24 fevereiro, 2007

Arritmia cardíaca


Enfim, fiz a ablação para "curar" minha arritmia cardíaca. Isso aconteceu, ontem, por volta das 16 horas. Agora estou aqui, no dia seguinte, quase meia-noite, blogando... Pensando na vida, nas dores do viver, nas limitações, nas incompreensões, nas expectativas... juro que estou sem forças! O coração pode estar mais forte (talvez), a anemia pode ter ido embora, mas estou frágil, cansada, até meio "passada", apesar de sóbria. Antes tivesse bebido para encher a cara e ter um minuto de trégua da realidade e acordar ressaqueada, com a sensação de ter tido paz por um ilusório momento. Parece que o coração está curado, mas a vida continua torta. E, a virilha doendo. A perna incomodando. A cabeça girando... Tenho que reaprender a viver! Como diz uma amiga de Salvador: "assim não dá!". E por muitas vezes me pergunto: "cadê eu?!"
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Para saber mais sobre ablação/arritmia cardíaca clique aqui

Reflexão apropriada...

Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?

por Fabrício Carpinejar

Não tinha coragem em minha infância de pedir o que desejava, eu desejava o que vinha.

Poderia roçar meus olhos nas vitrines das lojas, mas não apontava e dizia:
- Quero agora!

Não me envergonhava dos meus sonhos, justo por isso. Meus sonhos aumentavam os brinquedos que recebia.

Não ganhava mesada, tinha direito a ficar com as moedas quando a mãe trocava de bolsa.

Repartia com os irmãos em chicletes e balas para rodar o vidro do armazém. Meu carrossel era girar o baleiro.

Um pouco de nostalgia não fere a barba. Meu filho completa cinco anos.

Eu perguntei e perguntei o que ele queria. Como de costume, replicou com um abraço nas pernas:
- Qualquer coisa, qualquer coisa tá bom.


Qualquer coisa que eu desse para ele estaria realmente bom. Não estava fingindo com "não precisava". Ou escondendo o que pretendia. Clipes coloridos, uma lupa, um carimbo, e ele se veria espelhado.


Fui com ele olhar uma bicicleta. Já que não consegui ensinar a minha mulher, ensinaria a ele. Revistamos o shopping, até que ele ficou em dúvida entre duas.


O cansaço me agitava:
- Escolhe logo!


Ele me indagou, suave:
- Levo a mais barata.


A noção de que ele deve ajudar a família é maior do que seu desejo de ter tudo em seu quarto.
Outra história, agora com meus sobrinhos. Joãozinho, 4, e Nana, 7, pediram presentes aos seus pais. Nana gritou: Playstation II! Joãozinho, com olhar de bolinha de gude, recitou baixinho para seus pés: - Sementes para plantar arvorezinhas na chácara.


Ofertas cumpridas, até hoje o Playstation está parado no armário e Joãozinho plantou melancia, laranjeira e o diabo de flor durante uma semana, com a alegria escandalosa da bananeira.


Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?



No amor, a ambição destrói a possibilidade de criar com pouco.

O luxo é uma espécie de esmola. Por mais que se dê, menos se está se oferecendo do corpo. Dar é subtrair a invenção.


A imaginação prefere a modéstia. Amor não é para ocupar o tempo, mas desocupar.

Comprei muitas vezes um pacote faraônico para não precisar brincar e estar junto. Algo para me dispensar de participar, que me isente da proximidade.


A compulsão de surpreender com presentes e jóias esconde uma avareza por dentro. De algum modo, estamos dispensando a comoção acompanhada de uma música ou da própria voz. Estamos nos substituindo.


Um afeto inesperado, uma palavra espichada como colar, uma meninice na hora de acordar correspondem ao apelo. Criar escolhas pode ser mais prazeroso do que escolher.


Penso isso ao encostar na árvore que Joãozinho plantou, com meu filho andando de bicicleta pelas lombas, num entardecer de ferrugem dos morros. De repente, nem vou escrever esse texto.


