20 outubro, 2009

Mãe é mãe??? MENTIRA!!!

recebi por email e gostei... confira os mitos (quebrados) sobre maternidade...

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MÃE É MÃE: mentira!!!
Mãe foi mãe, mas já faz um tempão!
Agora mãe é um monte de coisas: é atleta, atriz, é super star.
Mãe agora é pediatra, psicóloga, motorista.

Também é cozinheira e lavadeira.
Pode ser política, até ditadora, não tem outro jeito.
Mãe às vezes também é pai. Sustenta a casa, toma conta de tudo, está jogando um bolão.
Mãe pode ser irmã: empresta roupa, vai a shows de rock pra desespero de alguns filhos, entra na briga por um namorado.

Mãe é avó! ):
Moderníssima, antenadíssima, não fica mais em cadeira de balanço, se quiser também namora, trabalha, adora dançar.
Mãe pode ser destaque de escola de samba, guarda de trânsito, campeã de aeróbica, mergulhadora.
Só não é santa, a não ser que você acredite em milagres.
Mãe já foi mãe, agora é mãe também.

MÃE É UMA SÓ: mentira !!!
Sabe por quê? Claro que sabe!
Toda criança tem uma avó que participa, dá colo, está lá quando é preciso.
De certa forma, tem duas mães.
Tem aquela moça, a babá, que mima, brinca, cuida.
Uma mãe de reserva, que fica no banco, mas tem seus dias de titular.
E outras mulheres que prestam uma ajuda valiosa. Uma médica que salva uma vida, uma fisioterapeuta que corrige uma deficiência, uma advogada que liberta um inocente, todas são um pouco mães.
Até a maga do feminismo, Camille Paglia, que só conheceu instinto maternal por fotografia, admitiu uma vez que lecionar não deixa de ser uma forma de exercer a maternidade.
O certo então, seria dizer: mãe, todos têm pelo menos uma.

Ser mãe é padecer no paraíso: mentira!!!
Que paraíso, cara-pálida?
Paraíso é o Taiti, paraíso é a Grécia, é Bora-Bora, onde crianças não entram.
Cara, estamos falando da vida real, que é ótima muitas vezes, e aborrecida outras tantas, vamos combinar.
Quanto a padecer, é bobagem. Tem coisas muito piores do que acordar de madrugada no inverno pra
amamentar o bebê, trocar a fralda e fazer arrotar.
Por exemplo?
Ficar de madrugada esperando o filho ou filha adolescente voltar da festa na casa de um amigo que você nunca ouviu falar, num sítio que você não tem a mínima idéia de onde fica. Aí a barra é pesada, pode crer...

Maternidade é a missão de toda mulher: mentira!!!
Maternidade não é serviço militar obrigatório, caraca!
Deus nos deu um útero, mas o diabo nos deu poder de escolha. Como já disse o Vinicius: filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-los? Vinicius era homem e tinha as mesmas dúvidas.
Não tê-los não é o problema, o problema é descartar essa experiência.
Como eu preferi não deixar nada pendente pra a próxima encarnação, vivi e estou vivendo tudo o que eu acho que vale a pena nesta vida mesmo, que é pequena, mas tem bastante espaço.
Mas acredito piamente que uma mulher pode perfeitamente ser feliz sem filhos, assim como uma mãe padrão, dessas que têm umas seis crianças na barra da saia, pode ser feliz sem nunca ter conhecido Paris, sem nunca ter mergulhado no Caribe, sem nunca ter lido um poema de Fernando Pessoa. É difícil, mas acontece.

Mamãe, eu quero: verdade!!!
Você pode não querer ser uma, mas não conheço ninguém que não queira a sua.

19 outubro, 2009

blog legal

visite o blog de FERNANDO LUCIO - ARTE.COM.CIÊNCIA
"É preciso buscar a harmonia através da Arte e nunca esquecê-la, assim a paz estará existindo para sempre".

O Analista de Sistemas e a Engenheira

Um analista de sistemas meio(!?) introvertido finalmente conseguiu realizar o sonho da sua vida: um cruzeiro.

Era a coisa mais doida que tinha feito até então. Estava começando a desfrutar da viagem quando um furacão virou o navio como se fosse uma caixa de fósforos...
O rapaz conseguiu agarrar-se a um salva-vidas e chegar a uma ilha aparentemente deserta e muito remota.
Deparou-se com uma cena belíssima:
cachoeira, bananas, coqueiros... mas quase nada além disso. Ele se sentiu desesperado e completamente abandonado.
Vários meses se passaram, até que um belo dia apareceu, remando, uma belíssima engenheira, daquelas de fazer parar o trânsito.
A engenheira começou logo uma conversa:
- Eu sou do outro lado da ilha. Você também estava no cruzeiro?
- Estava! Mas onde conseguiu esse bote?
- Simples: eu sou engenheira e usei meus conhecimentos!
Tirei alguns galhos de árvores, sangrei umas seringueiras, defumei até virar borracha, reforcei os galhose fiz a quilha e os remos com madeira de eucalipto.
- Mas..... com que ferramentas?
- Bom, achei uma camada de material rochoso, evidentemente formado por aluviões.
Descobri que esquentando esse material a certa temperatura, ele assumia uma forma muito maleável. Mas chega disso!
Onde você tem vivido esse tempo todo?
Não vejo nada parecido com um teto...
- Para ser franco, eu tenho dormido na praia.....
- Gostaria de ver a minha casa?
O analista de sistemas aceitou, meio sem jeito.
A engenheira remou com extrema destreza ao redor da ilha.
Quando chegou no 'seu' lado, amarrou a canoa com uma corda que mais parecia uma obra-prima de artesanato.
Os dois caminharam por uma passarela de pedras e madeira construída pela engenheira, e depararam, atrás de um coqueiro, com um lindo chalé construído sobre palafitas, pintado de azul e branco.
- Não é muito, disse ela, mas eu o chamo de 'meu lar'.
Já dentro, ela procurou deixá-lo à vontade:
- Sente-se, por favor! Aceita um drinque?
- Não, obrigado! Não agüento mais água de coco!
- Mas não é água de coco! Eu tenho um alambique meio rudimentar lá fora, de forma que podemos tomar Piñas coladas autênticas!
Tentando esconder a surpresa, o analista de sistemas aceitou.
Sentaram no sofá dela para conversar.
Depois de contarem suas histórias, a engenheira perguntou:
- Você sempre teve barba?
- Não.. Toda a vida eu andei bem barbeado.
- Bom, se quiser se barbear, tem uma navalha lá em cima, no armarinho do banheiro.
O homem já não perguntava mais nada.
Subiu uma escada em caracol e foi em cima, no banheiro, e fez a barba com um complicado aparelho feito de osso e conchas, tão afiado quanto uma navalha.
A seguir, tomou um bom banho, sem nem querer arriscar palpites sobre como ela tinha água quente no banheiro.
Desceu sem poder deixar de se maravilhar com o acabamento do corrimão.
- Você ficou ótimo! Vou lá em cima também me trocar por algo mais confortável.
Nosso herói continuou bebericando sua piña colada.
Em instantes a engenheira estava de volta, com um delicioso perfume de gardênias e vestindo um estonteante e revelador robe, muito bem trabalhado em folhas de palmeira.
- Bom, disse ela, ambos temos passado um longo tempo sem qualquer companhia...
Você não tem se sentido solitário?
Há alguma coisa de que você sente muita saudade?
Que lhe faz muita falta e da qual todos os homens e mulheres precisam?
- Mas é claro, disse ele esquecendo um pouco a sua timidez.
Tem uma coisa que venho querendo todo esse tempo.
Até sonho com isso à noite. Mas... aqui nesta ilha... sabe como é... era simplesmente impossível.
- Bom, ela disse com um sorriso maroto, já não é mais impossível, se é que você me entende...
O rapaz, tomado de uma excitação incontrolável, disse, quase sem fôlego:
- Não acredito! Você não está querendo dizer que... você bolou um jeito de acessar a internet aqui na ilha?

aluno passivo no século XXI?

"A forma de organização e funcionamento da escola foi pensada para o século 19 e parte do século 20. Há uma cultura escolar rígida e inflexível que leva o aluno a uma postura passiva. (...) O aluno não faz um trabalho sozinho para ser guardado na gaveta. Ele pode fazer um trabalho com relevância social, que será lido e compartilhado com todo mundo. Com isso, você estimula ética, cidadania, responsabilidade social e mostra que o estudante pode interferir no mundo. Ao mesmo tempo, transforma a escola em algo que tem mais a ver com o mundo dele. A internet possibilita um trabalho colaborativo e libertário, mas a minoria dos usuários sabe manipular esses recursos. A maioria só usa parte disso."

