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24 março, 2009

Pares para que te quero...

Feliz sem sexo
Os assexuais, pessoas que não sentem desejo, começam a assumir sua identidade

Suzane Frutuoso


SEM LIBIDO André Romano, hétero e sem sexo há sete anos, não sente
desejo: “Sou feliz assim”

Sabe aquela cena em que uma mulher escultural passa diante de um grupo
de homens e todos se viram para olhá-la? Nesse momento, a mente deles
viaja. O cérebro envia uma série de comandos que libera hormônios pelo
organismo, avisando que é hora de se preparar para uma relação sexual
(mesmo que isso não vá acontecer). Reação semelhante tem a mulher que
é tocada e recebe beijos em pontos estratégicos do corpo. Mas na vida
do escritor André Romano, 28 anos, nada disso faz sentido. O carioca
passa dias de sol na praia de Ipanema diante de um desfile
interminável de biquínis de lacinho e não tira os olhos do livro. “Não
sinto desejo”, diz. “Troco o sexo por atividades culturais e sou muito
feliz assim.” André se encaixa no que especialistas começam a chamar
de quarta orientação sexual: a assexualidade. Além dos héteros, homos
e bissexuais, os assexuais formam uma outra vertente da sexualidade,
que não é nova. Apenas as pessoas sem desejo de fazer sexo estariam
finalmente assumindo um traço de sua personalidade – até como resposta
à pressão por um desempenho sexual fantástico imposto pela sociedade
atual, exacerbadamente erotizada.


Uma pesquisa do Projeto Sexualidade (Prosex), do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo de 2004, revelou que
7% das mulheres e 2,5% dos homens não sentiam falta de sexo. Os dados
se repetiram durante o estudo Mosaico Brasil, que terminou no ano
passado e entrevistou mais de oito mil participantes em todo o País.
Ambos os trabalhos foram coordenados pela psiquiatra Carmita Abdo, que
diz ser absolutamente possível alguém viver sem sexo e não sentir
falta dele. “Quem transa diariamente não é mais normal do que aquele
que não transa nunca”, diz ela. “Não é uma opção, como o celibato, nem
doença. É parte do perfil do indivíduo.” A Organização Mundial de
Saúde inclui o sexo como um dos indicativos da qualidade de vida, ao
lado de itens como atividade física e alimentação equilibrada, desde
que seja seguro e prazeroso. “Fazer sexo obrigado é que acaba sendo
negativo”, diz Carmita.

Os assexuais (que podem ser tanto héteros quanto homossexuais) não
deixam de lado os relacionamentos amorosos. Acreditam, porém, que
carinho e romantismo são suficientes para levar uma relação adiante.
Romano não faz sexo há sete anos e diz que nunca teve uma decepção a
ponto de desistir do envolvimento com alguém. “Namorei cinco anos. O
sexo era maravilhoso. Mas, quando acabou, não senti falta. Tenho
sentimento, não tesão”, explica.
A internet, com seu poder de agregar pessoas com interesses comuns,
foi fundamental para tirar os assexuais da invisibilidade. No Orkut a
professora Sandra Ramos, 24 anos, de Santa Catarina, percebeu que
outras pessoas compartilhavam dessa mesma visão de mundo. Ela ficou
três anos sem vida sexual, por achar que não lhe trazia benefícios.
“Nunca foi algo agradável. Para mim, é mecânico”, diz. Namorando há
duas semanas, Sandra acaba de voltar a fazer sexo, já que gosta do
novo namorado. “Mas troco por um encontro com os amigos fácil”, diz.
Por intermédio da rede, o sociólogo americano David Jay, 27 anos, deu
início ao movimento assexual. Ele criou em 2001 o site Asexuality
Visibility and Education Network (Aven). No primeiro ano, a página com
informações sobre assexualidade registrou 50 pessoas. Hoje são dez mil
membros, com links em 12 idiomas. “Vivemos em uma cultura na qual as
pessoas têm de assumir que são loucas por sexo. Isso é complicado para
os assexuais”, disse Jay à ISTOÉ. “Não decidimos gostar ou não de
sexo, nascemos assim.” Ele acredita que cada vez mais os assexuais
reconhecerão a própria assexualidade e falarão abertamente sobre o
tema.

A sexóloga Ana Maria Zampieri, autora do livro Erotismo, sexualidade,
casamento e infidelidade (Ed. Summus), concorda: “A diversidade
sexual, que se expandiu com a revolução gay, tornou o cenário
favorável para o grupo dos assexuais aparecer.” Segundo ela, terapeuta
de casais há 35 anos, pessoas que amam o parceiro mas não o desejam
sexualmente sempre estiveram presentes no consultório. “A diferença é
que, no passado, isso só era revelado durante o casamento e ficava
relacionado ao tempo de convivência”, diz. Como hoje as pessoas casam
mais tarde – ou nem casam –, a indiferença ao sexo fica evidente.
Mas o ginecologista Gerson Lopes, coordenador da Associação S.a.b.e.r.
– Saúde, Amor, Bem-estar e Responsabilidade, alerta que a falta de
libido é uma disfunção sexual que precisa de tratamento terapêutico.
“É importante uma avaliação psicológica para saber se quem se
classifica como assexual não está mascarando problemas sérios”, diz. O
desejo minguado pode ser patologia quando causado por traumas (leia
quadro). Quem vive bem trocando uma maratona nos lençóis por um
cineminha não precisa se preocupar. Talvez a assexualidade seja apenas
o sinal de que um mundo tão sexualizado está à procura de um ponto de
equilíbrio. E de que as pessoas precisam se acostumar com as
diferenças.
Fonte : Revista Isto é

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