Encosto nas árvores para meu corpo crescer.

23 fevereiro, 2007

Nietzsche

"Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia."
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" Quanto mais me elevo menor apareço aos olhos de quem não sabe voar "
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"Ama-se o desejo e não o desejado."
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"A bem de nós mesmos todos fingimos ser mais ingênuos do que realmente somos.
Deste modo nos livramos do receio de nossos semelhantes."
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22 fevereiro, 2007

MSN na madrugada...

ROGERIO diz:
ah já me encheu o saco
ROGERIO diz:
ser um pedaço de carne e sangue que sonha
ROGERIO diz:
ja me cansei
Lis - Soll diz:
gostei da frase
ROGERIO diz:
quero ser deus tambem

Carnaval

As manchetes dos jornais anunciam as escolas vencedoras do Carnaval e as estatísticas da desordem. Dos acidentes aos assassinatos, passando pelos assaltos e outros tipos de agressões, a folia brasileira dura o ano inteiro. Mas, no carnaval, não sei ao certo, os números engordam. Ou será que não?



Passar os olhos pelos noticiários é engolir miséria. Mortes, catástrofes, fome, corrupção, acidentes naturais, lixo, guerras, e todo tipo de conteúdo produzido pela humanidade em seu mais alto grau de degradação.
No saldo, parece que as equações do carnaval são:
violência = muita gente + bebidas/drogas + bundas de fora.
Ou
violência = bebida/droga + direção + imprudência.
Ou
violência = pobreza + desejo de consumo + oportunidade.
Ou
violência = dane-se + eu-quero-agora.


Isso é lá diversão?

León Ferrari


A civilização ocidental e cristã, 1965. Plástico, óleo e gesso



"A arte não será nem a beleza nem a novidade, a arte será a eficácia e a perturbação. A obra realizada será aquela que, dentro do meio por onde o artista se move, tenha o impacto equivalente a um atentado terrorista", escreveu León Ferrari em 1968 em "A arte dos significados". Esse texto integra o livro "León Ferrari retrospectiva. Obras 1954-2006" (Andrea Giunta - org - Cosac Naify, R$ 120)
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León Ferrari - Nasceu em Buenos Aires em 1920. Vive e trabalha em Buenos Aires, Argentina.Formado em engenharia na Faculdade de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Universidade de Buenos Aires, León Ferrari iniciou sua produção em 1955, com obras em técnicas e suportes, como a colagem, o xerox, a arte postal e os objetos, em materiais como cerâmica, gesso, madeira, cimento e aço inoxidável.
Participou da vanguarda portenha com suas investigações caligráficas e descrição de pinturas e objetos na década de 60.Viveu em São Paulo, como exilado político, de 1976 a 1984. Em 1991 voltou a viver em Buenos Aires.
A polêmica sempre rondou seu trabalho, de conteúdo fortemente político. A exposição "León Ferrari 1954-2004", no Centro Cultural de Recoleta, em Buenos Aires, foi fechada por pressão de uma organização católica que a considerou "blasfema".
O artista, que sempre viu a imagem católica do inferno como uma justificativa da Igreja para matar e torturar gente desde a época das cruzadas até as ditaduras latino-americanas da década de 1960 e 70, expôs a obra "Cristo crucificado en un avión de combate". Nela, a figura do Cristo está presa a um avião de combate norte-americano.
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Mais obras de León Ferrari aqui
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19 fevereiro, 2007

mete a cenoura...


Cenoura a palito
Autora: Solange Pereira Pinto
Ano:fevereiro/2007
Técnica: fotografia


olha povo o melhor tira-gosto da cidade:
cenoura no limão e sal!
para conferir vá ao Marujo, na 105 sul.
Eu recomendo!
inté

Nas vésperas...