Márcia Padilha, especialista em tecnologias de comunicação da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) (O Estado de SP, 28/9)

18 outubro, 2009

QUATRO LIÇÕES BÁSICAS DE SOBREVIVÊNCIA NO EMPREGO

Lição número um


Um urubu está pousado numa árvore, fazendo nada o dia todo. Um coelho viu o urubu e perguntou:


– Posso sentar como você e ficar fazendo nada o dia todo?


O urubu respondeu:


– Claro, por que não?


Assim, o coelho sentou-se embaixo da árvore e ficou descansando. Subitamente apareceu uma raposa que saltou sobre o coelho e o comeu...

MORAL DA HISTÓRIA: Para ficar sentado sem fazer nada, você precisa estar sentado muito, muito alto.









Lição número dois


O peru estava batendo papo com o touro.


– "Eu adoraria ser capaz de chegar ao topo daquela árvore", suspirou o peru, "mas não tenho força..."


– "Ora," replicou o touro, "por que você não come um pouco do meu esterco? Ele tem muitos nutrientes".


O peru bicou um pedaço de esterco e verificou que realmente isso lhe dava a força necessária para chegar ao primeiro galho de árvore. No dia seguinte, depois de comer mais uns bons nacos de esterco, ele chegou ao segundo galho. Finalmente depois de duas semanas, comendo esterco de boi, de búfalo, das zebras, ele estava orgulhosamente empoleirado no alto da árvore. Imediatamente foi visto por um fazendeiro que atirou nele...

MORAL DA HISTÓRIA: Qualquer bosta pode levar você ao topo, mas não manterá você lá.










Lição número três:


Quando o corpo foi criado, todas as partes queriam ser chefe. O cérebro foi logo dizendo:


– Eu deveria ser o chefe, porque controlo todas as respostas e funções do corpo.


Os pés disseram:


– Nós deveríamos ser o chefe, porque carregamos cérebro para onde ele quiser ir.


As mãos disseram:


– Nós é que deveríamos ser o chefe, porque fazemos todo trabalho e ganhamos o dinheiro.


E assim foi com o coração, pulmões, olhos, até que chegou a vez de o cu falar. Todas as partes riram do cu por querer ser o chefe. E foi daí que ele entrou em greve, bloqueou-se e recusou-se a trabalhar.


Em pouco tempo os olhos ficaram vesgos, as mãos crisparam, os pés se retorceram, o coração e os pulmões entraram em pânico e o cérebro teve febre. No final todos, concordaram, e o cu passou a ser o chefe. Todas as outras partes, então, faziam seu trabalho, e o chefe ficava sentado e deixava a merda passar!

MORAL DA HISTÓRIA: Você não precisa de cérebro para poder ser um chefe; qualquer cuzão pode ser.









Lição número quatro:

Era uma vez um pardal cansado da vida... Um dia, resolveu sair voando pelo mundo em busca de aventura. Voou até chegar numa região extremamente fria e foi ficando gelado até não poder mais voar e caiu na neve. Uma vaca, vendo o pobre pardal naquela situação, resolveu ajudá-lo e cagou em cima dele. Ao sentir-se aquecido e confortável, o pardal começou a cantar. Um gato ouviu o seu canto e foi até lá, retirou-o da merda e o comeu...

MORAL DA HISTÓRIA:
1)Nem sempre aquele que caga em cima de você é seu inimigo;
2) Nem sempre quem tira você da merda é seu amigo;
3) Desde que você se sinta quente e confortável, mesmo que esteja na merda, conserve seu bico fechado!!!

17 outubro, 2009

Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta

Big Brother Belchior
Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta


por Francisco Bosco


No famoso plano-sequência de Profissão: Repórter, o assassinato de David Locke é narrado de modo indireto, por meio de uma janela com grade. Mas a força da cena não está exatamente em seu caráter indireto - o qual sempre se exalta - e sim na mediação da janela gradeada. Como se sabe, o repórter David Locke aproveita-se da morte de um desconhecido em um vilarejo remoto na África para falsificar sua própria morte e assumir a identidade do outro.

O que está em jogo para ele é uma tentativa de sair radicalmente de si. Como repórter, ele viaja o mundo fazendo entrevistas, matérias, documentários, mas sente que os deslocamentos geográficos e culturais não o levam a afastar-se de si próprio, pois ele, em suas palavras, acaba codificando toda a diferença nos seus (dele) próprios termos, fazendo-a desembocar sempre de volta no registro da identidade. Ao valer-se da morte de um desconhecido para tentar desconhecer-se, Locke vê-se herdeiro imediato da vida desse outro, David Robertson, um traficante internacional de armas.

Passa, então, a ser perseguido por agentes de um governo africano, pois Robertson fornecia armas para uma guerrilha que se lhe opunha. Ao mesmo tempo, a ex-mulher de Locke descobre que a morte de Robertson foi falsificada e começa ela também a persegui-lo. Locke não demora muito para concluir que sua tentativa fracassara. Não lhe bastara colar sua foto no passaporte de outro para transformar-se em outra pessoa. Pior, agora ele estava multiplamente emparedado: dentro de si mesmo, dentro da realidade de outro (mas não de sua subjetividade) e dentro de seu passado, que não pudera aniquilar. O emparedamento descortina-lhe o nome: David Locke, Locke D., ou seja, locked, trancado.

É por isso que o famoso plano-sequência é narrado através da janela gradeada, que assoma, então, como o correlato material da impossibilidade existencial a que se lançou Locke. Dentro do quarto, ele dorme, enquanto, pelas grades - portanto, da perspectiva dele -, vemos a realidade que lhe assaltaria, mas que ele não podia alcançar. Vemos, então, os agentes chegarem, andarem na direção do hotel e saírem do enquadramento.

Em seguida, ouvimos um tiro. A partir daí há uma extraordinária inversão de perspectiva. A jovem que Locke conhecera em Barcelona e passara a acompanhá-lo em sua fuga entra no quarto no mesmo momento que a ex-mulher dele, acompanhada da polícia. O policial pergunta, primeiro à ex-mulher: "Você o reconhece?", ao que ela responde: "Eu nunca o conheci". Em seguida, a mesma pergunta é dirigida à jovem, e sua resposta é: "Sim". Essa cena é narrada de fora para dentro da janela gradeada.

Da perspectiva da ex-mulher, havia também um emparedamento em Locke; ela nunca pôde conhecê-lo, embora tivesse vivido com ele muitos anos. Já a jovem, cujo nome não vem à tona, e a quem Locke se apresentara sob um nome falso, afirma, sem hesitar, tê-lo conhecido (confirmando uma frase de Barthes segundo a qual "conhecer alguém é conhecer-lhe o desejo").


Onde está Belchior?

O filme de Antonioni é de meados dos anos 1970. Sua questão é existencial: é possível reinventar-se completamente, ser radicalmente outro? A resposta do filme é não - mas não é isso que desejo investigar aqui. Quero chamar atenção para o fato de que, mesmo sendo Locke um repórter, a mídia não é uma questão fundamental para o filme. As forças que lhe saem à captura são a polícia, os agentes do governo africano e sua ex-mulher, ajudada pela embaixada. Locke consegue sair da África e ir para Londres, daí para Barcelona, daí para cidades pequenas na Espanha, até ser encontrado - e tudo isso se passa em registro de experiência privada. Agora cortemos para agosto de 2009, onde vamos acompanhar outra perseguição, bem diferente.

A primeira notícia de que Belchior havia desaparecido foi publicada num site. Nele, depoimentos de amigos e parentes afirmavam desconhecer o paradeiro do cantor. Daí em diante pipocaram novas matérias. Os maiores jornais do país noticiaram o sumiço, o Fantástico fez uma matéria, até a imprensa estrangeira repercutiu o assunto. Novas informações começaram a aparecer: Belchior teria dívidas com hotéis e estacionamentos. Especulações também surgiram: com a carreira em baixa, o cancionista estaria tentando criar um factoide que o levasse novamente aos holofotes.

E não faltaram, é claro, as piadas na internet: numa delas, Belchior figura entre os personagens do seriado Lost; noutra, murmura-se que seu desaparecimento faz parte de um mistério mais amplo, a envolver o sumiço de outros cantores, como Biafra, Silvinho (aquele do ursinho Blau Blau) etc. O mistério levou apenas três semanas até ser esclarecido, pelo Fantástico, que na edição do dia 30 de agosto revelou o paradeiro de Belchior e arrancou dele uma entrevista. Ao assistir à reportagem do Fantástico, fiquei ao mesmo tempo indignado e apavorado.


Vigiar e perseguir

Antes de entrar a reportagem, um solene Tadeu Schmidt anuncia o fim do mistério: Belchior foi localizado pelo Fantástico. Em seguida, Patrícia Poeta, em tom de reproche maternal, diz que o cancionista, "que se afastou da família, dos amigos e dos fãs, deu as suas razões à repórter Sônia Bridi". Pronto, começou o pesadelo.

