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03 maio, 2009

Mídia, saúde, ética e ambiente - A gripe suína em quatro dimensões




Por Solange Pereira Pinto
sollpp@gmail.com

“A gripe suína é transmitida por vias aéreas, mas a contaminação pode se dar pelo contato com objetos que tenham o vírus. Os sintomas são similares aos da gripe comum, mas com febre acima de 39 graus, dores musculares e de cabeça intensas, olhos vermelhos, fluxo nasal e tosse. Além disso, pode haver diarreia e vômitos”.

O noticiário internacional não para. A crise financeira perde manchete para uma dita possível crise na saúde pública, e paradoxalmente o aquecimento econômico de certos grupos. A gripe suína assume o topo de toda a imprensa e, mesmo antes de uma possível “pandemia” (epidemia mundial) se instalar no planeta, o preconceito (nem sempre velado) assume a liderança na audiência.

A avalanche informacional alardeia contabilizando – uma a uma – as descobertas de casos possíveis, casos suspeitos, casos reais, casos descartados, óbitos. Os infográficos vão apresentando os países “infectados”. Os noticiários online atualizam durante as 24 horas os acontecimentos em torno do tema. O google registra no filtro de busca mais de 1.220 milhões de ocorrências dos termos “gripe suína”.

Desinformação pelo excesso de informação

Na contramão, o expectador confuso (e ingênuo) não sabe se comer carne de porco mata, se respirar pega, se a gripe que tem naturalmente pode evoluir por si só em suína. De um lado, há especialistas garantindo que o país está sob controle. De outro, controvertidamente, existem especialistas dizendo que não existe vacina disponível para o vírus. Também há quem diga que pode ser a doença plantada como saída oportunista para certos mercados. As informações são muitas e a dúvidas maiores.
A mídia massiva, por sua vez, pecando em não trazer informações mais contextualizadas e críticas, melhor analisadas, para ajudar o cidadão a entender os acontecimentos. Fica se bastando na superficialidade e na contabilidade de vítimas, na subida e descida de “números”

Mudança de nome
No meio do caminho, a Organização Mundial de Saúde (OMS), para atender empresários do ramo, sugere que se pare de chamar a gripe de suína. Em nota afirma que passará a chamar a epidemia de influenza A (H1N1) – nome do vírus causador da gripe que é subdivido em gêneros (A, B, C) e em propriedades glicoprotéicas (HA e NA) – porque o nome está gerando preconceito com relação ao consumo de carne suína, cujo ato não transmite o vírus. A iniciativa da OMS visa preservar o mercado, pois a negativa de consumo pode gerar impactos econômicos (como no passado, por exemplo, com a gripe aviária).

Agronegócio, meio ambiente e saúde
Na balança, as questões de saúde e meio ambiente tem se convergido para uma mesma relação, na qual a ética poderia tomar partido. Vejamos.

Os casos de gripe suína em humanos, que já causaram algumas mortes no México, geram uma insegurança e incertezas para o agronegócio do Brasil, importante exportador de grãos e de carnes, afirmaram fontes dos setores público e privado. "Ainda não está claro, não dá para medir o que é factível e o que é especulação. Pode mexer no milho (nos preços), apesar de esse produto também estar focado em energia (nos EUA). Gera uma insegurança", declarou a jornalistas Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), pouco antes da abertura da Agrishow, maior feira agropecuária da América Latina que se inicia no dia quatro de maio em Ribeirão Preto. Além de outros impactos, como na soja.

O que não deixa dúvidas é que a Influeza A (H1N1), apelidada de gripe suína, tem sua origem no sistema de criação industrial de animais dominado pelas grandes empresas transnacionais. Para a produção em escala cada vez maior, se mantém confinamentos suínos sem a segurança sanitária como prioridade, tendo em vista políticas de mercado que prezam a rapidez do lucro em detrimento do cuidado à saúde e aos aspectos de proteção animal e humana.