Lá estava deitada
tomando soro
feito coca-cola na veia
Lá estava descansando da vida
esperando o dia
Lá estava sorridente
contando os dias felizes
Lá estava cautelosa
sentindo o ritmo do coração
Lá estava temendo
a semana seguinte
Lá estava às vésperas
Dos dias que mais proximamente
antecedem um fato ou acontecimento
Lá estava deitada
tomando ferro na veia
para que o tempo não pare no cansaço
mas para que chegue o dia do futuro
daquele que espero acordar
leve, livre, depois do carnaval,
com a alma curada
se é que isso é possível...

Enquanto Houver Sol


Entardecer no trânsito
Autora: Solange Pereira Pinto
Ano: fevereiro/2007
Técnica: fotografia


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Composição: Sérgio Britto



Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma idéia vale uma vida
Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós, algo de uma criança
Enquanto houver sol, enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol, enquanto houver sol
Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando que se faz o caminho
Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós, aonde Deus colocou
Enquanto houver sol, enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol, enquanto houver sol
Enquanto houver sol, enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol, enquanto houver so
lEnquanto houver sol, enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol, enquanto houver sol

12 fevereiro, 2007

Pedagogia da autonomia - Paulo Freire...

- Não há docência sem discência
- Ensinar exige rigorosidade metódica
- Ensinar exige pesquisa
- Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos
- Ensinar exige criticidade
- Ensinar exige estética e ética
- Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo
- Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação
- Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática
- Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural
- Ensinar não é transferir conhecimento
- Ensinar exige consciência do inacabamanto
- Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado
- Ensinar exige autonomia do ser do educando
- Ensinar exige bom-senso
- Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores
- Ensinar exige apreensão da realidade
- Ensinar exige alegria e esperança
- Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível
- Ensinar exige curiosidade
- Ensinar é uma especificidade humana
- Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade
- Ensinar exige comprometimento
- Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo
- Ensinar exige liberdade e autoridade
- Ensinar exige tomada consciente de decisões
- Ensinar exige saber escutar
- Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica
- Ensinar exige disponibilidade para o diálogo
- Ensinar exige querer bem aos educandos

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Paulo Freire:
“Ao descobrir-me ingênuo, comecei a tornar-me crítico”.
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“Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornarmos capazes de amar o mundo”.
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“Quanto mais filhas e filhos se vão tornando ‘seres para si’ tanto mais se vão fazendo capazes de re-inventar seus pais, em lugar de puramente copiá-los ou, às vezes, raivosamente e desdenhosamente nega-los”.
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“o futuro não nos faz. Nós é que nos refazemos na luta para faze-lo”.
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Clique aqui para acessar a biblioteca virtual Paulo Freire

Pedagogia do Oprimido

Pedagogia da Autonomia

Pedagogia da Esperança

Pedagogia da Indignação

Política e educação

Pedagogia da pergunta

Professora sim, tia não

o calibre


De repente sua vida se resume a uma maca.
Não maçã, nem manhã, tampouco manha.
Lá está você dependendo da tecnologia,
da medicina, dos cuidados, do incerto.
Para variar, do imprevisível, tão possível da vida.
Foi assim no dia 28 de dezembro.
Refém estava nas mãos de três cardiologistas.
Refém estava nos olhos da brisa.
Refém estava sem destino no destino.
Refém estava refém da crença que não tenho.
Um mês passado, um caminho futuro.
Duas vias num só coração turbilhonando.
Do sangue confuso, da parada repentina.
O calibre do medo do que lhe aguarda.
Daquilo que lhe água, ou desagua.
Do que lhe afaga ou desaba.
Lá estava eu refém do calibre.
Do tiro.
Do temor.
Da agulha.
Da dor.
Do alívio.
Novamente estarei refém dos calibres.
Como se a vida não passasse de armas a ponto de atirar para qualquer lugar.
Não se sabe quem cairá.
Nem menos quem sobreviverá.
Lá ficarei feito soldado em batalha acreditando que a medalha irá para o meu peito (mas que a guerra irá acabar).
Não por honra, ou vaidade, mas porque viver é uma cachaça que embriaga e não dá para parar.

frase do findi...