O que vem a seguir é uma demonstração assustadora do funcionamento de uma sociedade de controle, onde um desvio existencial, mesmo que não diga respeito a mais ninguém, é tornado objeto de visibilidade, escrutínio, sarcasmo e julgamento públicos. É importante observar que a perseguição a Belchior não partiu da Justiça, a fim de que ele saldasse suas possíveis dívidas, mas sim da mídia; isto é, não foi movida por um legítimo interesse público (que não se confunde com uma espetacularização pública), mas por uma mistura de jornalismo de fofoca e vigilância coletiva, por meio da qual se pode ler um sintoma, a que voltarei.

O Fantástico recebeu pistas de pessoas que haviam estado recentemente com Belchior. Por meio delas, reuniram-se evidências de que ele estivera nas últimas semanas no Uruguai. Sim, evidências, porque foram enviadas fotos de Belchior em situações privadas (com o acoplamento de máquinas fotográficas em celulares, todo cidadão que os possui torna-se um delator em potencial). Em seguida, os repórteres receberam um e-mail anônimo que revelava o paradeiro de Belchior: ele estaria na pequena cidade de San Gregorio de Polanco, nos pampas uruguaios. O Fantástico não demorou a achar a pousada em que Belchior estava hospedado. Ao ligar para ela, alguém disse que o (a esta altura) fugitivo estivera lá, porém já fora embora. "Mas era mentira", conta a repórter Sônia Bridi, que, desconfiada, vai até lá e chega à porta de Belchior com a câmera ligada.

Já então era óbvio que Belchior não queria ser encontrado. Mas o desejo - e esse desejo não deve ser reconhecido como um direito? - de privacidade não conta para o Fantástico. A repórter bate na porta, Belchior não quer conversa, mas ela insiste, ronda a casa, sussurra com a voz mais cínica do mundo: "A gente veio de tão longe pra te encontrar, tem tanta gente te procurando lá no Brasil...".

Belchior deve ter resistido por horas, pois as primeiras imagens são ainda de dia, e quando ele finalmente cede já é noite. Sai de casa e quase podemos ouvir o famoso bordão futebolístico: "Taí o que você queria". O Fantástico triunfa, o que há de mais desrespeitoso nas pessoas também. E Belchior? Com uma aparência existencialmente saudável, ironiza com sutileza e bom humor o absurdo da invasão; diz ter achado estranha a primeira matéria do Fantástico (que ele viu pela internet), que aquilo nada tinha a ver com ele, e que ele não é uma celebridade.

Em seguida, recusa-se, com coragem firme, a responder a questões a respeito de sua vida privada. Num momento antológico, constrange a repórter - e, por extensão, espero, todos que compartilhavam ali a posição dela - ao afirmar que não tem interesse pela vida privada de niguém. Esclarece que sua presença ali se deve a um trabalho "muito especial" que está sendo desenvolvido por ele, a tradução de todo o seu cancioneiro para a língua espanhola, aproveitando para lembrar sua ligação com a América Latina, citando seu verso "Eu sou apenas um rapaz latino-americano".

Da perspectiva do perseguidor, o ponto central da cena reside na seguinte pergunta da repórter: "Você não deixou de fazer contato com sua família, com seus amigos, nesse período?". Essa pergunta retoma o tom de mamãe controladora de Patrícia Poeta. Nela está implícito nada menos do que isso: ninguém tem o direito de abandonar (mesmo provisoriamente) sua família e seus amigos, e se tiver essa audácia será julgado em público por ela. Ninguém tem o direito de em algum momento querer reinventar-se, ou simplesmente querer afastar-se, sem pedir a bênção aos demais.

A perseguição a Belchior, então, parece assumir um caráter sintomático: é precisamente porque todo mundo tem, já teve, terá ou pode ter esse desejo de reinventar-se, e não consegue realizá-lo ou nem ao menos assumi-lo, que aquele que o levou adiante deve ser perseguido, descoberto e recolocado em seu lugar. Deve ser lembrado de que tem satisfações a dar e de que, no limite, sem o consentimento dos outros, não pode se afastar deles. Pois os outros não querem ser lembrados de suas próprias covardias ou mediocridades existenciais.

É tênue a fronteira entre a curiosidade, o jornalismo e o desrespeito brutal. É revoltante (e apavorante) que essa questão não seja sequer colocada pelos que estão prestes a atravessá-la. Nos anos 1970, David Locke estava trancado em sua subjetividade; o caso Belchior vem nos lembrar que, hoje, estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca se fecham.


franciscobosco@terra.com.br
fonte: Revista Cult --

11 outubro, 2009

Desconstrução

por Fellipe Figueiroa


Criou daquela vez como se fosse a última.
Fez cada job seu como se fosse o único.
Pensou o dia inteiro e ficou o máximo.
Mandou pro atendimento num e-mail tímido.

Teve que refazer como se fosse máquina.
A campanha reprovada com argumentos sórdidos.
Criou mais uma vez outros roteiros mágicos.
Esperou aprovação como se fosse lógico.

O cliente não gostou e aconteceu o trágico:
pediu pra refazer como se fosse um príncipe.
Tentou reagir mas se sentiu estático.
Pensou mais uma vez no concurso público.

E virou a noite inteira parecendo um bêbado.
Comeu pizza de novo e ficou mais flácido.
Bebeu a noite inteira cafezinhos básicos.
Saiu de manhazinha se sentindo estúpido.
E ainda teve que voltar pra terminar no sábado.

07 outubro, 2009

Exercícios práticos para treinamento de futuros papais e mamães:

(O grau de
> dificuldade de cada exercício é equivalente a tratar de uma criança com um
> ano de idade) :
>
> Vestindo a roupinha:
> Compre um polvo vivo de bom tamanho e vá colocando, sem machucar a criatura,
> nesta ordem: fraldas, macaquinho, blusinha, calça, sapatinhos, casaquinho e
> touquinha. Não é permitido amarrar nenhum dos membros.
> Tempo de execução da tarefa: uma manhã inteira.
>
> Comendo sopinha:
> Faça um buraquinho num melão, pendure o melão no teto com um barbante
> comprido e balance-o vigorosamente. Agora tente enfiar a colherinha com a
> sopa no buraquinho. Continue até ter enfiado pelo menos metade da sopa pelo
> buraquinho. Despeje a outra metade no seu colo. Não é permitido gritar.
> Limpe o melão, limpe o chão, limpe as paredes,
> limpe o teto, limpe os móveis à volta. Vá tomar um banho. Tempo para
> execução
> da tarefa: uma tarde inteira.
>
> Passeando com a criança:
> Vá para a pracinha mais próxima. Agache-se e pegue uma bituca de cigarro.
> Atire fora a bituca, dizendo com firmeza: NÃO. Agache-se e pegue um palito
> de picolé sujo. Atire fora o palito, dizendo com firmeza: NÃO. Agache-se e
> pegue um papel de bala. Atire fora o papel de bala, dizendo com firmeza:
> NÃO. Agache-se e pegue uma barata morta. Atire fora a barata morta, dizendo
> com firmeza: NÃO. Faça isso com todas as porcarias que encontrar no chão da
> pracinha. Tempo para execução: o dia inteiro.
>
> Passando a noite com o bebê:
> Pegue um saco de arroz e passeie pela casa com ele no colo das 20 às
> 21horas. Deite o saco de arroz. Às 22:00 pegue novamente o saco e passeie
> com ele até às 23:00. Deite o saco e vá se deitar. Levante à 1:30 e passei
> com o saco até 2:00. Deite o saco e você. Levante às 2:15 e vá ver a sessão
> corujão porque não consegue mais pegar no sono.
> Deite às 3:00. Levante às 3:30, pegue o saco de arroz e passeie com ele até
> às 4:15. Deitem-se os dois (cuidado para não usar o saco de travesseiro).
> Levante às 6:00 e pratique o exercício de alimentar o melão. É permitido
> chorar.
>
> Repita tudo o que disser, pelo menos cinco vezes. Repita a palavra NÃO a
> cada 10 minutos, fazendo o gesto
> com o dedinho. Gaste uma parcela significativa do seu orçamento com leite em
> pó, fraldas, brinquedos, roupinhas.
> Passe semanas a fio sem transar, sem ir ao cinema, sem beber, sem sair com
> amigos. Não é permitido enlouquecer!

Editora Abril vai pagar indenização por danos morais por artigo na Playboy





Publicação Correio Braziliense: 06/10/2009 14:02

or unanimidade a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a Editora Abril pagará indenização por danos morais à dentista que apareceu em matéria da revista Playboy. A mulher não autorizou que uma foto sua ilustrasse a matéria “Ranking Playboy Qualidade de Vida – As 10 melhores cidades brasileiras para a população masculina heterossexual viver, beber e transar”. A Turma também entendeu não ser possível acumular juros remuneratórios e moratórios em condenação por danos morais, seguindo o entendimento da relatora, ministra Nancy Andrighi.

