
Técnica: Fotografia
______________________


Escondida no terraço (uma resenha)
Pow! Pow! Foi seco. Preto e Branco. Simples? Duplo. Duro. Não entendia aquela impulsividade. Compulsiva. Misturava medo, vergonha e prazer. Olhava de longe e não acreditava. Danado. Eu tentava negociar. Saravá. A menina gritava. Mãeeeeee! Pára! Calma. Respire fundo. Oh mãeenhe! Psiuuu! Silêncio, gente. Silêncio! Por favor, assim as coisas vão piorar. Virei refém. Vai...continua...anda... Aquela capa apontada para minha cara. Não tinha forças para reagir. Onde me esconder? Talvez debaixo da cama. Ou no banheiro? Havia passado uma hora. Palpitação passando pela garganta. Minhas idéias pelos poros. “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”, berrou. Ele veio de Sertânia, interior de Pernambuco e chegou em São Paulo. Sabe das coisas. Até do que não sabe, sabe. Se chama Marcelino. Sua origem afiou o olhar. A cidade grande a língua. O tempo as idéias. Negreiros bem ali na minha frente. Forte. Intenso. É o porta-voz. Confessa. Dubla. Denuncia. Meus olhos não piscavam. Eram agora lentes coletoras. As desigualdades. Os preconceitos. As marcas. Os fingimentos. A violência. O silêncio. A vida e a morte severina. Urbana. Intestina. Rural. Favelada. Panorâmica. Ainda assim não perdia a sensualidade. O sexo. O tesão. Lembrei das covardias. Das contradições. Das sacanagens assentidas. “Devia nascer sem coração”, ele sussurrou. Passa logo mulher! Anda. Falta pouco! Minha agonia de chegar ao fim sambava entre meus dedos. Num descuido, corri. Fui para o terraço. Escondida nas alturas. Recostei-me nas barras de ferro. Enferrujadas. Olhei para cada lado. Abaixei os olhos. Trêmula. As páginas saltavam. Ligeiras. Lidas. Refletidas. Impressionadas. Finalmente estava a sós com “Contos Negreiros”. Na boca o gosto de vida de morte. Olhei do sexto andar para baixo. Salivei o cotidiano. Onde estão seus outros livros Marcelino Freire? Agora que estou aqui, mais perto das nuvens e do inferno. Com tempo para ver a lua saltar.
O encontro do grupo Mal de Montano,
no Balaio Café, foi proveitoso.
Falamos de encontros literários.
Discutimos sobre plágio. Textos.
Brevemente faremos um sarau. Aguardem. bjims

Carppaccio de abacaxi
Uma das delícias do Balaio Café:
Rodelas bem finas de abacaxi.
Regadas com gengibre, cravo, canela e hortelã.
Cobertas com creme branco (segredo do Cheff).
Hummm. Só não gosto do cravo.
Mas vale experimentar.
Bom apetite!

Havia uma turma com violão.
A música estava animada!
Foi uma noite deliciosa!
Até outra, bjim

Por outro lado, há silêncio que ensina. Diz a notícia que o russo Grigory Perelman (foto), 40 anos, levou 10 anos para resolver a conjectura de Poincare (que descreve o formato do universo e intriga especialistas há 100 anos) e por isso ganhou um dos maiores prêmios mundiais de matemática ao resolver um dos sete “problemas do milênio”.
Perelman, que divide o aluguel de US$ 74 com a mãe e está desempregado desde dezembro, recusou o prêmio de US$ 1 milhão a ser entregue pelo próprio rei da Espanha e alega que não fez nada de extraordinário. "Eu não acho que eu seja de interesse público", disse o matemático ao London Telegraph.
"Eu não falo isso por causa da minha privacidade, não tenho nada a esconder. Só acho que o público não deve se interessar por mim. Jornais deveriam ter mais discernimento sobre o que publicar, deveriam ter mais requinte. Até onde eu sei, não ofereço nada que acrescente à vida dos leitores", completou.
Depois de 10 anos de trabalho, o modesto Perelman, ao invés de publicar seu achado em um importante jornal, jogou tudo em uma página da Internet, para que todos tenham acesso. "Se alguém tiver interesse na solução do problema, está tudo lá. Deixe-os pesquisar livremente."
Perelman vive recluso em São Petersburgo e mantém-se afastado da mídia. "Publiquei meus achados. É isto que ofereço ao público." A solução do problema pode ser vista nos sites aqui, aqui também, e ainda aqui . Devido ao tráfego intenso, pode haver instabilidade no acesso aos links.
*************
*
São inevitáveis as reflexões. Colocarei depois o texto que elaborei sobre "plágio". Agora o "Mal de Montano" me aguarda. Boas reflexões e comentem: "O que você acha do plágio?"
bjuns
Solange




Espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
Nosso olhar duro interroga:
O que fizeste de mim? Eu pai? Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga... Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste...
(Mário Quintana)


Semana finda. Noite de sábado. Pensamentos cruzando fios. Telefonemas insistentes. Muitos ainda mudos. Silêncios opcionais. Solidões compulsórias. TVs acesas. As possibilidades cadentes, feito estrelas. Bar? Boate? Pub? Festa? Vídeo-locadora? Cinema? Edredom? Motel? Calmante? Antidepressivo? As ruas largas do Eixão abrigam faróis em oposição. Vestido ou saia? Blusa pólo, camisa ou camiseta? Sutiãs e cuecas selecionadas. Os solteiros se preparam. Alguns casados mais afoitos também. Casais inteiros idem.
O roteiro da dúvida se traça. Vamos no mesmo carro? Pego você em meia hora? Seu cartão tem crédito? Mãe cadê meu sapato rosa? Elisabeth já falei para você não usar meu perfume todos os dias. Ih, o creme de barbear acabou. Essa meia tá furada porra. Caretas no espelho. A cidade está inquieta. As filas se formam. Bonés. Carecas. Escovinhas. Chapinhas. Cabeludos. Cachos. Celulares nas orelhas. Brincos também. Cera quem sabe? Dialetos ocupando os ares. Carros em filas duplas. Manobristas. Buzão. Carona. Metrô. Táxi. Finalmente decidem. Gates. Rock. Tum. Tum. Tum. Pam. Pam Pam. Yeah. Yeah.
Suores. Horrores. Tropeços. Gargalhadas. Vista ao longe. Esbarrões descuidados. Esbarradas escolhidas. Oi. Oi. Tudo bem? Tudo bem. Plano C. O ataque. Vencem. Perdem. Desistem. Sobram. Soldados em final de batalha. Guardanapos molhados. Copos esquecidos. Trincheira vazia. Todos camuflados. Míopes. Falas atrapalhadas. Solidariamente se unem. Comunicação ébria. Quase manhã. Acerto de contas. Fechamento de caixa. Encerra a madrugada. Ressaca no domingo. O balanço ao acordar. Sozinho. Acompanhada. Perdido. Apavorada. Apaixonado. Arrependida. Pelado. Descabelada. O sol nasce. Sujeitos confusos. Verbos conjugados. Adjetivos mastigados. Palavrões reservados. Redação sem título. Texto sem conclusão. Melhor começar outro parágrafo. Semana finda. Acabou o sábado…
O calouro comeu a teoria. Mastigou a verdade. Cuspiu o projeto. Inovou demais. Texto rejeitado. Dano colateral: reprovação. Foi internado. Diagnóstico: indigestão do saber. Indicação: obedecer ao orientador e à academia. Proibição: integrar idéias próprias ou revoltar-se. Interações medicamentosas: efeito tóxico se associado com ousadia; efeitos reduzidos ao ignorar vaidades alheias. Advertência: esquecer dúvidas durante o tratamento. Alergia à prepotência será tratada em outro momento. Reações adversas: emburrecer. Apesar do coma induzido o rapaz passa bem. Apenas alguns delírios de citações. Engoliu aspas demais. Meses depois da alta. Pergunta ao veterano: - Você acredita em tudo que eles dizem? À beira da banca o outro responde: - Cara, relaxa, veja a tudo isso como se fosse ficção.
Solange Pereira Pinto (abril/2005)