"por polidez, perdi minha vida".
Rimbaud

08 fevereiro, 2007

Quem educa quem?


Ana Luppso (5 anos) descobrindo, em casa, os prazeres da pintura

Creio que aprender seja um desafio diário, e que ensinar seja um compromisso humano. Nessa caminhada, a questão que fica para mim é: "quem ensina quem?".

Muitas vezes, responsabilizamos a escola pela "obrigação do educar". Contudo, esse papel se estende (no meu entender) ao governo, órgãos públicos e privados, famílias e todas as instituições que compõem uma socidade.

São as trocas, as interações, as relações que, sem dúvida, promovem crescimento. É o conhecimento acumulado, por séculos, que permite encurtar atalhos para certos temas. "Educar" vai além de ensinar a ler e escrever, fazer contas, ou decorar fórmulas de física e química para o vestibular.
Educar, penso, envolve também ética, valores, cidadania, posturas individuais e coletivas, além da capacidade de lidar com a própria vida em busca dos objetivos pessoais e da tal felicidade.

Na condição de mãe, posso dizer que aprendo diariamente com minha filha, que ainda traz a espontaneidade da liberdade, da inocência, da curiosidade e da coragem. Acredito que, em grande parte das vezes, tenho feito por ela é a tentativa de "enquadrá-la" para uma vida em "sociedade", o que me causa dúvidas, tristeza e a sensação de não permiti-la ser quem poderia ser, mas ser alguém "moldada". Isso é educar?

Claro que também tento respeitar seus limites, será? Sob qual ótica? Daquilo que considero limite? Do limite dela ou do meu? Educar não é simples. Nos esbarramos nas nossas dificuldades, na pressa, na imposição social, no mercado financeiro, nos apelos publicitários de consumo, nas diferenças raciais, ideológicas e religiosas. São muitos os percalços no percurso da educação.

O que tem facilitado um pouco meu papel de mãe é compartilhar experiências com outras mães, pais, avós, tios e uma gama infinita de pessoas que convivem comigo diariamente. Tem sido nessa troca de informações e nas observações atentas do que é "ser criança" que vou mudando meu leme e tentando fazer o barco não naufragar nesse oceano de informações e diferenças.

Talvez, o que mais tenho aprendido é que respeitar as diferenças é o desafio maior; que não projetar em um filho os nossos desejos ou frustrações requer uma atenção diária; que proteger a infância é uma obrigação de nós adultos; que no fim das contas eu mais aprendo do que ensino...

Por isso pergunto: quem ensina quem?

06 fevereiro, 2007

DaHora Oficina de Culinária



Missoshiro de legumes





Macarrão colorido






As oficinas de culinária DaHora ensinam você a combinar ingredientes fresquinhos para montar pratos saborosos e saudáveis. E melhor. Super fáceis de fazer. O tempo de preparo médio de cada receita DaHora é de apenas 30 minutos.

Oficinas de fevereiro nas datas abaixo, das 20h às 22h, na SQS 105 (bloco C).









>Oficina 1 – Terça – 06/02
>- Chop Suey de filé
>- Sopa de milho
>- Doce de banana

>Oficina 2 – Quinta – 08/02
>- Escondidinho de shitake
>- Cuscuz marroquino vegetariano
>- Mousse de limão

>Oficina 3 – Sábado – 10/02
>- Arroz com tomates e azeitonas
>- Missoshiro de legumes
>- Compota de maçã sem açúcar

>Oficina 4 – Terça – 13/02
>- Macarrão colorido
>- Creme de abóbora
>- Mousse de maracujá

>Oficina 5 – Quarta – 14/02
>- Frango picante
>- Salada de cuscuz de trigo
>- Doce de abacaxi

>Oficina 6 – Quinta – 15/02
>- Yakisoba de legumes
>- Caldo verde vegetariano
>- Creme de maça sem açúcar



Investimento: R$ 50,00 (inclui apostila).

Desconto de 20% para quem indicar um amigo.
Para quem se inscrever em mais de uma oficina, a segunda sai a R$ 40 e a terceira a R$ 30.