A matéria, publicada em abril de 2001, descrevia as cidades brasileiras e era ilustrada com fotos de mulheres tiradas em praias, boates, etc... No caso, a dentista foi fotografada numa praia em Natal (RN), em trajes de banho.

A mulher entrou com ação de indenização, aceita em primeira instância. A Editora Abril foi condenada a pagar 50 salários-mínimos, com juros moratórios desde a publicação do artigo, mais juros compensatórios de 1%. Ambas as partes apelaram. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN) elevou a indenização para 100 salários mínimos e manteve a cumulação dos juros moratórios e remuneratórios.

No recurso ao STJ, a defesa da Editora Abril alegou que, com base no artigo 944 do Código Civil (CC), haveria excesso na fixação da indenização em relação ao dano, devendo-se reduzir o valor. Também alegou ofensa aos artigos 406 e 407 do CC, que definem a cobrança dos juros moratórios, e os artigos 458 e 475, letra J, do Código de Processo Civil (CPC), que, respectivamente, obriga a fundamentação da sentença e regula a multa em caso de atraso em pagamento de quantia certa. Afirmou ainda haver dissídio jurisprudencial, quanto à acumulação dos juros.

No seu voto, a ministra Nancy Andrighi apontou que, na época da publicação da revista, ainda valia o CC de 1916. Apesar de o STJ aceitar o uso de artigos do Código atual, válido desde 2002, não haveria correspondência entre o artigo 944 do novo Código na lei anterior. Portanto, ponderou a ministra, não seria possível para o Tribunal analisar o recurso nesse ponto. Na questão do excesso na fixação da indenização, a ministra Andrighi considerou o valor adequado, ressaltando o fato de esse não ser o único embate judicial quanto á matéria. Em outros casos, o valor da indenização foi mantido. Ela reconheceu que a foto seria de tamanho mínimo, não haveria a citação de nomes e que não poria a dentista em situação vexatória. “Por outro lado, a reportagem traz expressões injuriosas. A existência de ofensa é inegável, mesmo se levado em consideração o tom jocoso da reportagem”, adicionou.

Na questão da cumulação de juros, apontou que o TJRN considerou que uma vez que a indenização foi concedida, tornou-se um “capital” para a vítima, devendo, portanto, ser remunerado de acordo. O tribunal potiguar afirmou também haver jurisprudência no STJ para a aplicação das duas taxas. Para a magistrada não haveria razão alguma para a cumulação dos juros diferentes, já que o moratório é a punição para a inadimplência e o remuneratório é o pagamento por um capital. Afirmou também que os juros legais podem ser tanto remuneratórios como moratórios, sendo estes últimos definidos com mais amplitude na legislação.

A ministra, entretanto, destacou que os juros remuneratórios são previstos apenas para contratos de mútuo para fins econômicos “Ou seja: ainda que não haja convenção específica sobre os juros remuneratórios, eles só podem incidir nessa situação específica prevista pelo legislador”, explicou. Para a ministra, não haveria pedido da dentista para o pagamento dessa taxa e, além disso, estaria sendo criado um contrato onde este não existiria. Com essa fundamentação, a ministra manteve a indenização e os juros moratórios, mas afastou os juros remuneratórios.

06 outubro, 2009

"Os Autores de Hoje São Todos Parecidos"

Entrevista - Décio Pignatari fala de seu novo livro, “Bili com Limão Verde na Mão”, e diz que as artes estão num período de espera pelo novo



Por Francesca Angiolillo






Bili é Belisa. Bili é também bélica e vive uma bilíada, diz o texto de inspiração concretista bolado pelos editores para a quarta capa do novo livro de Décio Pignatari — primeira ficção do autor de 81 anos desde a publicação de Panteros (1992), seu romance de estreia. Bili com Limão Verde na Mão, que chega às livrarias neste mês, é uma obra que, segundo conta o autor, "levou décadas para ser feita", numa saga que começou com uma encomenda de um amigo, em uma data imprecisa entre os anos 60 e 70. "Eu imaginei aplicar uma linguagem minimalista para um conto infantil — um conto infantil para adultos. Queria pegar uma garota vivendo entre um universo rural e urbano e, ao mesmo tempo, vivendo um ritual de passagem para a puberdade." Pronto o livro, o amigo detestou. "A ideia dele do conto infantil era... um conto infantil." O trabalho foi para a gaveta, e, a cada vez que Décio o retomava, complicava um pouco mais o projeto. Até que se cansou, desistiu; até que, finalmente, chegou a oportunidade.

Diz a quadrinha popular: "Atirei um limão verde/ Por cima da sacristia/ Deu no cravo, deu na rosa/ Deu na moça que eu queria". No mundo dividido de Bili, a referência convive com outras, mais ou menos explícitas, a escritores caros ao autor. Assim, a protagonista é parente da Alice de Lewis Carroll, em seu périplo e peripécias; dos anti-heróis picarescos espanhóis, tendo por escudeiro o limão verde (que, contrariando o cancioneiro popular, ao ser atirado pela raivosa Bili, lhe atrai tudo o que ela não quer), e, por que não?, de Leopold Bloom, do Ulisses de James Joyce, que, como ela, empreende em um dia o trajeto que poderia ser de uma vida — ou de parte importante dela. No caso de Bili, a adolescência.

Assumidamente notívago, o escritor, que nasceu em Jundiaí, no estado de São Paulo, criou-se em Osasco e atualmente mora em Curitiba, aceitou levantar mais cedo para falar sobre o novo livro e, também, sobre literatura brasileira, seus próprios projetos e sobre como, hoje, caminha para o silêncio.

BRAVO!: Bili com Limão Verde na Mão, tendo sido encomendado, e em outra época, é algo à parte do projeto estético que o sr. traçou?

Décio Pignatari: Eu tinha meu projeto de prosa. Primeiro, o livrinho de contos, que foi O Rosto da Memória. Depois o romance pequeno, Panteros, que tem muitos elementos autobiográficos e é ligado a um universo que foi até a minha juventude, em Osasco. E depois o grande romance. Esse ainda está na cabeça. Era Obra em Obras: O Brasil. Tinha a pretensão de ter o país como personagem, uma espécie de épica crítico-cômica, mas eu desisti. Estou pensando em que tipo de experimentação de linguagem e que tipo de prosa fazer.

Se já não é um épico sobre o Brasil, o que será?

Quero fazer uma espécie de "arqueologia" de comportamentos, sentimentos e histórias do início do século 20, numa cidade que começava, com a chegada dos imigrantes, a industrializar-se. Como James Joyce voltando-se para sua Dublin, eu me voltei para onde eu me criei, Osasco. Mas a ideia é mais oswaldiana, era muito mais uma retomada da experiência do Memórias Sentimentais de João Miramar, do Oswald de Andrade. Eu me lembrei de todos aqueles migrantes, da presença da ideologia anarquista. Desde criança eu ouvia falar muito desse mundo. Eu, hoje, vou inventar uma Osasco. Aquela sumiu, abrasileirou-se. Acabou virando uma cidade industrial, como se esperava, mas também um grande subúrbio, não tão organizado como deveria. Junto, desapareceram as relações entre as pessoas, as famílias, o tipo de sexo, amor, tudo mudou; entrou-se num certo tipo de estabilidade.

Essa "arqueologia" tem a ver com a sua própria biografia. Tudo o que um autor escreve passa pela sua experiência pessoal?

Na prosa, realmente, a experiência conta; onde se contam histórias, mesmo em Joyce, por exemplo, a experiência do autor conta bastante. Mas esse universo da visão subjetiva não me interessa; eu não me importo. Como eu digo, prefiro aquela linha do Oswald, que se perdeu no romance brasileiro — por causa do romance nordestino, que era um romance, no fundo, realista, o Brasil esqueceu o outro universo que estava existindo.

A prosa regionalista marcou um retrocesso?

Não um retrocesso, ela talvez devesse ser feita. No movimento romântico, o José de Alencar já tinha tentado os vários regionalismos. Isso faz parte do processo histórico brasileiro, que é atrasado. Ele está em desacordo com o relógio. Quando o romantismo já tinha morrido, com a publicação, em 1857, de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, ele estava começando no Brasil. Nossa visão ainda é regionalista, a coisa da terra. Os cursos de letras sempre ficaram para trás, sempre rejeitaram as obras experimentais. No Brasil, ainda se continua achando que a história é que faz a obra. Não é.

Em 2010, sua poesia completa 60 anos. Com esse seu projeto de prosa, o sr. já não escreve poesia?

