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09 abril, 2007

Platéia contemporânea?



Por Solange Pereira Pinto


Hoje fui ao CCBB Brasília, com meu namorado e com minha filha de seis anos, ver as “novidades”. Sábados ou domingos, geralmente, passeamos por exposições artísticas. Pintura, escultura, teatro, música... e, pela primeira vez, dança contemporânea.

Não é comum ter em Brasília espetáculos de dança com preços acessíveis ou lugares disponíveis de última hora. Porém, tivemos a “sorte” de, após apreciarmos “Aleijadinho e seu Tempo – Fé, Engenho e Arte”, “Jardim do Poder” e “Mundus Admirabilis” de Regina Silveira, obter ingressos para o primeiro dos espetáculos “Dança Contemporânea – 4 movimentos” (Damián Muñoz e Virginia García e Maria Alice Poppe, pois Cie. Beau Geste foi cancelado devido à chuva).

Observar as obras barrocas de Aleijadinho e as instalações contemporâneas de vários autores foi estimulante. Galinhas com penas coloridas, montanha de lixo, insetos gigantes, santos esculpidos, sacos plásticos cheios de água, miniaturas, caixas de som emitindo “ruídos”, pedras formando vitórias-régias, tiveram nossos olhos ora atentos, ora distraídos.

Lulu olhava as peças e fazia seus comentários, não para todas é claro. Ao ver a maquete da igreja de São Francisco de Assis (Ouro Preto) ela reparou que as cruzes no alto das torres não eram iguais às das fotografias plotadas na parede. Perguntava o nome dos santos. Olhava e fotografava as borboletas e os escorpiões gigantes de Regina Silveira. Pulava sobre as vitórias-régias, imaginando ser água a grama que as circundava. A criança de seis anos interagia, sentia, percebia, se encantava, desaprovava...

Às 19h fomos ao teatro assistir à dança. É que minha filha dança balé desde os três anos e gosta muito de ver dançarinos, dos clássicos, passando pelo gelo, pela água, até a ginástica rítmica no solo. Contudo, ainda tinha visto a tal dança contemporânea de perto. E, lá fomos.

Não foi muito simples explicá-la que ali era um lugar para se fazer absoluto silêncio e não fazer perguntas. Disse-lhe que calasse, e ela quando queria saber algo cochichava em meu ouvido. Assim foi o combinado.

A dança começou e o movimento dos bailarinos não impressionou à pequena Lulu, que, após um tempo de espetáculo, cutucou meus ouvidos sussurrando “que coisa mais chata mãe. Isso é dança? Vou dormir quando tiver algo mais interessante me chame”. Embora o volume de sua voz fosse mínimo, nas poucas vezes em que me questionou, não se evitou que dois adultos da fileira da frente virassem suas faces com olhares repressores. Enquanto isso, outros adultos da platéia davam risadas e até gargalhadas em certos movimentos dos dançarinos, o que não “afetava” os espectadores.

Talvez tivessem no teatro umas três crianças. Talvez a minha fosse a mais nova. Talvez eu não tenha tido bom-senso ao levar uma criança àquele lugar. Talvez adultos não estejam acostumados com crianças em eventos artísticos. Talvez se deva amordaçar crianças, enquanto os adultos podem expressar suas gargalhadas ou lágrimas emocionadas. Talvez se deva proibir um adulto de se levantar, para ir embora, durante uma apresentação enfadonha. Talvez só “entendidos” devam comparecer em espetáculos de arte.

São vários os “talvezes”. Eu pouco sei sobre “arte”. Procuro no google e vejo que “a dança dança contemporânea é a busca de uma ruptura total com o balé, chegando, às vezes, até mesmo a deixar de lado a estética: o que importa é a transmissão de sentimentos, idéias e etc. Solos de improvisação são bastante freqüentes [...] A dança contemporânea surgiu na década de 60 como uma forma de protesto ou rompimento com a cultura clássica” etc.

Procuro, também, na apresentaçao do folheto do CCBB qual é o objetivo da mostra e lá está “o evento pretende difundir a dança contemporânea, formando platéias e opiniões”. Legal.

Pouco antes de terminar, minha filha diz baixinho “quando é que isso vai ficar interessante? É só isso que vamos ver? Ao que eu respondo “daqui a pouco vamos lá para fora ver o resto, calma”. Ela novamente se aquieta e espera ser “arrebatada” pela dança que vê no palco.