As conclusões do painel Pew Commission on Industrial Farm Animal Prodution (Comissão Pew sobre Produção Animal Industrial), publicadas em 2008, afirmam que as condições de criação e confinamento da produção industrial, sobretudo em suínos, criam um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas. Inclusive, mencionam o perigo de recombinação da gripe aviária e da suína e como finalmente pode chegar a recombinar em vírus que afetem e sejam transmitidos entre humanos. Mencionam também que por muitas vias, incluindo a contaminação das águas, pode chegar a localidades longínquas, sem aparente contato direto.

Medicamentos: uma saída lucrativa
Já na epidemia, são também as transnacionais as que mais lucram: as empresas biotecnológicas e farmacêuticas que monopolizam as vacinas e os antivirais. Os únicos antivirais que ainda têm ação contra o novo vírus estão patenteados na maior parte do mundo e são de propriedade de duas grandes empresas farmacêuticas: o zanamivir, com nome comercial Relenza, comercializado pela GlaxoSmithKline, e o oseltamivir, cuja marca comercial é Tamiflu, patenteado pela Gilead Sciencies, licenciado de forma exclusiva pela Roche. Glaxo e Roche são, respectivamente, a segunda e a quarta empresas farmacêuticas em escala mundial e, igualmente como no restante de seus remédios, as epidemias são suas melhores oportunidades de negócio.

Preconceito e vulnerabilidade
Voltando ao termo, percebem-se outras iniciativas procurando mudar o nome da gripe. A França propôs o nome gripe mexicana, o que foi prontamente rechaçado pelo México. Interessante é notar que na epidemia anterior, a gripe aviária começou sendo chamada de gripe asiática. Agora o esforço está no sentido inverso, da mudança de um nome ligado ao animal para um nome ligado à geografia. Por que será? Melhor proteger um porco a proteger um povo?

Mudando ou não o nome o preconceito já atinge a população mexicana. Embora cidadãos oportunistas também encontrem lugar em meio a crises para contestá-las. Tamanho é o temor mundial a respeito da pandemia da gripe suína que o zagueiro Héctor Reynoso, do Chivas Guadalajara, tentou usar a doença que vem ameaçando o planeta para intimidar um adversário ao ameaçar o atacante argentino Sebastián Penco, do Everton, tossindo e tentando jogar catarro no atleta do Everton.

Já a chanceler mexicana Patrícia Espinosa criticou a decisão da Colômbia de se negar a sediar em Bogotá os jogos dos times mexicanos de futebol Chivas e San Luís pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores da América.

Enquanto isso, de forma mais concreta, vários países estão adotando medidas para tentar conter a propagação do vírus cumprindo a “ética da discriminação”. A União Europeia pediu aos seus cidadãos que evitem viajar para México, Estados Unidos e Canadá. Argentina e Cuba foram além e suspenderam todos os voos vindos do México. A China, que teve o primeiro caso confirmado em Hong Kong na sexta-feira, de um mexicano que havia entrado no país por Xangai, anunciou uma quarentena para todas as pessoas que viajaram no mesmo voo do que o homem infectado. O hotel onde ele se hospedou em Hong Kong também foi fechado por sete dias e todos os seus hóspedes e funcionários receberam o antiviral Tamiflu, um dos dois medicamentos recomendados pela OMS para tratar a gripe suína.

No Egito, as autoridades iniciariam neste sábado o sacrifício de 300 mil porcos como medida de precaução, apesar de os especialistas afirmarem que não há risco de infecção pela ingestão de carne de porco e que não há indicações científicas de que o sacrifício de porcos possa conter a doença.

A vulnerabilidade se espalha e o povo mexicano começa a ganhar as marcas simbólicas da “pandemia” e ter sua dignidade ameaçada, a despeito das causas ecossistêmicas que envolvem a “produção da gripe suína”. Arcam com o peso desproporcional das consequências causadas pelo contexto industrial, comercial, econômico, político que envolve e mantém o interesse de vários países; com principios éticos espirrados.

