da polícia. O policial pergunta, primeiro à ex-mulher: "Você o reconhece?", ao que ela responde: "Eu nunca o conheci". Em seguida, a mesma pergunta é dirigida à jovem, e sua resposta é: "Sim". Essa cena é narrada de fora para dentro da janela gradeada.

Da perspectiva da ex-mulher, havia também um emparedamento em Locke; ela nunca pôde conhecê-lo, embora tivesse vivido com ele muitos anos. Já a jovem, cujo nome não vem à tona, e a quem Locke se apresentara sob um nome falso, afirma, sem hesitar, tê-lo conhecido (confirmando uma frase de Barthes segundo a qual "conhecer alguém é conhecer-lhe o desejo").


Onde está Belchior?

O filme de Antonioni é de meados dos anos 1970. Sua questão é existencial: é possível reinventar-se completamente, ser radicalmente outro? A resposta do filme é não - mas não é isso que desejo investigar aqui. Quero chamar atenção para o fato de que, mesmo sendo Locke um repórter, a mídia não é uma questão fundamental para o filme. As forças que lhe saem à captura são a polícia, os agentes do governo africano e sua ex-mulher, ajudada pela embaixada. Locke consegue sair da África e ir para Londres, daí para Barcelona, daí para cidades pequenas na Espanha, até ser encontrado - e tudo isso se passa em registro de experiência privada. Agora cortemos para agosto de 2009, onde vamos acompanhar outra perseguição, bem diferente.

A primeira notícia de que Belchior havia desaparecido foi publicada num site. Nele, depoimentos de amigos e parentes afirmavam desconhecer o paradeiro do cantor. Daí em diante pipocaram novas matérias. Os maiores jornais do país noticiaram o sumiço, o Fantástico fez uma matéria, até a imprensa estrangeira repercutiu o assunto. Novas informações começaram a aparecer: Belchior teria dívidas com hotéis e estacionamentos. Especulações também surgiram: com a carreira em baixa, o cancionista estaria tentando criar um factoide que o levasse novamente aos holofotes.

E não faltaram, é claro, as piadas na internet: numa delas, Belchior figura entre os personagens do seriado Lost; noutra, murmura-se que seu desaparecimento faz parte de um mistério mais amplo, a envolver o sumiço de outros cantores, como Biafra, Silvinho (aquele do ursinho Blau Blau) etc. O mistério levou apenas três semanas até ser esclarecido, pelo Fantástico, que na edição do dia 30 de agosto revelou o paradeiro de Belchior e arrancou dele uma entrevista. Ao assistir à reportagem do Fantástico, fiquei ao mesmo tempo indignado e apavorado.


Vigiar e perseguir

Antes de entrar a reportagem, um solene Tadeu Schmidt anuncia o fim do mistério: Belchior foi localizado pelo Fantástico. Em seguida, Patrícia Poeta, em tom de reproche maternal, diz que o cancionista, "que se afastou da família, dos amigos e dos fãs, deu as suas razões à repórter Sônia Bridi". Pronto, começou o pesadelo.

O que vem a seguir é uma demonstração assustadora do funcionamento de uma sociedade de controle, onde um desvio existencial, mesmo que não diga respeito a mais ninguém, é tornado objeto de visibilidade, escrutínio, sarcasmo e julgamento públicos. É importante observar que a perseguição a Belchior não partiu da Justiça, a fim de que ele saldasse suas possíveis dívidas, mas sim da mídia; isto é, não foi movida por um legítimo interesse público (que não se confunde com uma espetacularização pública), mas por uma mistura de jornalismo de fofoca e vigilância coletiva, por meio da qual se pode ler um sintoma, a que voltarei.

O Fantástico recebeu pistas de pessoas que haviam estado recentemente com Belchior. Por meio delas, reuniram-se evidências de que ele estivera nas últimas semanas no Uruguai. Sim, evidências, porque foram enviadas fotos de Belchior em situações privadas (com o acoplamento de máquinas fotográficas em celulares, todo cidadão que os possui torna-se um delator em potencial). Em seguida, os repórteres receberam um e-mail anônimo que revelava o paradeiro de Belchior: ele estaria na pequena cidade de San Gregorio de Polanco, nos pampas uruguaios. O Fantástico não demorou a achar a pousada em que Belchior estava hospedado. Ao ligar para ela, alguém disse que o (a esta altura) fugitivo estivera lá, porém já fora embora. "Mas era mentira", conta a repórter Sônia Bridi, que, desconfiada, vai até lá e chega à porta de Belchior com a câmera ligada.

Já então era óbvio que Belchior não queria ser encontrado. Mas o desejo - e esse desejo não deve ser reconhecido como um direito? - de privacidade não conta para o Fantástico. A repórter bate na porta, Belchior não quer conversa, mas ela insiste, ronda a casa, sussurra com a voz mais cínica do mundo: "A gente veio de tão longe pra te encontrar, tem tanta gente te procurando lá no Brasil...".

Belchior deve ter resistido por horas, pois as primeiras imagens são ainda de dia, e quando ele finalmente cede já é noite. Sai de casa e quase podemos ouvir o famoso bordão futebolístico: "Taí o que você queria". O Fantástico triunfa, o que há de mais desrespeitoso nas pessoas também. E Belchior? Com uma aparência existencialmente saudável, ironiza com sutileza e bom humor o absurdo da invasão; diz ter achado estranha a primeira matéria do Fantástico (que ele viu pela internet), que aquilo nada tinha a ver com ele, e que ele não é uma celebridade.

Em seguida, recusa-se, com coragem firme, a responder a questões a respeito de sua vida privada. Num momento antológico, constrange a repórter - e, por extensão, espero, todos que compartilhavam ali a posição dela - ao afirmar que não tem interesse pela vida privada de niguém. Esclarece que sua presença ali se deve a um trabalho "muito especial" que está sendo desenvolvido por ele, a tradução de todo o seu cancioneiro para a língua espanhola, aproveitando para lembrar sua ligação com a América Latina, citando seu verso "Eu sou apenas um rapaz latino-americano".

Da perspectiva do perseguidor, o ponto central da cena reside na seguinte pergunta da repórter: "Você não deixou de fazer contato com sua família, com seus amigos, nesse período?". Essa pergunta retoma o tom de mamãe controladora de Patrícia Poeta. Nela está implícito nada menos do que isso: ninguém tem o direito de abandonar (mesmo provisoriamente) sua família e seus amigos, e se tiver essa audácia será julgado em público por ela. Ninguém tem o direito de em algum momento querer reinventar-se, ou simplesmente querer afastar-se, sem pedir a bênção aos demais.

A perseguição a Belchior, então, parece assumir um caráter sintomático: é precisamente porque todo mundo tem, já teve, terá ou pode ter esse desejo de reinventar-se, e não consegue realizá-lo ou nem ao menos assumi-lo, que aquele que o levou adiante deve ser perseguido, descoberto e recolocado em seu lugar. Deve ser lembrado de que tem satisfações a dar e de que, no limite, sem o consentimento dos outros, não pode se afastar deles. Pois os outros não querem ser lembrados de suas próprias covardias ou mediocridades existenciais.

É tênue a fronteira entre a curiosidade, o jornalismo e o desrespeito brutal. É revoltante (e apavorante) que essa questão não seja sequer colocada pelos que estão prestes a atravessá-la. Nos anos 1970, David Locke estava trancado em sua subjetividade; o caso Belchior vem nos lembrar que, hoje, estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca se fecham.


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fonte: Revista Cult --