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05 abril, 2010

O sangue de Cristo virou bits nesta páscoa


A tecnologia a serviço das ovelhas desgarradas

Por Solange Pereira Pinto
Em 4 de abril de 2010.


Sempre me impressionou a quantidade de felicitações em certas datas do ano versus o sumiço generalizado das pessoas nos dias e nos fins de semana da vida em si. Nos 365 movimentos de rotação do ano, posso dizer que em menos de dez ocasiões recebo contato de grande parte da minha agenda acumulada nos 42 anos (em declínio anual em quantidade), sejam elas “amigas” ou “familiares”.

Minhas caixas de e-mail ou de celular se enchem de aspas, pela ordem cronológica, de “Feliz Ano Novo, (“Feliz Carnaval” ninguém dá, mas alguns chamam para comemorar),  “Feliz Dia da Mulher” (alguns poucos homens normalmente), “Feliz Páscoa”, “Feliz Dia das Mães (ou dos pais)”, “Feliz Dia dos Namorados” (ou Dia do Amigo), “Feliz Dia das Crianças (no caso da minha filha)”, “Feliz aniversário”, “Feliz Natal”.

Os defensores das tradições dizem que são datas para confraternizar e unir “pessoas que se gostam”; “promover a interação” (que não foi praticada nos 355 dias restantes).

Essa fraternidade, de produção cristã e cultura comercial, se transforma em quase tortura para quem valoriza as relações baseadas em afetos e afinidades verdadeiros e voluntários. É praticamente uma agressão moral estabelecer como indispensáveis certas reuniões, quando sabemos que é praticamente impossível comungar dos mesmos pontos de vista, convicções, estado de espírito, amizade sem a prévia ou sólida construção de vínculos baseados em afinidades sinceras ou interesses (comuns?).

Tempos atrás, os homens se sentavam na sala para fumar seus charutos e tragar um drinque regado a assuntos masculinos, enquanto as mulheres se reuniam na cozinha para trocar receitas, moldes e exaltar as qualidades das crianças.

Hoje muitas famílias são formadas por filhos de vários casamentos, gays e negros têm outro status social, mulheres não se casam, adolescentes transam em casa.

Contudo, as datas comemorativas continuam iguais na mentalidade social: os tradicionais feriados cristão merecem reverência, apesar da inclusão no calendário dos dias dedicados ao amor (14/02),  poesia (14/03), saúde (7/4), livro (23/04), educação (28/04), direitos humanos (10/12), criatividade (17/11), vida (13/10), lembrança (26/12), etc. Todo dia é dia de...Correr e não ver ninguém!
É indiscutível que os conceitos de família, de casamento, de amizade, de contato social vêm mudando e a forma de interatividade e escolhas pessoais também. A consangüinidade não é hoje suficiente para, por si só, estabelecer relações e tampouco garantir boa convivência.

Se antes havia uma pressão para o encontro familiar obrigatório, sob chicote e chantagens, hoje a pressão continua, mas ninguém é obrigado a manter contato direto e pessoal a contragosto. Pois, além dos porres alcoólicos providenciais que tiram de cena rapidamente uns, outros objetos intermediários vêm salvar a agonia dos desgarrados.

Antes que o tédio chegue ou uma frase agressiva role boca abaixo, os bits vêm auxiliar aqueles que se desviaram das convenções sociais desprazerosas e primam por estabelecer contatos diários de outra natureza.

Como em outros tempos os recursos eram mais escassos, as pessoas se obrigavam ao diálogo forçado, ao sorriso amarelo e ao tapinha falso nas costas durantes horas.

Agora, o sinal de descontentamento é mais claro. Exemplo disso é uma reunião familiar de páscoa que pretende juntar todos os parentes dissonantes ao mesmo tempo e no mesmo lugar em nome da “confraternização e ressurreição”. Considerando que os interesses não são comuns, geralmente, lá estão – fisicamente – todos no mesmo ambiente, porém suas almas e desejos viajam eletronicamente para bem longe dali.

A garota de 15 anos está grudada no celular, enquanto o tio assiste futebol na TV, a tia vê Domingo Legal na outra, a prima joga paciência no netbook, o garoto vidra os olhos no DS, a mãe manda SMS para a amiga, o avô cochila na cadeira de balanço, enquanto uns três mais animados bebem e falam amenidades.

Nestes nossos tempos, a interação sanguínea – parental - já não é suficiente para sustentar a comunicação interpessoal. Os indivíduos na posse de recursos mais amplos e ricos buscam compreensão, entendimento e aceitação que ultrapassam a cota dos insuficientes e maçantes 10 fins de semana “obrigatórios” por ano (até por que quem se gosta mesmo ultrapassa os meros rituais da tradição social).
As relações podem ser atualizadas por bits e são precedidas de escolhas que enfatizam discurso, a linguagem e a plateia. Nesse caso, as pessoas querem falar sobre o que desejam e querem ser ouvidas por isso.

Dessa forma, a torre de babel familiar acaba ruindo por que quase ninguém se entende, o tempo “ruge” (bravo!), todos querem aproveitar bem cada dia vivo e a tolerância para escutar temas que fogem ao interesse comum está se esgotando rapidamente.

Assim, as afinidades para as trocas comunicativas significativas têm sido ressaltadas por todos aqueles que prezam a liberdade de pensar, agir, sentir e, sobretudo, respeitam os outros nessas mesmas condições. Ou seja, excetuando, obviamente, pais (mães e similares) ditadores que impõem a obediência a despeito de qualquer sofrimento alheio (sim, há pais sádicos que dizem educar), as pessoas escolhem para conviver –  nos momentos de lazer – os iguais ou afins quanto à linguagem, tema e discurso.

No início deste século, vemos o sangue se transformando em linguagem. Buscam-se mais as ligações discursivas do que as ligações sanguíneas. Os encontros são precedidos pela construção de mensagens que variam desde o contexto amoroso, de acolhimento até o de identidade – os afetos e as afinidades.

Tudo isso, passa pela palavra, pelo diálogo, pela compreensão do pensamento do outro, e não pela quantidade de eventos sociais. Roupas, objetos de consumo, estilo de vida, leituras, convicções formam um discurso e estabelecem, sem dúvida, a identidade que atrairá outros iguais.

A raça dá lugar à tribo. O sangue dá lugar á linguagem – analógica e digital. Quando não se entende não se gosta e a comunicação precária leva ao abandono.

Certamente ninguém quer ficar sozinho e hoje basta um aperto de botão para os bits se processarem e mudar o nível de satisfação. Ainda que o discurso planetário seja pela inclusão das diferenças e pela tolerância, essas bandeiras se adequam melhor aos campos do trabalho e das obrigações civis, pois nos bastidores de cada lar é que se revelam  com mais evidência os preconceituosos, racistas, homofóbicos, nazistas, ditadores, machistas etc.

Portanto, das diferenças conceituais tenho fugido e termino este discurso desejando a todos um “Feliz Dia da Internet, das Comunicações e das Telecomunicações”. Viva o dia 17 de maio! Dia da alforria dos vínculos familiares e sociais obrigatórios.


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