Não. Tenho feito algumas traduções, pouca coisa. Traduzi a Ode à Melancolia, do John Keats, e um trecho de Santo Agostinho. Sempre gostei muito das Confissões — traduzi o chamado Êxtase, que é a conversa dele com a mãe, Santa Mônica, onde Santo Agostinho descreve o que eu chamei de "fenomenologia do silêncio". Ele vai eliminando todos os ruídos do mundo para chegar ao silêncio, e do silêncio chegar a Deus.

A poesia concreta foi um momento apenas?

A poesia concreta fez realmente o que tinha que fazer. Foi a primeira e única revolução internacional nascida no Brasil. O fato de não se fazer mais exatamente poesia concreta não interfere no que ela mudou. A poesia em versos é uma raridade hoje. Já a influência da poesia concreta, não.

Faz sentido falar num legado?

Legado tem uma aparência estática. O que acontece é que, quando há uma revolução, como no caso do cubismo, essa revolução é dinâmica, gera alterações em todas as áreas. E sofre metamorfoses. A prosa brasileira, quer se queira ou não, mudou de Guimarães Rosa em diante. Mas não é legado. Você nota influências que se manifestam. Dinamicamente.

O que há de novo hoje no panorama literário?

Depois da poesia concreta, não surgiu nada mais de diferente. Hoje entramos numa era de quantidade. A era da globalização é a da quantificação. Não existe nenhum movimento especial. A prosa ganhou força porque, se você conquistar um mínimo de mercado, pode viver do que faz, mesmo no Brasil. Mas nossos romancistas tomam por modelo sujeitos medianos. Os escritores brasileiros que se julgam de vanguarda imitam o tal Thomas Bernhard, por exemplo — que é uma prosa mais-ou-menos. Estamos vivendo um período magmático. Todas as artes e ideias estão voltando a um magma primitivo de onde eventualmente nascerá alguma coisa nova. A produção é enorme, em todas as áreas. Mas é tudo parecido.

Ao mudar-se para Curitiba em 1999, o sr. mencionou a busca de um local mais propício para a criação intelectual. Isso aconteceu?

Eu saí de São Paulo devido ao sufoco da cidade, estava farto de viver naquele emaranhado. Resolvi ir para um lugar mais salutar. Mas não sei se vingou a ideia de uma cidade mais inspiradora. Curitiba virou uma metrópole, mas, como em boa parte do mundo, o universo cultural é provinciano. Não há publicações nem informações muito atuais sobre os eventos culturais que ocorrem no mundo. Mas é muito agradável.

O sr. lê autores contemporâneos?

Para falar a verdade, leio a prosa brasileira em diagonal. E mesmo os autores estrangeiros. Minha biblioteca hoje está closed. Mas também é natural. Não acompanho com tanta curiosidade como antes, agora eu tenho uma alta seletividade. Em minha "preguiça octogenária", prefiro ouvir música a ficar acompanhando a prosa. Eu me dedico muito pouco à leitura.

Entre as suas preferências, o sr. citou Santo Agostinho e falou de uma "fenomenologia do silêncio". O sr. caminha para o silêncio?

O silêncio de fato, para mim, é fundamental. Para citar Paul Valéry: "Paciência, paciência — paciência no infinito azul! Cada átomo de silêncio é a chance de um fruto maduro". Espero cultivar esse silêncio criativo e, de vez em quando, sair do silêncio para criar umas migalhas disso e daquilo. Que, na fase magmática em que estamos, é o máximo que eu posso fazer.





O Livro
Bili com Limão Verde na Mão, de Décio Pignatari. Ilustrações de Daniel Bueno. Cosac Naify, 80 págs., R$ 49.

01 outubro, 2009

A correspondência humana


Em análise sobre a correspondência humana, cientistas encontram padrões universais que regulam tanto a troca de cartas escritas como a de e-mails e sugerem que outras ações humanas podem ser modeladas na forma de sistemas complexos.



Prevendo o imprevisível


25/9/2009


Agência FAPESP – As ações humanas são realmente aleatórias e imprevisíveis? Não necessariamente, de acordo com um estudo feito sobre a comunicação por e-mail e cartas escritas. A pesquisa indicou que esses padrões de correspondência humana podem ser modelados na forma de sistemas matemáticos complexos.


Fatores como o ritmo circadiano, a repetição de tarefas e a mudança das necessidades ocorrida ao longo da vida fornecem informações suficientes para que se possa estimar padrões de envios de cartas ou e-mails.


O trabalho, publicado na edição desta sexta-feira (25/9) da revista Science implica que outros aspectos das ações humanas podem ser modelados dessa mesma forma. Um dos autores do estudo é a brasileira Andriana Campanharo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que atualmente faz o doutorado na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.


Andriana e colegas analisaram os padrões de correspondência de 16 escritores, políticos, celebridades históricas e cientistas, entre os quais Albert Einsten. O grupo identificou uma “universalidade”, ou seja, um padrão que permeia tanto as cartas escritas como a mais nova forma de comunicação do e-mail.


Segundo eles, um mesmo modelo pode descrever com exatidão os dois padrões de correspondência entre indivíduos, por papel ou eletrônico. Por exemplo, da mesma forma que um autor de um blog pode esperar um aumento em sua correspondência eletrônica depois que seu e-mail for divulgado na internet, Einstein passou a receber muito mais cartas depois que publicou a Teoria da Relatividade, em 1919.


Ou seja, os padrões de comunicação, além da ocorrência aleatória, são também governados pela própria natureza humana, apontam os cientistas. Os modos com que os estilos de vida individuais afetam esses padrões podem ser modelados como um sistema complexo.


A identificação e a modelagem dos padrões de atividade humana têm ramificações importantes para aplicações que vão da previsão da extensão de doenças à otimização da alocação de recursos. Por causa da sua relevância e disponibilidade, a correspondência escrita fornece um modelo poderoso para estudar a atividade humana”, descrevem os autores.


Tanto na correspondência por cartas como na por e-mail, os padrões de correspondência são bem descritos pelo ciclo circadiano, pela repetição de tarefas e pelas mudanças nas necessidades de comunicação”, afirmaram.


O artigo On universality in human correspondence activity , de Andriana Campanharo e outros, pode ser lido por assinantes da Science em http://www.sciencemag.org/

29 setembro, 2009

INGs – Indivíduos Não Governamentais




INGs – Indivíduos Não Governamentais – Reciclando a Cultura do Lixo

documentário produzido por Averaldo Nunes Rocha e Márcio Mitio Konno


A história de dois catadores de papel que tomaram atitudes inusitadas para promover cultura: Severino Manoel de Souza montou uma Biblioteca Comunitária com livros encontrados no lixo e José Luiz Zagati, exibe filmes de graça no Cinema montado na laje da sua casa.

Além de relatar esses dois casos incomuns, foi promovido um debate indireto com o sociólogo Reinaldo Pacheco, o então presidente da Funarte Celso Frateschi, o geógrafo Aziz Ab’Saber e o músico Tom Zé.

Esse documentário é o resultado do Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Uniradial, em 2007, que em sua primeira apresentação teve como público mais de 300 pessoas. Após a apresentação, o documentário passou a ser utilizado como material pedagógico na formação dos cursos de Comunicação Social da faculdade.

O Trabalho estrapolou os limites da faculdade e foi exibido em diversos locais como: Sesc Ipiranga, Semasa (Santo André), Uniradial Santo Amaro, Uniradial Jabaquara, Unifieo, Faculdade Cásper Líbero, USP, entre outros.

Também foi exibido em diversos cursos de preparação de trabalho e salas de aula como elemento para mobilização e protagonismo.



INGs - Indivíduos Não Governamentais
Averaldo Nunes Rocha / Márcio Sno Mitio Konno
www.ings.com.br
ings07@hotmail.com
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=41779300

26 setembro, 2009

Bar Leblon ensina preconceito


Fico impressionada em ver o quanto a nossa sociedade é ridícula e preconceituosa. Num misto de aparência de “gente-boa-descolada-sensual-alegre-carnavalesca-futeboleira” o brasileiro esconde sua face verdadeira: preconceito, ignorância, machismo, conveniência e intolerância.

Em Brasília (capital com IDH elevado e educação privilegiada segundo as estatísticas) o acontecimento no homofóbico Bar Leblon (208 sul) mostra o quão pouco democráticos, respeitosos e civilizados são as pessoas.

A notícia abaixo, publicada no jornal Correio Braziliense, não deixa dúvidas da cultura tacanha em que estamos inseridos. Um beijo no rosto – de homem com homem – não pode acontecer no boteco por ser contra os bons costumes, não ser "maneira adequada".

Porém, questiono-me (se for para entrar nessa mesquinhez de pensamento raso) se homens bêbados falando palavrão e vendo futebol é modelo de boa postura e exemplo a ser seguido (?), pois foi exatamente nesse cenário que se deu o imbróglio que foi parar na delegacia.
Uma pena ter que assistir homofobia em pleno século XXI na capital do Brasil e não ter mais noção de quais são os bons e os maus costumes...


