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13 abril, 2010

Max Ernst


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O pintor Max Ernst (1891-1976) descreveu seu nascimento com o mesmo surrealismo que caracterizou sua obra: “Em 2 de abril, às 9h45, Max Ernst saiu do ovo que sua mãe tinha colocado no ninho da águia, que a ave tinha chocado durante 7 anos”

Gigante das telas e uma das mais influentes personalidades artísticas do século XX, Ernst era autodidata e aprendeu a pintar copiando as belíssimas paisagens de Van Gogh. Mas antes de se avolumar na pintura se avolumou nas liberdades humanas, fazendo oposição ao fascismo após a Primeira Guerra (na qual lutou pelo exército Russo), depois ao stalinismo e seus excessos totalitários, sendo também perseguido pela Gestapo na França.

Sua pintura traduziu essas experiências, assim como sua inconformidade com as forças hediondas que o estalinismo e o fascismo traziam para a civilização. Em 1919, fundou o grupo Dada, em sua terra natal, Colônia, Alemanha, e a partir dali se dispôs a passar por cima de toda a estética estabelecida em seu tempo.
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No artigo “The Placing Under Whisky Marine”, escrito por ocasião de sua primeira exposição em Paris, o artista explicou um pouco do seu trabalho, notadamente sobre suas obras de colagem, uma antiga técnica reinventada pelos cubistas. Mais do que justapor as imagens para confrontá-las (como até então a colagem era utilizada), Ernst as juntava de forma dispare, objetivando criar uma nova manifestação poética. 

E poesia é o que não falta em suas telas. Escreveu na ocasião: Nós jovens voltávamos da guerra perdidos e nossa aversão por ela precisava encontrar um escape. Quase naturalmente, a aversão tomou a forma de um ataque às bases da civilização que criou essa guerra - ataque através da linguagem, sintaxe, lógica, literatura, pintura e muito mais”.

Em 1922, o pintor emigrou para França, onde conhece André Breton e definitivamente abraçou e expandiu o movimento surrealista. Em seu livro “A Mulher de 100 Cabeças”, publicado em 1929, Ernst refletiu toda magia, poesia e imagens avassaladoras, sendo a obra considerada um dos marcos do surrealismo. Sua inconstância, agitação e ansiedade artística o fizeram até participar como ator de um filme de Buñuel, “A Idade do Ouro” (1930).
Surrealismo
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O surrealismo explodiu na primeira metade do século XX e Ernst estava lá como um dos seus principais arautos. O grupo que bandeirava o movimento (Louis Aragon, Salvador Dalí, Man Ray, Ernst e outros) tinha ideias claras sobre a ruptura artística que modulava o ideário surrealista (”renovação da arte a partir da recusa à lógica e à moral da burguesia”), não deixando pedra sobre pedra nos modelos da “estética aceitável” da época. 

Conforme notou o crítico italiano Giulio Carlo Argan, ao contrário da vanguarda cubista, que almejava a revolução, os surrealistas, capitaneados por Breton, queriam o escândalo. Para Ernst, considerado pelo poeta Breton como “o mais magnífico cérebro assombrado”, escandalizar era criar “equações visuais insolúveis” tanto para a dona de casa quanto para o burocrata.

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Na série “Europe after the Rain”, produzida entre 1933 e 1942, Ernst ansiava cada vez mais por tornar claro (e visível) seus pensamentos. Utilizou na série uma técnica que consistia em colocar papel ou vidro em uma superfície pintada para retirá-los em seguida. Boa parte dos surrealistas deixava que o resultado final ficasse intocado, inalterado, Ernst, ao contrário, usou a técnica revelando formas mutantes escondidas (animais, humanos, selvas, cidades e florestas).

A primeira tela da série é uma visão da terra e do mar vista pelos olhos de um piloto alocado nas alturas. A paisagem é coberta por nuvens pesadas, um visual da eminente guerra que se vislumbrava após a chegada Hitler ao poder. Essa era a forma como esse magnífico pintor reportava suas imensas intranquilidades e insatisfações humanitárias.
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Ernst foi um artista multifacetado. Além de pintar, esculpia e escrevia. Em seu diário (“Tissue of truth, Tissue of lies”) ele descreve de forma meticulosa sua mente e as origens de sua criatividade. Explicava suas obras como “uma tentativa de conquistar o último grande mito da civilização, o mito envolvendo o processo criativo”. 

A amizade com Breton, líder ideológico do surrealismo, foi muito importante para sua vida. A obra dos dois artistas tenta, o tempo todo, identificar a mágica e os mistérios do processo criativo. 

A colaboração entre eles foi descrita como “uma Odisséia através do processo criativo, e uma Ilíada pela mente”. Mas, ao contrário do que se pensa, a relação dos dois era cheia de confrontos e tensões, como documentado no livro “Max Ernst: Beyond Painting”, publicado em 1948, e de autoria do próprio artista.

Ernst viveu em Nova York entre 1941 a 1945, em 42 conheceu a pintora surrealista Dorothea Tanning, com quem se casou em 46. Em 58 voltou para França, onde morou até os 85 anos de idade. Em 1º de Abril de 1976, um dia antes de seu aniversário, o artista morreu em Paris.
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Robert Motherwell, também artista e um dos fundadores da escola americana de arte abstrata expressionista, escreveu sobre a importância de Enrst e sobre a natureza de sua arte abstrata: “A luta da maioria dos pintores modernos se dá em seus estúdios. Seus inventos são a significação plástica que reproduz os dramas ocorridos no eu interior. Sua investida contra a sociedade é feita através da indeterminação, através do contraste entre o real subjetivo e o convencional. De forma oposta, Max Ernst está entre os poucos pintores modernos cujos interesses estão vinculados ao mundo exterior, aos eventos e instituições sociais - a igreja, a repressão política, escravidão sexual. Sua obra é repleta de ironias e crueldades, sarcasmos e sátiras

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***A primeira imagem é de Max Ernst, fotografado por Yousuf Karsh, em 1965. As imagens, de cima para baixo, são: The Postman Cheval (1932); Birth of Zoomorph Couple / Couple zoomorphe en gestation (1933); Surrealism and Painting (1942); Oedipus Rex (1922); Virgem espancando o menino jesus perante 3 testemunhas - Andre Breton, Paul Éluard e o pintor (1926).

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