Pânico ou oportunismo?
Máscaras, kits para testes, remédios, abastecimento da despensa, as “compras de pânico” crescem. Mesmo sem casos confirmados no Brasil, o governo de Minas Gerais anunciou ainda a compra de 6 milhões de máscaras --sendo 5 milhões para a população e 1 milhão de máscaras cirúrgicas para uso exclusivo dos profissionais de saúde. A Secretaria de Estado da Saúde informou ainda que está comprando 50 mil doses de medicamento antiviral para adultos e outras 500 doses para crianças.

Além disso, o Brasil vai receber na próxima terça-feira (5) kits para diagnóstico rápido da gripe. Os kits são produzidos num centro especializado de Atlanta, nos Estados Unidos. Ações e planos de contingência em saúde pública são adotados pelos diversos países. Bolsas de mercado oscilando, caem as ações das indústrias do agronegócio suíno e sobem as ações dos laboratórios farmacêuticos (com o anúncio da nova epidemia no México, as ações da Gilead subiram 3%, as da Roche 4% e as da Glaxo 6%; e isso é somente o começo).

Números mais ou menos
Até agora, foram confirmadas apenas 16 mortes provocadas pela gripe suína no México. As autoridades mexicanas revisaram para baixo o número de casos suspeitos de mortes provocadas pela gripe suína, de 176 para 101, indicando que o surto da doença pode ser menos grave do que se pensava. Enquanto isso, a OMS está enviando 2,4 milhões de doses de medicamentos antivirais para 72 países, de acordo com Michael Ryan.

Ética da sobrevivência ou sobrevivência da ética?

Diante da complexidade (Edgar Morin) que organiza o mundo neste século, onde cada um de nós está relacionado, afeta e é afetado pelas ações e pelas idéias de todos os demais, verifica-se que estamos vivendo a era dos desequilíbrios que geram novas questões ambientais, de saúde pública e de ética.

Pede-se com urgência uma nova atitude da comunidade planetária para o desenvolvimento sustentável, com responsabilidade e respeito aos direitos humanos.

Nota-se claramente, no caso da gripe suína, a influência do consumo, da economia, do ambiente, dos contextos políticos, da indústria, da coletividade acarretando maior vulnerabilidade a determinadas populações. A vez é do México, mas poderia ser outro o país do momento.

Medidas restritivas, preconceituosas, excludentes são tomadas pelos países “amigos”. Protege-se a reputação da carne de porco e deteriora-se a da população mexicana. A chanceler do México, Patrícia Espinosa, criticou as medidas "discriminatórias e carentes de fundamento" adotadas por alguns países contra cidadãos mexicanos.

Espinosa se mostrou "especialmente" preocupada pelo caso da China — que doou ao México material e equipamento médico avaliado em US$ 4 milhões — por "isolar, sob condições inaceitáveis, cidadãos mexicanos que não deram mostras de nenhuma doença". Trata-se de uma família de cinco mexicanos que foram levados à força para um hospital e, depois, impedidos de deixá-lo até que a embaixada do México na China interveio, permitindo que eles fossem transferidos para um hotel. E advertiu que "não há justificativa nenhuma para violentar os direitos de cidadão algum, nem para adotar medidas que não têm base científica nem de saúde pública".

Em comunicados conjuntos, por sua vez, Estados Unidos, México e Canadá pedem que nova gripe não limite o comércio e os negócios internacionais. Contudo, como limitar o contato com o estigma da hostilidade social? Como o povo mexicano está passando pela gripe, seja ela forjada, ampliada, real, diante das medidas hiperbólicas adotadas pelos organismos em defesa sabe se lá quais outros interesses? Como ficam os direitos dos cidadãos mexicanos de irem e virem? Repete-se a formação de uma nova classe de excluídos (como no caso desumano das colônias de Hanseníase)? Os mexicanos simbolizarão os novos párias, embora o problema seja sistêmico e da responsabilidade de todos?