Leia abaixo a notícia

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Beijo entre homossexuais vira caso de polícia na Asa Sul

Após trocar uma carícia no rosto, dois amigos homossexuais são convidados, pelo dono do bar onde estavam, a se comportar de "maneira adequada". O caso para na delegacia



por Naira Trindade

Publicação: 26/09/2009



Cinco amigos atores — todos homossexuais — sentaram-se a uma mesa de bar. Um beijou a face do outro como demonstração de carinho. A atitude causou irritação no proprietário do estabelecimento, que pediu que os jovens se “comportassem” enquanto permanecessem no local. A intimidação constrangeu os rapazes e eles se retiraram do espaço. A noite que deveria ser de diversão terminou na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), com o registro de uma ocorrência sobre ofensa ao direito à personalidade, garantido pela Constituição Federal.

As vítimas não formam um casal homoafetivo. Jonathan Andrade, 27 anos, e Eduardo Dutra, 25, são amigos. Na última quarta-feira, eles escolheram o Bar Leblon, na 208 Sul, para uma conversa regada a chope. Chegaram às 23h e pediram as bebidas. Antes mesmo que elas fossem servidas, Eduardo abraçou o amigo Jonathan e afirma ter lhe dado um beijo no rosto. Em menos de 10 minutos de permanência do grupo no bar, o gerente José Geraldo Vieira aproximou-se educadamente e pediu que os dois não se abraçassem ou se beijassem enquanto estivessem no local.

A repressão causou indignação nos jovens. Eles se levantaram e acompanharam o gerente que se retirava após passar a mensagem. Queriam saber qual era o problema em manifestar afetividade em um espaço aberto ao público, como um bar. “Dava para perceber o constrangimento do gerente ao fazer o pedido. Parecia uma recomendação do superior dele”, observa Dutra. Durante a conversa, Pedro Diniz, 27, um dos três proprietários do estabelecimento, apareceu e convidou os jovens a continuar aquela conversa na calçada do lado de fora do bar, distante das mesas de clientes que assistiam a um jogo de futebol e ouviam música alta.

“Fomos levados para fora do local e lá o proprietário disse que não queria esse tipo de atitude (beijo entre pessoas de mesmo sexo) no bar dele, como se estivéssemos fazendo algo errado”, revolta-se Eduardo, que tem uma relação estável com um homem há cinco anos. Nem Jonathan nem Eduardo sentem vergonha em assumir a homossexualidade. O imbróglio envolvendo o grupo de amigos teria se iniciado na sexta-feira, dia 18, quando eles comemoravam um aniversário no mesmo bar. “Naquela noite, um dos nossos amigos deu um ‘selinho’ no namorado”, lembra Jonathan. Os jovens acreditam que o dono do bar lembrou-se do episódio e quis evitar que se repetisse.

Defesa
A versão é confirmada por Pedro Diniz, que alega que beijos excessivos — tanto entre heterossexuais quanto homossexuais — são reprimidos. “Se fosse um casal de heteros desrespeitando os outros clientes, a gente também pediria para parar. Nosso público é familiar.” Diniz garante que não expulsou o grupo: “Só pedi que eles se comportassem de maneira adequada. Não posso perder 10 mesas por causa de uma”.

A aversão a homossexuais — conhecida como homofobia — não é considerada crime no Brasil. No entanto, a discriminação contra raça, sexo ou gênero é crime de ofensa aos direitos da personalidade. “Todo e qualquer ato discriminatório deve ser terminantemente proibido. Se a atitude não foi nada que atentasse ao pudor de quem estava no local, ninguém tem o direito de recriminar. Eles são seres humanos e merecem respeito”, explica o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Jomar Alves Moreno. “A atitude cabe ação cível com direito a danos morais. Separar o local como ambiente familiar é outro erro. Homossexuais podem constituir uma família e adotar filhos”, completa.

Professora da Universidade de Brasília e doutoranda sobre relações homossexuais, Suzana Viegas complementa que existe uma proteção sobre a orientação sexual das pessoas. “O artigo 3º, inciso 4º da Constituição protege todas as pessoas de qualquer forma de discriminação, seja ela gorda, magra, negra, branca, hetero ou homossexual. E o fato de eles não formarem um casal só mostra que a ação foi arbitrária. É preciso ter respeito ao princípio da dignidade.”

O Núcleo de Atenção à Diversidade e Enfrentamento à Discriminação Etnorracial, Sexual e Religiosa (Nudim), da Secretaria Especial de Direitos Humanos do DF, acompanha há cinco meses episódios de preconceito na capital. “O órgão é novo e ainda não fizemos um levantamento da quantidade dos casos, mas estamos acompanhando e vamos verificar essa caso”, explica a chefe do núcleo, Carol Silvério.



PROJETO DE LEI

O artigo 2º do Projeto de Lei Federal 5003, de 2001, altera uma lei de 1989 que define como crime preconceitos de raça, cor ou sexo. No projeto, fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, orientação sexual e identidade de gênero, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade, ressalvadas as hipóteses de proteção ao menor. O projeto prevê punição de dois a cinco anos de reclusão para quem discriminar outra pessoa pelas razões citadas. Àquele que impedir ou recusar o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público, a pena será de um a três anos de prisão. No entanto, o projeto tramita no Senado, sem previsão para ser votado.


TELEFONES
Denúncias de discriminação sexual podem ser feitas para o Núcleo de Atenção à Diversidade e Enfrentamento à Discriminação Etnorracial, Sexual e Religiosa (Nudim) pelos telefones 0800 647 1407, 3322-9368 ou 3224-4898.



Para saber mais


Beijaço para protestar

O corte da cena de um beijo entre atores de mesmo sexo na novela América, da Rede Globo, em 2005, gerou comoção nacional. Várias cidades do país promoveram um beijaço como forma de protestar contra o preconceito. A ação se repetiu em Brasília, quando um casal de homossexuais sofreu represálias ao se beijar à beira das piscinas da Água Mineral. Anos antes, em outubro de 2003, dezenas de brasilienses se reuniram no Bar Beirute, na Asa Sul, para se manifestar contra garçons que constantemente pediam aos casais de homens ou de mulheres que parassem de se beijar. Os funcionários argumentavam que o ato desrespeitava o local.

21 setembro, 2009

10 dicas para estimular a criatividade

por Raul Evaristo



Por mais que todas as teorias de educação preguem o contrário, o fato é que as escolas treinam as crianças para que busquem a solução CORRETA, não a criativa. A maioria das pessoas nasce relativamente livre para ser, com o tempo, continuamente reprimida até quase não sobrar idéias. Em outras palavras, a criatividade é inata; a “caretização”, aprendida.

Esse sistema predatório em busca de “resultados” torna a massa extremamente dócil, já que, em qualquer cultura, é preciso coragem para se ter idéias novas. E muito, muito mais coragem para expô-las. Quantos não pensaram que a Terra era redonda mas não eram machos o suficiente para dizê-lo? E que o homem e o macaco tinham um antepassado em comum? Mesmo hoje, quantos não reprimem idéias que poderiam levar a um mundo melhor apenas pelo medo do ridículo?

Pois é. Para se ter idéias novas é preciso motivação, encantamento, relaxamento e, acima de tudo, uma baita duma coragem. Com isso em mente, seguem mais 10 dicas:



Informe-se. A inspiração não surge do nada. Pessoas criativas normalmente conhecem a fundo os temas sobre quais opinam.



Desfoque. A pressão para pensar em um único tema é uma inibição latente. Por mais que falem maravilhas de se permanecer “concentrado”, é sempre bom ter em mente que esse processo restringe e limita idéias novas.



Busque experiências diferentes. Entre em contato com manifestações artísticas ou atividades físicas inéditas. Novos esportes, radicais ou não, tipos de dança ou coreografias como Capoeira, livros de autores desconhecidos ou inéditos para você (Dostoiévski, por exemplo). O mesmo vale para gêneros musicais e artísticos em geral.



Tire um tempo para si. Procure reservar de 15 minutos a meia hora por sessão, pelo menos umas três vezes por semana, para escrever, desenhar, tocar algum instrumento ou mesmo cochilar, sem ser interrompido.



Redefina visuais. Desenhe um mesmo objeto de vinte ou mais formas diferentes. Se não souber desenhar ou estiver com preguiça, procure fotografar um mesmo objeto de 50 formas diferentes.



Fotografe sua rua. Aproveite que câmaras digitais tornam a fotografia uma experiência barata e condicione seu olhar. Sem sair de casa ou de sua rua, fotografe texturas, folhas, cores, formas. Se aproxime de objetos cotidianos como tampas de bueiros e os explore visualmente.



