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21 outubro, 2010

Paulo Freire

“Se a educação não transformar a sociedade, sem ela a sociedade tampouco muda.”

{janeiro de 2010}

Paulo Freire
Paulo Freire
Ele partiu em 1997, dois anos antes de o Almanaque ganhar os céus. Porém, desde então, Paulo Freire tem sido presença constante por aqui – seja em perfis biográficos, citações ou notas sobre obras que analisaram sua vida e legado. Seu principal campo de batalha foi tema de inúmeras entrevistas. É quase unanimidade entre as dezenas de personalidades que ocuparam esta seção que os caminhos para a transformação do País passam inevitavelmente pela educação. Nesse mês que marca o início de um novo ano – um ano de mudanças de governantes por todo o País –, empunhamos mais uma vez esta bandeira, agora muito bem acompanhados. Tomamos de empréstimo seus pensamentos em vídeos, palestras, entrevistas e, sobretudo, em seus próprios escritos para provar que, apesar de ter nos deixado há 13 anos, o legado do mais importante educador brasileiro segue vivo. E extremamente necessário.


Como foi a sua infância?
Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz. Meu primeiro mundo foi o quintal de casa, com suas mangueiras, cajueiros de fronde quase ajoelhando-se no chão sombreado, jaqueiras e barrigudeiras. Árvores, cheiros, frutas, que, atraindo passarinhos vários, a eles se davam como espaço para seus cantares.(1) Tempos depois, vivendo em Jaboatão dos Guararapes, experimentei o que é a fome e compreendi a fome dos demais. Em Jaboatão, criança ainda, converti-me em homem graças à dor e ao sofrimento que não me submergiram nas sombras da desesperação. Em Jaboatão joguei bola com os meninos do povo. Nadei no rio e tive “minha primeira iluminação”: um dia contemplei uma moça despida. Ela me olhou e se pôs a rir…(2)



O senhor formou-se em Direito. Chegou a exercer a profissão?
Meu gosto não era pela advocacia. Descobri isso logo no começo. Minha primeira causa, recém-formado, foi com um jovem dentista que comprou um equipamento dentário e não pôde pagar. E eu era advogado do credor dele. Chamei o rapaz ao meu escritório: “É, doutor Paulo, eu não posso pagar. E o senhor não vai poder me acionar contra, não pode tomar meus instrumentos de trabalho. Nem tampouco minha filhinha. Mas o meus móveis o senhor pode tomar.” Deixei de ser advogado naquele dia. Eu disse pra ele: “Olhe, vá para casa, passe uns dias em paz com tua mulher, porque daqui a 15 dias eu vou devolver essa causa. Teu credor vai ter mais uma semana para arranjar outro advogado como eu, e aí vai te aperrear de novo.”(3) Ali encerrava a minha carreira como advogado. Ao contar para a minha mulher naquela mesma noite, ela riu, me beijou e disse: “Eu sabia que um dia isso ocorreria. O que você tem que fazer é educação”.(4)



A cultura é um elemento presente em sua visão sobre a educação. Como isso se refletiu na prática pedagógica?
Com as discussões sobre o conceito de cultura, o analfabeto descobriria que tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do povo, como cultura também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor, de um grande místico, ou de um pensador. Cultura é a poesia dos poetas letrados de seu país, como também a poesia de seu cancioneiro popular. Cultura é toda criação humana.5 Todos os povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo e, ao transformá-lo, se transformam. A dança do povo é cultura. A música do povo é cultura, como cultura é também a forma como o povo cultiva a terra. Cultura é também a maneira que o povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar enquanto trabalha. Cultura são os instrumentos que o povo usa para produzir. Cultura é a forma como o povo entende e expressa o seu mundo e como o povo se compreende nas suas relações com o seu mundo. Cultura é o tambor que soa pela noite adentro. Cultura é o ritmo do tambor. Cultura é a ginga dos corpos do povo ao ritmo dos tambores.(1)



Por que o analfabetismo ainda existe?
Para a concepção crítica, o analfabetismo nem é uma “chaga”, nem uma “erva daninha” a ser erradicada, nem tampouco uma enfermidade, mas uma das expressões concretas de uma realidade social injusta. Ninguém é analfabeto por eleição, mas como consequência das condições objetivas em que se encontra. Em certas circunstâncias, o analfabeto é o homem que não necessita ler; em outras, é aquele ou aquela a quem foi negado o direito de ler.(6)



O senhor considera que suas ideias mudaram a alfabetização no País?
Que podem um trabalhador camponês ou um trabalhador urbano retirar de positivo para seu que-fazer no mundo, para compreender criticamente a situação concreta de opressão em que se acham, através de um trabalho de alfabetização em que se lhes diz, adocicadamente, que a “asa é a da ave” ou “Eva viu a uva”? Mais que escrever e ler que “asa é a da ave”, os alfabetizandos necessitam perceber a necessidade de um outro aprendizado: o de “escrever” a sua vida, o de “ler” a sua realidade – o que não será possível se tomam a história nas mãos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos.(6)



Por que sua prática educacional provocou discórdias, culminando inclusive em seu exílio?
É que às classes dominantes não importava que eu não tivesse um rótulo porque elas davam um. Para elas eu era comunista, inimigo de Deus e delas. E não importava que eu não fosse. Perfila quem tem poder. Quem não tem poder é perfilado. A classe dominante tinha poder suficiente para dizer que eu era comunista. É claro que havia um mínimo de condições objetivas para que eles pudessem fazer essas acusações. A fundamentação básica para que eu fosse chamado comunista eu dava. Eu pregava uma pedagogia desveladora das injustiças; desocultadora da mentira ideológica. Que dizia que o trabalhador como educando tinha o dever de brigar pelo direito de participar da escolha dos conteúdos ensinados a ele. Eu defendia uma pedagogia democrática que partia das ansiedades, dos desejos, dos sonhos, das carências das classes populares. Essa pedagogia era mais perigosa do que o discurso sectário stalinista. Isso é óbvio. Do ponto de vista dos que deram o golpe de Estado, me pôr na cadeia foi uma atitude ideologicamente correta. Eles diziam que eu era um subversivo internacional. Eu não cheguei a tanto, mas era um cara de sonhos revolucionários.(4)