Poderíamos, neste caso, fazer uma aposta na heurística (pedagogia) do medo para se chegar à ética da responsabilidade? Ou será apenas um reaquecimento da economia global mudando o foco de investimentos e consumo? Teoria da conspiração? Paranóia global?
Mídia e bioética

O uso da mídia, ainda que mais sutil e diversificado, lembrará o desempenho do rádio nas grandes guerras mundiais (a rádio era o principal meio de informação e, também, de desinformação das populações) e da psicalogia de Goebbels (o termo psicagogia foi usado nos anos de 1930, por Serge Tchakhotine para descrever os tiranos que utilizavam a rádio para conduzir as massas através da persuasão)?

Diante de tantos questionamentos, nesse contexto de alarde (mais de pandemônio que de pandemia) e histeria falta também uma bioética de intervenção em defesa dos interesses e direitos das populações econômica e socialmente excluídas do processo desenvolvimentista mundial.

A tese defendida pelos bioeticistas Volnei Garrafa e Dora Porto é de que seria eticamente defensável a utilização de “práticas intervencionistas, diretas e duras, que instrumentalizem a busca da diminuição das iniqüidades [...] o que define as prioridades não é a demanda ou as necessidade detectadas na realidade social: é o mercado. E o mercado tem se mostrado a cada ano mais perverso, com regras cada dia mais protecionistas para os países ricos, os mais insensíveis”. Pensando assim, qual (quais) população está mais propensa a ser dizimada diante de uma gripe?

O cotidiano vulnerável dos países periféricos marcados pela exclusão social, concentração de poder, manipulação da informação, miséria, pobreza, evasão de divisas das nações mais pobres para os países ditos centrais beneficiando conglomerados industriais etc. requer uma mediação competente com o estabelecimento de políticas efetivas de defesa dos direitos humanos e da cidadania. “As conseqüências danosas, humanas e ambientais, da desenfreada expansão tecnológica são partilhadas em nome da igualdade. Os efeitos nefastos, políticos e econômicos, de um sistema que vulnerabiliza e vitima o cotidiano de milhões soa impostos em nome da liberdade. A apropriação espúria das idéias de liberdade e igualdade transformam-nas em instrumentos ideológicos de dominação e exploração, legalizados por medidas políticas e sanções econômicas”, defendem Garrafa e Porto.

Cumplicidade e intervenção
É urgente a necessidade de se romper o pacto da mídia com a produção de notícias baseadas em interesses econômicos, em leads e em apurações superficiais. Há que se estabelecer uma cumplicidade entre os meios de comunicação e os fundamentos da Bioética para um debate sobre os rumos da uma epidemia que podem estar envoltos de conflitos morais pontuando sempre a vulnerabilidade. Trazer à pauta os universos contraditórios, as posturas paradoxais, aproximar as realidades.

Enfim, falta aos meios de comunicação de massa expor uma visão ampliada e complexa da saúde humana e das ações humanas que envolvem o ambiente, a vida e saúde, exigindo-se um enfoque transdisciplinar em suas reportagens. Falta à mídia exercer com competência o seu papel de formação da cidadania e de informação de qualidade a serviço do interesse público. Falta concretizar o amplo papel da comunicação de tornar comum o conhecimento e educar a audiência à luz da bioética.

Quem com certeza mais sofre são as populações submetidas à avalanche informacional que desinforma, quem paga diretamente é o povo mexicano vulnerável aos escarros que não vêm diretamente de uma gripe, mas de outras desordens. No entanto, ainda se declara que todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole os Direitos Humanos. Mas a mídia falante se cala.

“Descobrimo-nos portadores de doenças e buscamos resolvê-las individualmente, tentando ignorar que na maioria das vezes elas são frutos de um cotidiano opressor, ditado por uma engrenagem cega que não coloca o ser humano como fim em si mesmo, mas como meio exclusivo para obtenção de lucro. Nossa cegueira, no entanto, não nos exime da responsabilidade. Devemos reconhecer que nossas escolhas cotidianas refletem uma opção ideológica voltada apenas a reproduzir o status quo” (Porto, D & Garrafa, V. Bioética de Intervenção: considerações sobre a economia de mercado. Bioética. 2005; 13 (1):111-123).


Sites consultados durante a elaboração deste texto (Acesso em2/maio/ 2009)

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