Exagere. Amplifique detalhes de sua experiência ou de sua relação com o mundo. Veja seu cotidiano pela ótica de uma criança de seis anos ou menos. Transporte-se para um olhar diferente do seu.



Interrompa seu dia. Pare por alguns instantes e faça algo que demande atenção, de preferência física. Regue plantas, por exemplo. Isso ajuda a desfocar e quebra a concentração. Vá tomar um café, converse com alguém alheio ao problema (mas não se prenda ao assunto que está trabalhando).



Copie. Por mais que pareça feio, essa atividade não tem nada a ver com plágio, muito pelo contrário. Ao copiar uma obra pronta sem saber qual foram as etapas seguidas para sua realização, você é obrigado a refazer o caminho passo a passo. Nesse processo, muitos desvios aparecem, sugerindo soluções mais adequadas. Para tornar o tópico mais divertido, copie coisas que não têm nada a ver com seu trabalho: esculturas, peças de teatro, prédios etc.



Mova do literal para o pictórico. Desenhe, diagrame ou busque fotografias que ilustrem sensações ou situações cotidianas. O barulho de um mosquito, o cheiro de pipoca etc.
Mesmo que essas dicas todas não te ajudem, certamente não farão mal. Tenha em mente que aquele tipo focado e concentrado, o tipo que nunca se desvia do assunto, pode até ser bom profissional, mas é chatérrimo.

Fonte: Blog Arte e Desing Gráfico

19 setembro, 2009

Oficina de arte educação



Criativa essa oficina! Diretamente do blog Arte educação & meios da Samara Costa. Parabéns!

"Recolho cacos de espelho na rua sempre que os encontro.
Recolho objetos que, por algum motivo estão na rua, fragmentados, gastos, corroídos, magnificamente, sob um ponto de vista estético pessoal, prontos para serem expostos em um Museu de Arte.
Reorganizo cores, formas e texturas de imagens recortadas de revistas e jornais.
Também guardo todo o lixo não orgânico, resultado de meu consumo diário.
Com estas matérias primas, corto, rasgo, serro, furo, monto, prego, amarro, colo, grampeio...
Crio e construo metáforas.
Agora, ando às voltas com as sementes, procurando com elas, frestas entre o cimento e o asfalto para viabilizar sua (nossa) proposta de vida!"
Samara Costa

entrevista - Fernanda Torres

"Agora posso falar sobre drogas"

Longe do vício e sem medo de recaídas, a atriz abre o jogo sobre a sua experiência com cocaína e diz que hoje os antidepressivos viraram moda

Por Eliane Lobato Revista IstoÉ


Novos hábitos "Antes eu não ia a salão de beleza nem arrastada. Agora, fico lá duas horas"
A atriz Fernanda Torres está fazendo a sua estreia como autora de teatro com a peça "Deus É Química", em cartaz no Rio de Janeiro. Tratase de uma corajosa abordagem sobre o uso de drogas e de antidepressivos que termina fornecendo o número de telefone dos Narcóticos Anônimos. Aos 43 anos, Fernandinha - como é conhecida a filha dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres - encara no espetáculo um tema que conhece bem. Nessa entrevista à ISTOÉ, ela conta que usou drogas durante anos - em especial, a cocaína, que considera "o pior demônio". A peça é uma comédia bem diferente do filme "Os Normais 2", grande sucesso de público e no qual ela forma um casal com Luiz Fernando Guimarães, também seu parceiro no palco. Mãe de dois filhos pequenos, Joaquim e Antonio, e casada há 13 anos com o diretor Andrucha Waddington, Fernandinha considera os remédios para regular humor uma espécie de droga contemporânea. "É a geração Rivotril", diz, referindo-se a um tranquilizante. Ela foi casada com o jornalista Pedro Bial durante dois anos e com o diretor teatral Gerald Thomas, por quatro. Hoje se considera "um exemplo". Além de falar de drogas, traição e política, faz uma bonita declaração de amor à mãe: "Ser filha da Fernanda é uma bênção."


ISTOÉ - Por que fazer uma peça sobre drogas?
Fernanda Torres - Eu tinha essa cena na cabeça, um casal de cariocas esperando o vapor (entregador de drogas), enquanto polícia e traficantes se enfrentavam a tiros do lado de fora da casa: um paradoxo da classe média liberal. Falar de drogas é um projeto antigo, de anos.

ISTOÉ - A sra. já usou drogas? Quais?
Fernanda - Comecei com maconha e fui até o pó.

ISTOÉ - Ainda usa?
Fernanda - Parei. Faz um bom tempo. Outro dia comentei isso: só posso fazer essa peça agora porque "vi Jesus" (risos). Sabia que faria essa peça apenas quando não tivesse mais culpa no cartório. Hoje eu posso.

ISTOÉ - Quando parou e o que a fez parar?
Fernanda - Tudo, sei lá. Acho que o que me bateu mais foi a saúde. A sensação que eu tenho é que a gente vai ficando mais velha e se vendo mais mortal. Mas, quando se é novo, queremos experimentar morrer. Quando eu olho para trás, penso: nossa, eu corri tantos riscos de morte na minha juventude. Não me arrisco mais assim. Depois que a gente se torna mãe, então, não quer se arriscar nem na ponte aérea.

ISTOÉ - A sra. subia o morro para comprar droga?
Fernanda - Não, não. Eu sou babona (medrosa).

ISTOÉ - Como a sra. pretende falar sobre drogas com seus filhos?
Fernanda - Acho que o máximo que os pais podem fazer é estabelecer uma relação de amizade. Meus pais fizeram assim: eles não deixavam usar drogas em casa. Sabiam que eu usava. Mas não se falava sobre isso, não se tocava no assunto. Eles eram uma espécie de freio mental.

ISTOÉ - A sra. foi uma adolescente difícil?
Fernanda - Não. Fui uma adolescente casmurra. E fiquei jovem depois dos 18 anos. Aí, fui ficando cada vez mais jovem. Eu cresci numa época em que a cocaína era dominante na sociedade, no mundo todo. E cocaína é uma droga horrorosa, talvez o pior demônio, um horror. Vi amigos embotados. O ecstasy eu não peguei.

ISTOÉ - Sua peça faz uma crítica severa às drogas.
Fernanda - Não sei, acho que não.

Acho que critica severamente o uso de antidepressivos, a droga da felicidade. Faz uma crítica feroz à cocaína, mas, ao mesmo tempo, fala que as pessoas sempre se drogaram, bebendo, fumando. Nós estávamos em dúvida se a peça seria vista como crítica ou apologia porque resgata a ideia dos anos 60, quando as drogas eram um caminho para o autoconhecimento. O lema era "Seja Marginal, Seja Herói" (obra do artista plástico Hélio Oiticica). O mito do marginal, do revolucionário, era encantador. Eu cresci nessa época. A direita estava no poder e nós tínhamos de fazer o oposto da direita, por princípio. Nas escolas experimentais, onde eu estudei, o refrão era a liberdade para tudo. Hoje ficou diferente.

ISTOÉ - Como é hoje?
Fernanda - Hoje todo mundo é deprimido. Se você tem uma tristeza, logo aparece alguém para aconselhar a tomar um remedinho para ficar bem, para não ficar ansioso. É a geração do Rivotril (tranquilizante). É remédio para regular humor, combater tristeza, emagrecer. Uma vez tomei um emagrecedor e falei: gente, desculpa, mas isso é igual à cocaína. Primeiro, eu fiquei com palpitação no coração e, depois, meio deprimidinha. Fiquei sem fome e excitada e, depois, muito angustiada. Já vi isso antes, só que tinha outro nome: cocaína. Antigamente, todo mundo fazia análise, hoje a psicanálise perdeu para a psiquiatria. Todo mundo tem um psiquiatra, é bipolar, e toda criança é hiperativa. Impressionante. Deve haver outra maneira de resolver nossos problemas que não seja tomando remedinhos, né? Isso eu acho muito sinistro. Marca o nosso tempo.

ISTOÉ - A peça termina aconselhando as pessoas a pensar bem antes de recorrer a remédios e drogas.
Fernanda - A ideia é baseada no livro do Antonio Damásio ("Homem na Escuridão"), para quem o medo, a angústia e todas as emoções básicas fazem parte do instinto de sobrevivência humana. Uma sociedade que escolhe não lidar com a angústia e o luto é uma sociedade que está abrindo mão de suas defesas. O que queremos dizer é: como você vai lidar com as suas angústias. Dá um jeito. Todo mundo que eu conheço que se drogou muito, recebeu uma conta dura lá adiante. Ao mesmo tempo, tenho medo de me tornar uma pessoa toda controlada e chata, que malha, que não se droga, nunca sai de si, consciente, ecologicamente correta.