O que o senhor considera uma educação para a transformação?
Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.(7) Não devemos chamar o povo à escola para receber instruções, postulados, receitas, ameaças, repreensões e punições. Mas para participar coletivamente da construção de um saber, que vai além do saber de pura experiência feito, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história.(8) A tradição brasileira, profundamente autoritária, coloca sempre o formando como objeto sob a orientação do formador, que funciona como o sujeito que sabe. É preciso deixar de ser assim. Conhecimento não se transfere, conhecimento se constrói.(9)


Paulo Freire
Paulo Freire

Qual a razão de tanta luta ao longo de sua vida?
Eu recuso qualquer previsão fatalista diante da história e dos fatos. Eu não aceito expressões como: “Lamento que haja tantos brasileiros e tantas brasileiras morrendo de fome, mas afinal a realidade é essa mesma”. Eu recuso. É falsa, é ideológica. Nenhuma realidade é assim mesmo. Toda realidade está submetida à possibilidade de nossa intervenção. A história da luta pela justiça rural e agrária neste país revela a superação da posição inicial da adaptação e adequação, inclusive como uma forma de defesa. Uma das razões da minha luta e presença no mundo é que, como educador, eu posso contribuir para uma assunção crítica da possibilidade da passividade, para que se vá além dessa passividade, do que chamo de posturas rebeldes e transformadoras do mundo.(10)



O senhor se considera um sonhador? 
Esperançosamente luto pelo sonho, pela utopia, pela esperança, na perspectiva de uma Pedagogia crítica. E esta não é uma luta vã.(11) Para mim o utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar. O ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico.(2)



É do ser humano sonhar?
É inviável o ser humano continuar se ele para de pensar no amanhã. Não importa que seja um pensamento em torno do amanhã, o mais ingênuo possível, o mais imediato, o de se a gente terá café amanhã, ou se a gente vai ler ou reler Hegel ou Marx. Não importa. Nós somos seres de tal maneira constituídos, que o presente, o passado e o futuro nos enlaçam. A minha tese então é a seguinte: não pode existir um ser permanentemente preocupado com o vir a ser, portanto com o amanhã, sem sonhar. É inviável. Sonhar aí não significa sonhar a impossibilidade, mas projetar. Significa arquiteturar, significa conjecturar sobre o amanhã.(3)



Trata-se de um ato político?
Eu não posso sonhar em favor de alguma coisa se não sonho contra outra – que é aquela que obstaculiza a realização do meu sonho. Eu não posso sonhar se não tenho clareza com que e a favor de quem eu sonho. Daí o ato de sonhar ser político. Um ato ético, e um ato estético. Não é possível sonhar sem boniteza, e sem moralidade, e sem opção política. Quando você me diz: “Paulo, eu também sonho”, eu quero saber com que e a favor de quem você sonha. Qual é o sujeito beneficiário do teu sonho? É a burguesia que explora ou é a massa deserdada que sofre? E não basta que você me diga: “Eu sonho pela humanidade”. A humanidade é uma abstração. Não existe.
O meu sonho é que inventemos uma sociedade menos feia do que a de hoje. Menos injusta, que tenha mais vergonha. Esse é o meu sonho.(3)



Por que, afinal, ser professor? 
Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura.(12)


O senhor foi feliz?

Fui imensamente feliz. Evidentemente que entre essas alegrias eu também tive minhas raivas, minhas decepções, minhas tristezas, mas não há como escapar disso. O que você tem que fazer é não deixar que a razão de ser da raiva e da tristeza perdurem demais. Nós vivemos muito mais momentos de alegria do que de raiva e tristeza. A raiva também é importante para poder vir a alegria. Sem estouros de raiva não construiremos a alegria.(4)


SAIBA MAIS
(1) A Importância do Ato de Ler, de Paulo Freire (Cortez, 2005).
(2) Conscientização: Teoria e prática da libertação, de Paulo Freire (Centauro, 2001).
(3) Entrevista concedida ao Museu da Pessoa em outubro de 1992.

Disponível em www.museudapessoa.org.br

(4) Entrevista concedida a Mario Sérgio Cortella e Paulo de Tarso Venceslau,

publicada na revista Teoria e Debate em janeiro de 1992.
Disponível no site da Fundação Perseu Abramo: www.fpa.org.br

(5) Educação como Prática da Liberdade, de Paulo Freire  (Paz e Terra, 2007).
(6) Ação Cultural para a Liberdade, de Paulo Freire (Paz e Terra, 1981).
(7) Citação presente na Biblioteca Digital Paulo Freire: www.paulofreire.ufpb.br
(8) A Educação na Cidade, de Paulo Freire (Cortez, 1995).
(9) Perfil biográfico publicado na seção Ilustres Brasileiros do Almanaque Brasil,

em maio de 2005. Disponível em www.almanaquebrasil.com.br

(10) Entrevista concedida à TV PUC de São Paulo em abril de 1997.

Disponível na Biblioteca Digital Paulo Freire: www.paulofreire.ufpb.br 

(11) Pedagogia da Indignação, de Paulo Freire (Unesp, 2000).
(12) Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire (Paz e Terra, 2008).

João Rocha Rodrigues e Bruno Hoffmann

Fonte Almanaque

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