Inscrições com a Ana Carla (8427 9276) ou com a Maíra (8401 8546) até sexta-feira, 09/02.


Vagas limitadas.

29 janeiro, 2007

Crítica, filosofia, educação e globalização...

"A crítica não é uma busca por definir as estruturas universais de todo conhecimento legítimo e toda possível ação moral, mas ela é uma pesquisa histórica que procura ressaltar, entre as contingências e arbitrariedades que nos fazem ser o que somos, a possibilidade de não sermos mais aquilo que somos..."(Michel Foucault)



"A crítica filosófica não comporta a transmissão de qualquer moral particular mas a abertura do espaço ético à inquietude, a sensibilidade, a atenção. A crítica procura se situar fora das morais afirmativas; ela não questiona uma moral para sua troca por outra; ela não é a denúncia de uma falsa moral e o advenimento da moral verdadeira, o que não significa que renuncie ao campo da ética nem que seja eticamente neutral ou imparcial; pelo contrário, ela procura manter aberta a interrogação pelo valor e sentido do que fazemos e sobre a forma em que nos relacionamos com o que fazemos: é a afirmação do valor da não conformidade, da insatisfação, da abertura"(Jorge Larrosa).


"As resistências são as manhas necessárias à sobrevivência, o fundamento para a rebeldia perante as ofensivas que ameaçam nosso ser (Freire, 1997: 87); elas são, ao mesmo tempo, reafirmação de nossa não completude, do caráter constitutivamente aberto, inacabado, do universo humano. Em verdade, mais do que manha, a resistência é a afirmação do caráter irrenunciável da autonomia, princípio ético-político não negociável do ser humano. O termo `autonomia` denota desde sua origem grega (autós: si mesmo; nómos: costume, norma, lei) uma relação entre a norma, o comum, o compartilhado e o sujeito que a produz. Autônomo é aquele que se dá a si mesmo a norma (em oposição ao autônomo, o heterônomo segue a norma de outro). Resistir é uma forma de afirma a autonomia. Resistimos a unidimensionalidade da globalização, a onipotência do mercado, porque impõe uma lógica que avassala nossa autonomia, porque pretende decidir por nós, sobre nós, para nós. Resistimos essa lógica porque nos torna menos humanos, limita nosso campo de ação e de pensamento, restringe nossa liberdade de pensar e ser aquilo que queremos ser. A uma educação para a resistência se opõe uma educação para a docilidade, para a obediência. Ambas qualidades são pouco interessantes para a prática da filosofia com crianças e professores em, pelo menos, dois sentidos. Por um lado, porque a própria filosofia não poderia crescer se fosse praticada por sujeitos dóceis e obedientes. Por outro lado, porque a docilidade e a obediência obstaculizam o exercício da liberdade na autodeterminação do ser e do fazer do sujeito. Mas estas qualidades são pouco convenientes não só para a filosofia, quanto para as diversas formas de vida, de um modo geral". (Walter Omar Kohan)

27 janeiro, 2007

Educação? como? onde? por que?

Desânimo na sala de aula, editorial da "Folha de SP"

Um sistema que deixa escapar entre os dedos 16% dos alunos mais velhos precisa de reparos urgentes



Eis a íntegra do editorial:

Uma legião de 1,7 milhão de jovens brasileiros entre 15 e 17 anos está fora da escola. Abandonaram as aulas por falta de vontade de estudar.

Análise do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que 40% dos jovens fora da escola a deixaram por desinteresse. A busca de emprego vem em segundo lugar (17%).

Por mais que se matizem os dados – não se pode excluir, por exemplo, uma soma de dois ou mais fatores para explicar a evasão –, o diagnóstico de que a escola "é chata" é indisputável.

Despontam aqui duas ordens de problemas.

Há aqueles mais marcadamente acadêmicos, como a repetência e a sensação de não aprender nada "útil", e outros com maior interface social, mas que também resultam em evasão, a exemplo de desemprego na família, gravidez na adolescência.

