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13 junho, 2009

"O corpo pode determinar os hábitos de uma nação"


Entrevista com Ana Botafogo
02/06/2009


ESPECIAL TRANSTORNOS ALIMENTARES E OBESIDADE INFANTIL
Ana Botafogo é a primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro desde 1981. Começou a carreira ainda criança e completou sua formação no exterior. Já como profissional, participou de festivais em Lausanne (Suíça), Veneza (Itália), Havana (Cuba) e na Gala Iberoamericana de La Danza, representando o Brasil no espetáculo dirigido por Alicia Alonso, em Madrid (Espanha).

Considerado por muitos especialistas como uma atividade de risco para pessoas com transtornos alimentares, o balé exige uma disciplina rígida com relação ao corpo. Ana conta que, especialmente no balé clássico, deve-se ter uma preocupação constante com o peso e a forma. Mas afirma que, em 28 anos de carreira, nunca conviveu com bailarinos que sofressem de anorexia ou bulimia e acredita que o problema atinja muito mais as modelos do que as bailarinas.

Ana conhece profundamente cada um de seus movimentos e ensina que é preciso cuidar do corpo para viver bem, sem exageros. “O corpo é a expressão de tudo que somos”, comentou durante entrevista ao Projeto Criança e Consumo.


Como a sociedade de consumo mudou a relação das pessoas com o corpo?

A mídia, de modo geral, tem uma influência muito grande nessa questão. Há um culto ao corpo malhado, ao corpo magro, que tem um lado extremamente negativo. As pessoas darem mais atenção ao corpo pode trazer benefícios para a saúde, mas esse exagero pode causar problemas, a exemplo dos transtornos alimentares. Todo exagero é problemático.

Essas pressões socioculturais trazem um padrão estético muitas vezes distante da realidade. As pessoas são diferentes e têm corpos diferentes. Então, por mais magro que você queira ser, muitas vezes não é possível, porque há uma limitação das características próprias de cada pessoa. A bailarina profissional, por exemplo, tem de ter o corpo esguio, magro, belo – a beleza é muito importante na dança. E nem sempre será possível atingir esse padrão.

O corpo para você é uma expressão artística. O que é de fato o corpo para todos nós?

Para mim, que sou bailarina profissional, o corpo é tudo. Ele é o meu trabalho e por isso tenho esse cuidado de manter hábitos saudáveis, porque se o meu corpo está machucado, eu tenho dificuldade de dançar. E não adianta dizer que o que importa são apenas os pés e as pernas, porque se tenho uma ferida na mão, isso vai limitar meus movimentos, vai prejudicar meu equilíbrio. Então, assim como os atletas, os bailarinos têm uma relação mais cuidadosa com o corpo. Isso não quer dizer que o corpo tenha uma importância menor para as pessoas comuns. Pelo contrário, o corpo é a expressão de tudo que somos.

Certa vez você afirmou que bailarina não vive de "água e alface". Qual é a importância da nutrição para o corpo?

É fundamental. A bailarina, assim como o atleta, precisa de energia. Sem energia, ela não faz nada, não se movimenta, não tem força para dançar. Dessa forma, é preciso manter hábitos alimentares saudáveis. Uma das exigências do balé clássico é manter o corpo magro. Eu nunca tive problema com peso, de engordar. Quando voltava de férias, sempre voltava mais “cheinha” e tinha de fazer regime para perder um ou dois quilos. Nada mais que isso. Algumas bailarinas precisam se cuidar mais, porque têm mais tendência a engordar. Isso vai da característica de cada um. Eu não me privo de comer um sanduíche aqui e outro ali.

Agora, o que tenho observado, sem nenhum conhecimento técnico porque não sou especialista, é um aumento significativo de crianças e jovens obesos. Nos EUA isso é uma grande preocupação e o problema começa a chamar a atenção aqui no Brasil também.