ISTOÉ - A sra. é assim, toda certinha?
Fernanda - Sou. E tenho horror de mim mesma, às vezes. Realmente, estou um exemplo. Acordo cedo, cuido dos meus filhos, malho, mas eu estou virando um ser totalmente antissocial. Depois que tive meu segundo filho, passei a ter insônia. Outra noite, eu fiquei "fritando" na cama até cinco da manhã. Depois de uma noite assim, você vira um zumbi. Mas não tomo remédio para dormir, tenho medo de ficar dependente. Muito medo.

ISTOÉ - Qual seria a saída para o problema das drogas?
Fernanda - A descriminalização pode ser um bom caminho. Tirar a droga da área de polícia, crime, e levar para a questão de saúde. Tirar o glamour também ajuda a diminuir o uso, conforme já se comprovou. O cigarro já foi glamouroso e, hoje, fumar é out.

O adolescente que fuma é visto como um otário, um bobo. Essa é uma boa maneira de lidar. Lembro de um amigo meu em coma alcoólico com 14 ou 15 anos. É uma das imagens mais doidas que eu já vi na minha vida. Era o batismo dele, estava num rito de passagem, virando homem. Sinto que as drogas também têm esse papel na vida dos jovens.

ISTOÉ - A sra. e o Luiz Fernando Guimarães são amigos antigos?
Fernanda - Nós somos um casal (risos). Trabalhamos juntos, viajamos juntos. Fomos para a África uma vez e ele curou minha dor de corno do Gerald Thomas.

ISTOÉ - Por quê? Quando se separou do Thomas ele já estava com outra?
Fernanda - Sempre, né?

ISTOÉ - A sra. fez poucas novelas? Por quê?
Fernanda - A última que fiz foi "Selva de Pedra" (1986). Fiquei com medo de fechar contrato, tinha sempre um filme para fazer em algum lugar, eu queria ir para o mundo. E vi, também, que eu era muito imatura para gravações de tevê. Fui uma péssima funcionária na época dessa novela. Acho que não foi justo com a casa (Rede Globo). Fui irresponsável. Fiquei muito mal-humorada. Então, nunca mais quis me arriscar. Eu respeito quem me dá emprego, sabe?

ISTOÉ - Evitar a tevê não teria sido também fugir de um território onde sua mãe é soberana?
Fernanda - Acho que esse medo aconteceu mais no teatro. Eu busquei o cinema porque era um alívio para mim, não tinha o domínio da Fernanda Montenegro. O cinema foi muito importante para eu virar eu. Depois é que eu fui para o teatro. Minha mãe é como o Tony Ramos: eles seguram um elenco. Mamãe é uma tropa, um capitão. Tony é como a mamãe nisso. Mamãe é incrível. Ela dá a dimensão do personagem, do melodrama, do romance. Isso é mais que louvável.
"Minha mãe é muito especial, sempre nos deu liberdade para sermos o que somos. Nunca vi medo nos olhos dela, medo de que a gente não vingasse"

ISTOÉ - E como mãe, ela também é fantástica?
Fernanda - Minha mãe é muito especial, ela sempre nos deu muita liberdade para sermos o que somos. Nunca vi medo nos olhos dela, medo de que a gente não vingasse. Lembro de uma cena de teatro que fizemos juntas e que me dá vontade até de chorar. Eu e ela jogando cartas, com música de Richard Wagner tocando, as duas vestidas de palhaças. O ápice foi quando fiz uma peça com mamãe ("The Flash and Crash Days", 1993), aquilo para mim foi uma carta de alforria. Ser filha da Fernanda é uma bênção.

ISTOÉ - A sra. ainda faz dieta? Cuida muito da imagem?
Fernanda - Eu era uma adolescente redonda, grande candidata a obesa. Um dia, entendi que malhando ajudava a segurar a carne, que não bastava emagrecer. Hoje faço ioga e pilates. Eu não ia a salão de beleza nem arrastada. Mas, agora, tenho a raiz do cabelo branca, fico lá duas horas. Mas não me maquio. Silicone e botox, eu tenho medo. Meus peitinhos nunca foram grandes, mas tive dois filhos e eles continuam aí, meus amigos. Gosto muito dos meus peitinhos, sou feliz com eles.

ISTOÉ - Já tem candidato para as eleições do ano que vem?
Fernanda - Não. Mas acho que ter (José) Serra, Dilma (Rousseff), Marina (Silva) e Ciro (Gomes) disputando significa que melhorou muito, né? Pode ser interessante uma alternância de poder. Aprendemos muito. Me lembro da época da campanha do Lula para a Presidência, muitos previam uma catástrofe, uma vergonha quando Lula fosse nos representar no Exterior. E o cara arrebentou. Fomos bem nesses últimos 16 anos. Hoje temos um denominador comum, um país.

ISTOÉ - Que problema a sra. teve com o Carlos Minc, hoje ministro do Meio Ambiente?
Fernanda - Foi na época do filme "O Que É Isso, Companheiro?" (1997). A produção do filme marcou uma conversa minha com ele para tirar dúvidas e, no dia seguinte, tinha uma nota num jornal dizendo que o Minc tinha ouvido de alguém do elenco que era um filme totalmente desacreditado. Ele criou uma nota enquanto eu estava conversando sobre dúvidas. Mas hoje me dou muito bem com ele.

17 setembro, 2009

Palestra sobre o modo de falar dos candangos

UnB 50 ANOS

Será ministrada pela professora da Faculdade de Educação Stella Bortoni, sexta-feira (18/09) às 15h, no Auditório da Reitoria (campus Plano Piloto). A professora desenvolve desde 1980 pesquisas sobre a construção do linguajar característico do Distrito Federal, que se dá por três movimentos associados ao desenvolvimento de Brasília. São eles: do rural para o urbano; do oral para o letrado e do regional para o suprarregional.
>Informações pelo telefone: 3307 2210.

15 setembro, 2009

Lixo que vira arte não polui as águas











Hoje visitando o Blog Bem Legaus peguei esta dica de arte feita a partir de reciclagem.

As obras são de David Edgar (artista e professor aposentado da Universidade de Charlotte). Depois de 25 anos fazendo esculturas em metal, atualmente trabalha com garrafas plásticas de detergente e de diversos outros produtos O projeto se chama "Plastiquarium: recycled plastic art" (veja no link mais fotos) e as peças são esculturas incríveis.

14 setembro, 2009

O pai dos burros


sinopse:
O pai dos burros é o resultado de uma obsessão de mais de três décadas - desde os anos 1970, o jornalista e escritor Humberto Werneck coleciona expressões que, de tanto ser repetidas, tornaram-se lugares-comuns ou frases feitas. O uso indiscriminado tornou-as gastas, carentes de significado.


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Folha de São Paulo
Data: 25/8/2009

Dicionário traz surrados clichês para todos os gostos


Livro reúne 4.500 lugares-comuns, terror dos escritores; autor lança hoje


IVAN FINOTTI

É de tirar o chapéu. A faraônica obra "O Pai dos Burros - Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas", de Humberto Werneck, vai cair como uma bomba na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, onde o autor estará autografando hoje à noite.

O livro, ao qual não se consegue largar, traz 4.500 surrados clichês, divididos em 2.000 verbetes, reunidos nos últimos quarenta anos pelo combativo jornalista. Werneck não brinca em serviço. Sempre que ouvia uma pérola, anotava num guardanapo. Ou melhor: pérola não, mas uma "antipérola", como ele prefere.

Sim, porque quem não vive da língua de Camões pode ficar até vivamente impressionado com as frases feitas. Os lugares-comuns travestem-se de sabedoria dos antigos e podem dar a impressão de que aquele indivíduo está fazendo bonito e falando difícil como um comendador. No fundo, porém, são apenas clichês que lhe saem da boca pra fora (é o caso clássico do jogador de futebol).

Werneck cita em seu prefácio uma ideia luminosa da socióloga e cientista política alemã Hannah Arendt: "Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade (...)".

É curioso procurar as palavras que mais se prestam ao lugar-comum. Há, por exemplo, "tempo" (30 frases feitas no dicionário), "vida" (35; confira no quadro à esquerda) ou "mão", com nada menos que 47 registros: mão na roda, meter a mão, de mãos abanando, com uma mão atrás e outra na frente, lavar as mãos e passar a mão.

Em resumo, os clichês são uma tragédia; o livro é um excelente manual de como não fazer um texto e o título "O Pai dos Burros" se revela uma injustiça clamorosa para com os dicionários.

O texto acima foi composto com 20 frases feitas tiradas do livro e, se o leitor não captou a brincadeira, é porque o tiro saiu pela culatra (21 frases, agora) e demos com os burros n'água (22)

O PAI DOS BURROS - DICIONÁRIO DE LUGARES-COMUNS E FRASES FEITAS
Autor: Humberto Werneck
Editora: Arquipélago
Quanto: R$ 29 (208 págs.)