É preciso atacá-los todos.

Só que mudanças de envergadura exigirão medidas no campo acadêmico, as quais políticos relutam em adotar. Um sistema bem feito de progressão continuada ajudaria a baixar os índices de repetência.

Remunerar de forma diferenciada docentes e diretores cujos alunos se saiam melhor seria uma fonte de estímulo à excelência no sistema.

Também os "curricula" cobram há tempos uma ampla revisão. Tenta-se ensinar coisas demais aos jovens, perde-se o foco, e o resultado é fracasso.

Pelo menos nos anos iniciais, é preciso concentrar-se nas ferramentas básicas – português e matemática –, que mais tarde permitirão ao estudante assenhorear-se das demais ciências.

O fato, incontestável, é que a educação vai mal, e algo precisa ser feito. Um sistema que deixa escapar entre os dedos 16% dos alunos mais velhos precisa de reparos urgentes.

(Folha de SP, 14/1)

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Comentando:

Não me abisma saber que a Educação no Brasil vai de mal a pior.
como diz um velho amigo, professores agora são simples "Commodities" (são produtos "in natura", cultivados ou de extração mineral, que podem ser estocados por certo tempo sem perda sensível de suas qualidade, como suco de laranja congelado, soja, trigo, bauxita, prata ou ouro. Atualmente também são consideradas commodities produtos de uso comum mundial como lotes de camisetas brancas básicas ou lotes de calças jeans).

Tanto faz você ser uma laranja doce ou azeda, desde que dê algum "caldo" está na linha de produção e gerando lucro aos empregadores. Professores, hoje em dia, não precisam de ter uma "qualificação", mas apenas "render" um suco, mesmo que insoso, afinal existe açucar e ninguém será reprovado por tomar algo mais, digamos, "sem graça". Há que ser "básico" como uma camiseta branca, sem grandes dizeres.

Claro que, entre os 15 e 17 anos, queremos muito mais do que "conteúdos" chatos e sem aplicação prática para os nossos dilemas hormonais. A escola é enfadonha, chata. Os professores são sucos, em grande parte, azedos. O sistema tenta preparar o jovem para o vestibular de uma formação posterior, a tal profissão, que jamais tenha que usar certas fórmulas decoradas durante tantos anos de fundamental e médio.

Melhor do que estudar é viver, assim pensam nossos jovens. Estão errados? Lembro-me que o segundo grau (assim chamado na minha época) foi um dos piores momentos escolares que já vivi.

Eram conteúdos, provas, professores, exigências, currículos, pesados, chatos, e sem qualquer ligação com minha vida pessoal. Não havia contexto, havia decoreba. Havia obrigação. Havia teste de cognição e jamais de criatividade.

O jovem é, por natureza, "revolucionário", empreendedor, e colocá-lo sob uma redoma, uma camisa de forças, é mortal, improdutivo, desanimador e sem qualquer desafio.

A evasão escolar não é apenas problema do sistema educacional, mas do contexto cultural de um país. Se temos no Brasil uma inversão de valores, uma cultura que não permite autonomia e responsabilidade pelos próprios atos (vejamos a política), não temos que cobrar de nossos alunos postura diferente daquela que hoje eles demonstram.

Educar é questão nacional, educacional, familiar, institucional e pessoal. É parte de um todo muito mais complexo que o resumo "escola".

Se ninguém está interessado em propagar valores, pesquisa, leitura, senso crítico, quebra de paradigmas, falando de modo geral, por que nossos jovens devem ser responsabilizados pelos abusos e absurdos de um sistema "suco de laranjas"?

Não há, por enquanto, solução possível para esta questão. Embora, tenhamos professores dedicados, diretores comprometidos, coordenações visionárias. Contudo, uma escola é apenas uma ilha perdida num oceano de desmandos, lucro, capitalismo e "salve-se quem puder". Enquanto isso, tentamos lançar bóias àqueles que conseguem agarrá-las. Certamente, muitos morrerão afogados, inclusive, nós, os professores.