Por que você acha que isso vem acontecendo? As pessoas, de modo geral, não têm consciência do próprio corpo?

Nenhuma consciência. Quem não é bailarino, atleta ou alguém extremamente preocupado com a aparência física, não tem a menor preocupação com o corpo. E aí eu volto naquela primeira questão que você me fez. O culto ao corpo é extremamente prejudicial, mas a total falta de cuidado com ele também é. Essas crianças e adolescentes que estão muito acima do peso não têm culpa. Muitas vezes os pais deveriam prestar mais atenção a isso. São pessoas que, na vida adulta, terão problemas graves de saúde.

O corpo carrega as "marcas" de nossas escolhas?

Mais do que isso. O corpo carrega as marcas de quem somos. Eu, como bailarina, tenho um olhar muito apurado e quando olho para uma dançarina jovem, por exemplo, sei dizer se ela estudou pela postura dela. O bailarino tem um tônus muscular e uma postura muito típicos.

Um trabalho belíssimo seria fazer um retrato do Brasil através dos corpos. O corpo da caatinga, que é diferente do corpo do gaúcho e assim por diante. A postura fala muito de alguém. E na imensidão do nosso país são tantos corpos diferentes, de tantas culturas diferentes, que fica difícil generalizar. O corpo pode determinar os hábitos de uma nação.

Você foi convidada para atuar na novela Páginas da Vida, da TV Globo, que abordou o problema da bulimia. Como se preparou para esse papel? Por que, muitas vezes, se relaciona a rigidez do balé com problemas como esse?

Essa foi a primeira novela que eu fiz na vida, então tive toda uma preparação de voz, de interpretação e tudo mais. Com relação ao tema da bulimia na novela, a minha personagem tinha uma atuação muito pequena nessa questão. Eu interpretava a professora de balé da menina e participava de poucos diálogos nesse sentido.

De fato, no imaginário das pessoas se faz essa relação entre o balé e a anorexia ou a bulimia. Mas isso não é necessariamente uma realidade. Acho que o diretor da novela deu um tiro certo ao tratar o tema, para chamar a atenção dessas garotas por aí de que é preciso se cuidar sem exageros. Porém, nos meus anos todos de carreira eu nunca convivi com bailarinas doentes. Nunca mesmo. Aqui no Brasil isso não me parece ser algo comum na dança. Acho que deve ser muito mais comum entre as modelos, mas também não tenho dados para afirmar. Nos EUA, na década de 70, começo dos anos 80, houve um problema muito sério nesse sentido. Na época, várias bailarinas profissionais ficaram doentes e inclusive, a Gelsey Kirkland, escreveu sobre a experiência dela com a anorexia. Ela também tinha envolvimento com drogas.

Você falou das modelos. Bailarinos e modelos vivem no palco. A relação com o corpo é semelhante?

De jeito nenhum. Modelo não tem músculo. Geralmente são corpos extremamente magros, quase pele e osso. O bailarino é magro, mas tem a estrutura muscular fortalecida. Ele precisa ter força.

Qual é a importância de ter a estrutura muscular forte para qualquer pessoa?

São os músculos que te mantêm em pé. Para subir uma escada, para caminhar, correr, nadar, sentar. Para qualquer atividade é preciso ter uma estrutura que sustente o corpo. As pessoas muito magras que não trabalham os músculos certamente se sentem mais cansadas e fracas. O bailarino clássico tem de ser magro e esguio, mas ele tem um trabalho de musculação. O bailarino contemporâneo tem um trabalho maior ainda, porque a dança contemporânea exige um corpo mais atlético. É um balé que pretende se aproximar mais da vida real, das pessoas comuns. Enquanto o balé clássico é aquela coisa etérea. A bailarina clássica tem de ter leveza, ela sempre interpreta um pássaro, um cisne... E foi justamente essa leveza, o romantismo dos enredos, como Coppélia, Cisne Negro, que me encantou.

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