Quando acaba a segunda apresentação. Aplausos. As luzes se acendem. Entra no palco uma moça para explicar que, a dança ao ar livre teve que ser cancelada, em virtude da chuva e por motivos de segurança. Minha filha, já não mais cochichando, diz “mãe um esforço desse para nada? Que coisa mais chata. Nunca vi uma dança tão chata”. A fila na saída está grande e alguns adultos sorriem em razão do comentário dela.

Em contrapartida, os dois adultos que estavam na fileira em frente à nossa, estão novamente a nossa frente misturado-se à “massa” que entope a porta de saída do teatro, e olham horrorizados para trás com horrendas caras. Eu não resisto e digo ao meu namorado “aposto que muitos aqui acharam chato e jamais dirão, mas como criança é espontânea diz exatamente o que pensa”.

É óbvio que os dois adultos se sentem “atacados” com meu comentário. Olham para mim e desferem “isso não é lugar para criança”. Eu rebato “que eu saiba não há restrição de idade e é livre”. Um provoca “só se for para criança educada”. Eu contesto “você acha que platéia se forma como? Uma criança jamais será ‘educada’ para isso se não experimentar”. Ele diz “que vá a espetáculo infantil”. E a Lulu repete “eu achei essa dança muito chata”. O outro diz “chatinha, é ela, mais que o espetáculo”. Eu finalizo “não mais que vocês”.

Depois desse bate-boca fui refletir sobre a presença ou não de crianças em eventos artísticos. Qual é a arte então voltada à criança? O que dizer de uma “possível” separação da arte por públicos? Arte para criança, arte para adolescente, arte para adulto, arte para terceira idade e por aí vai. É uma categorização confiável e justa, em se tratando trabalhos que não contêm nada de erótico, violento, abusivo?

Muito se fala em “formar platéia”. Por que caminhos se dariam essa formação que não sejam pela experiência? Se a música erudita quer platéia, se a dança quer platéia, se a literatura quer platéia, que se abram às portas aos infantes. Não creio que seja somente “infantilizando” a arte que se alcance “públicos”. Ou se não é para ter crianças pequenas que se limite a idade.

Por “livre”, eu entendo livre. Por “formação”, eu entendo formação.

Quanto à imposição do “silêncio” total da platéia, apesar de ser um tema controvertido, fico com a opinião do italiano Paolo Pinamonti “os códigos de conduta aprendem-se à medida que se freqüentam os espectáculos. O ambiente da sala impõe por si uma conduta"; e com o comentário de Rui Vieira Nery: "mesmo as pessoas que vão pela primeira vez a um concerto de música clássica e não sabem as regras de funcionamento acabam por aprendê-las naturalmente."


No fim das contas, falta mesmo é uma platéia contemporânea. Uma platéia que não se sinta tão incomodada com a presença de uma criança em um espetáculo de arte, que não seja teatro de bonecos ou a última versão de Chapeuzinho Vermelho. Talvez falte mesmo é formar o público adulto e ensinar que arte já foi predicado de castas, de elites, de entendidos. Mostrar aos “grandes” que cada dia mais é necessário se popularizar e dar acesso a todas as manifestações artísticas, culturais, e que, isso, sem dúvida, pode e deve começar na infância.

Para finalizar, eu confesso que já vi dança contemporânea mais empolgante. Ah, a Lulu elogiou algumas instalações “pós-modernas” vistas hoje.


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“Afinal, sempre se quebraram tabus’. Até a questão do traje já foi superada. Hoje, um mero 'smoking' dá mais nas vistas do que um 'piercing'." Luís Rodrigues

3 comentários:

rogerio silvério disse...

Adultos são adultos, em Brasília ou Santa Catarina. Na verdade um mundo comandado por elas seria mais autêntico e menos hipócrita. É verdade, as crianças às vezes são duras na sinceridade, mas é o jeito delas. Enfim...
Arte, arte, arte... E não dizem que as crianças são arteiras e pintam o sete. Antes as crianças gostavam de mim, hoje elas me vêem como uma fantasma que atravessa a névoa densa da desilusão.

Alena disse...

Que programação! Estou com uma vidinha tão igual-igual...

Anônimo disse...

Também moro em Brasília e tenho dois filhos, de 8 e 5 anos. Meu filho está hoje no CCBB com a escola, foi ver os "insetos gigantes". Minha filha adora dança também, e eu acho que correria o mesmo risco que você, de levá-la para assistir a um espetáculo e ouvir um comentário sincero. Nem por isso vou deixar de levá-la a espetáculos, se o espetáculo não tem censuraa gente só descobre se ele vai ou não empolgar as crianças quando já estamos lá, né? Não é falta de educação, criança é criança e eu acho linda a sinceridade delas. E quem não gosta de criança é filho de chocadeira!
Um abraço, Juliana

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