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01 janeiro, 2009
03 agosto, 2008
Miniconto - A paixão
Eu disse que ficaria com ele quando (ele) não precisasse mais de mim, pois não consigo ficar nesta posição de um homem na minha sombra, como eu nao quero ficar na sombra de homem algum. Ele entendeu. Foi quando eu me apaixonei.
F.R.
F.R.
30 janeiro, 2008
Inventário - Um outro eu descartável (parte II)

Inventário - Um outro eu descartável (parte II)
Por Solange Pereira Pinto, nem tão bão assim
Para Fernanda Ramirez
Os seres humanos são miméticos ou camaleônicos? Vêm do pó ou do lamaçal? Limbo. É. Era sim, um outro eu. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. Desses pós-eu-antigo-ou-antes-eu-amanhã. Um eu atual mesmo. Do formato do imediatamente. Lucidamente insano. “Você é fodona! Um beijo do caralho pra vc”. Poderia soar agressivo. Por vez, grotesco? A um fodão, não. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando. Conhecia bem o gosto de nicotina. Reconhecia álcool com suor. Interpretava a rosa dos ventos. Via constelações de bêbados cruzando escadas. Conhecia Efeméride. O barman lhe sabia o apelido. Quem mandava, o dinheiro ou a loucura? O status ou a beleza? O adjetivo de dois gêneros alertava: “que pode ou deve ser descartado; que não se destina a conservar nem a consertar; que se deita fora após uma ou mais utilizações”. A força física ou a moral? A inteligência ou a esperteza? Para aonde se erguia o poder? O colete salva-vidas daquela noite era seduzir. Não perecer. Insensatez benigna das madrugadas entediadas. Do formato do imediatamente. Vestiu os olhos de doidice e largou tiros pela pista de dança. Um. Dois. Cinco. Nove. Mulheres atônitas. Homens pasmados. A criptonímia nos lábios. Treze. Quinze. Dezoito. Outra rajada de piscadelas inominadas. O cara lhe veio em direção. Tirou-lhe um sarro. Tascou-lhe na boca. HAHAHAH. Sem medo. Ali estava o poder. No anonimato. Na convicção. Na intensidade. Na dúvida do outro. Do outro outrem. É. Era sim, um outro eu. Do formato do imediatamente. Ninguém ousou interromper. Um. Dois. Cinco. Nove. Quem mandava era a coragem e a loucura. Com doideira não se mexe. “Não ultrapasse”. Ela estava lá. A maluquice encarnada de azul, dançando na boate. Poderosa. Diabólica. Feiticeira. A extravagância entre dentes: “tá tudo dominado”. A platéia do bom-senso e dos bons-costumes repetia em coro: “tá, tá, tatá, tatá, tá!”. É. Era sim, um outro eu. Do formato do imediatamente. Na pequenez do suficiente. O poder. Na mão. No corpo. No anjo caído. No copo. É. Era sim, um outro eu. Na ousadia. Lançando o peso da obediência ao surpreendido. Dotando o curioso. O sagaz. Uma alegria esbanjada. Era um outro eu descartável. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. Do formato do imediatamente. No ângulo do oblíquo. No tom do paradoxo. À volta, tudo aparentemente igual. Se não fossem os dias atabalhoados passando... Bebeu a terceira garrafa de água. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal... Do formato do rotineiramente. Ele surgia mudo. Impetuosamente descartável noutro. Um beijo do caralho.
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29 janeiro, 2008
Inventário - Um outro eu descartável

Inventário - Um outro eu descartável (parte I)
Por Solange Pereira Pinto
Para Celso Murilo
Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando. Ir à festinha, nem pensar. Usar o próprio tempo com alguém estava raro. Melhor assim. Quer dizer, possível. Não tardaria o dia em que todos reclamariam de tão estranha criatura e manias. Hábitos nada saudáveis: trocar o dia pela noite. Tempos modernos para velhos corpos e cabeças. Afinal, nada havia mudado tanto. Em dois mil anos, aliás em milhões de milênios, deixa prá lá. Coisa tola era querer fazer do seu dia o seu inferno, pois tanta cobrança para quem quer paz, não se fazia boa idéia. Era tolice, porém era o que lhe restava, supunha. Continuava a chatice. "Oi, vamos sair?". "Ei, se anima!". "Ah, que preguiça é essa?!". "Vamo lá". "Não pode continuar desse jeito!". Tanta cantilena aos ouvidos rendeu uma saída. Daquelas. Redenção. Começou no papo besta e na cerveja. Uma. Duas. Cinco. Nove. Engata papo meio-cabeça-meio-pileque. Doze. Senta gente. Some gente. Desce copo. Baixa santo. Sobe espuma. Levanta as idéias. Queima o fogo. Incendeia o diabo. Muda de boteco. Uma. Duas. Cinco. Chega a hora do tum-tum-tam-tam-tec-tec. Bate-estaca. Bate-punheta. Bate-zorra. Bate-piração. A pista de dança semi-cheia. A idéia lotada. zummm. zoom. zomp. zump. Rebola. Abaixa. Sobe. Rebaixa. Beija. Esfrega. Lambe. Arregaça. Inferniza. Ataca. Come. Vira. Pega. Larga. Beija. Beija. Beija. Some. Ri. Disfarça. Escancara. Surta. Pega carona. Apaga... Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando... Conta a história ao amigo de décadas. Ele sorri e arremata: "que nada, não esquenta. Era um outro eu descartável". É. Era sim, um outro eu. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. A gente tem vários desses. Ou daqueles. Usa. Tira. Descarta. Levanta a tampa do vaso e vomita. Dá descarga e a ressaca moral escorrega para o bueiro. Lá se vai você pelo ralo. Aliás, pelo ralo já se tinha ido no dia anterior... ou quando?
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13 setembro, 2006
O telefonema da semana passada
Foto e texto por Solange Pereira Pinto

- O que você está pensando da vida seu infeliz? Trepa com outra mulher e manda flores para mim? Por que você não mete esse buquê no rabo daquela vaca?
- Você está maluca?
- Ah, ah, ah, você acha que eu sou idiota? Não me venha com cantilenas baratas e as mesminhas desculpas dos últimos dez anos! Estou de saco cheio desta relação, desta vida de merda! Está esperando o quê para carregar suas malas de vez?
- Você está histérica, mulher. Que porra de...
- Cala a boca! Cala essa sua boca nojenta! Seu estúpido, imoral, babaca!
- Tá maluca? Endoidou? Cê tá falando do quê?
- Ah, ah, ainda por cima é irônico! Vou dar na sua cara seu...
Num golpe rápido, Luiz segura os braços de Crisálida evitando que o tapa lhe espatife os óculos na face. As crianças passavam o fim-de-semana na casa dos avós. As malas de couro negro esperavam na garagem. Subiu para buscar o pintassilgo. Crisálida atirou pela primeira vez. Orgulho. Raiva. Há dois anos moravam no apartamento luxuoso da cobertura. Detalhadamente preto e branco. Sofás. Móveis. Tapetes. Quadros. Enfeites. Pouca cor. Recém-decorado por Flávia. Com os olhos espatifados a porta se fechou. O vaso de estanho fincou marca na parede. Ficaram caídas. Dúzias de flores vermelhas esparramadas junto aos cacos de cristais boêmia no canto direito. Do parapeito a água amarelo-esverdeada escorria pela sacada riscando prédio abaixo. O entregador chegara poucas horas após Luiz avisar Flávia que ele se mudaria naquela noite de sábado. Não passava do meio-dia.
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