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29 abril, 2009

O corpo é a alma


Como uma pequena contusão pode mudar a pessoa que somos

por Denis Russo Burgierman

Cada um de nós é formado por corpo e mente, certo? Ou, se você for mais místico, mais religioso, a divisão é entre corpo e alma. De um lado, nossa essência, aquilo que nos faz únicos. Do outro, a lataria ­ ossos, carne, entranhas. De um lado, a centelha da vida, eterna e pura. Do outro, a matéria, inferior, desimportante.

Pois bem. Eu acredito que essa visão não tem pé nem cabeça, que ela é uma besteira tremenda. Não estamos divididos ao meio. Cada um de nós é um só, e aquilo que chamamos de “mente”, ou de “alma”, nada mais é que uma conseqüência direta e inevitável do corpo. São as células do nosso cérebro ­ e também as do nosso fígado, e as do nosso pâncreas, e as do intestino ­ que fazem com que sejamos quem somos. Nada mais que isso.

Poxa, leitor, me perdoe pensamentos tão pretensiosos neste espaço, que costumo dedicar às coisas pequenininhas do dia-a-dia, mas é que estes dias essas refl exões se tornaram inevitáveis para mim. Conto por quê. Semana passada fui operado. Um médico me sedou, eu apaguei, aí ele abriu uns buraquinhos no meu ombro e parafusou num osso um ligamento que estava solto. Acordei perguntando que horas seria a cirurgia, o médico gentilmente me informou que ela já tinha acabado.

Antes que você se preocupe, atencioso leitor, aviso que a operação foi um sucesso. Finalmente resolvi um problema ortopédico que me incomodava há mais de uma década. Mas agora circulo por aí com o braço esquerdo pendurado numa tipóia. Sou destro, o que quer dizer que o braço esquerdo é o mais dispensável dos meus quatro membros ­ sua imobilização não me impede de me locomover, nem de trabalhar, nem mesmo de dirigir um carro com câmbio automático. Quer dizer, meu probleminha mudou a pessoa que sou, pelo menos um pouquinho.

Por exemplo, acho que escrevo pior com a mão esquerda numa tipóia. Minha mão direita, sozinha, não consegue acompanhar o texto que eu vou bolando na cabeça. O resultado disso é este texto chato (desculpe, mas você não vai ficar bravo com um cara com uma tipóia, vai?). Outra conseqüência é que todo mundo me trata com condescendência, e o jeito que as pessoas me tratam certamente muda a pessoa que sou. Fiquei menos ativo, claro. Menos falante. Outro dia uma senhora me pediu um trocado e neguei. Na hora pensei que, em outra circunstância, daria 1 real para ela. Mas, com a tipóia, fica difícil puxar a carteira, dá preguiça. Ou seja, o braço na tipóia me tornou até menos generoso, mais egoísta. Por outro lado, fiquei mais cuidadoso, menos apressado, ansioso ­ com os dois braços eu queria tudo rápido, agora meu tempo é mais lento. Enfim, mudei. E mudei na minha “essência”.

Minha deficiência é pequenininha. E é temporária. Logo volto a ser quem eu era, só que com um ombro melhor. Mas essa história me ajudou a entender a importância do corpo ­ não só como suporte da alma, ou da mente, mas como base de tudo que somos. E me ajudou a imaginar o tamanho da dificuldade de lidar com problemas mais sérios que o meu. Daqui para a frente, vou ser mais compreensivo com quem tem dificuldades físicas. E vou cuidar bem direitinho do meu corpo.

Denis Russo Burgierman, jornalista, pegou uma bolsa de gelo e colocou no ombro logo depois de entregar este texto. gambiarra@abril.com.br

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