Duplamente prisioneiros

Agora, na madrugada, conversava com o Roger. Quase três da manhã veio a filosofia: “o ser humano é a inteligência em um animal”.

Ótima definição e tampouco nova. Falávamos sobre virgindade, monges, mundano, devassidão... O que leva uma pessoa a viver mais plenamente o seu lado animal ou o seu lado racional?

Disse Buda que melhor mesmo é o caminho do meio...

Falava sobre autoconhecimento. E esse, sem dúvida, dói. Descobrir as próprias sombras e o próprio “lixo” é um ato de coragem e muita reflexão. Melhor falar dos vizinhos e ver novela, “pensa” a maioria.

Contudo, lá estão os monges aprisionando seus “animais” na meditação e sublimando o corpo para um paraíso futuro, para a iluminação. Assim como as virgens e beatas.

Por outro lado, vemos pessoas aprisionando a “razão” para viverem como animais plenos em seus instintos e irracionalidade. Muitos são os exemplos.

Viver o aqui-e-agora dos prazeres mundanos e carnais – o “paraíso” da vida – ou escolher viver o amanhã do “paraíso” da morte? Paraísos e infernos (dependendo do ângulo de visão) tão ensinados pelos dogmas religiosos e morais.

Perguntei a ele: “somos animais aprisionados na razão, ou uma razão aprisionada no animal?”

Ele disse: “ambos. Essa é a condição humana”.

Exato. Talvez, a chave de toda a tormenta existencial. Conviver com a dupla prisão, sabendo que a liberdade é utopia. Uma questão de escolha quanto ao predomínio de uma ou outra “redenção”.

Difícil mesmo é caminhar pelo meio que não seja apenas o dentre as pernas ou muito além dos prazeres que só o corpo pode dar...

soll

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Essa pode ser uma "síntese":


Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.


Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embragai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.


(Charles Baudelaire)

26 janeiro, 2007

o poeta...a poesia... um é o outro...

"Quero ser poeta e trabalho
para tornar-me vidente:
Você não compreenderá nada
e eu quase
que não saberia explicá-lo.
Trata-se de chegar ao desconhecido
através do desregramento de todos os sentidos.
Os sofrimentos são enormes,
mas é preciso ser forte, ter nascido poeta,
e eu me reconheci poeta.
Não é de modo algum culpa minha.
É errado dizer:
Eu penso:
dever-se-ia dizer:
sou pensado.
— Perdão pelo jogo de palavras.
Eu é um outro."


(ARTHUR RIMBAUD)

24 janeiro, 2007

Lá vamos nós vivendo...


"Tudo pode acontecer, inclusive nada".
Richard Fitzgerard

19 janeiro, 2007

oficina literária...

Ligare sine Locale

O bebê não sabe o nome de nada. Sem referências – vê. O
concreto. Percebe o mundo sem perceber o
sentido/percebe o sentido ao enxergar o
mundo. Em sua plasticidade re-significa. Forma novos
caminhos. Silencia. Quebra a língua - aprende a
falar. Junta palavras para construir a
linguagem. Imita. Des-constrói o real para
compreender. Desordena. Joga. Caixas de fósforo que
se juntam em vagões de trem. Brinca. Repete para
entender. Simplifica. Transforma.
O neném é um enigma. Seu choro um
oráculo. No murmúrio está toda a
significação. Onde tudo sabe. Tudo se
diz em um murmrrumrrummsrsrsr. Universal.
Quem lhe cuida
se incumbe no exercício do convívio diário de
interpretá-lo. Busca a metalinguagem. Revestida de
trans-temporal-idade. Processo árduo de percepção. Em
revisão permanente. Amamentação. Dar vida. O bebê não
comunica. Necessita versões. Verões. Para ser.
crescer. É. Factual. Simultaneamente na percepção e na
visão/vislumbra-se o sentido. Des-vela-lhe.
(por Solange Pereira Pinto - exercício em 2 de maio de 2003)