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22 outubro, 2008

A morte que revela a morte

(22.10.2008)



Namoravam há três anos. Num tumulto de idas e vindas. Mais de dez, diziam. Ela ainda com 15 e ele já com 22. Os cabelos negros da menina contornavam-lhe a pele morena. Os lábios carnudos e a covinha no queixo emolduravam o sorriso estampado. O rapaz enlouquecia. Moravam no ABC, em Santo André. A última briga do casal, parecia definitiva. Um amigo a mais no orkut dela havia levantado sua ira. Não se conformava. Ela era dele.

Foi numa segunda-feira de outubro, 13, que a turminha se reuniu para fazer um trabalho de geografia da escola. Na casa de Eloá Cristina estavam sua melhor amiga Nayara, Vitor e mais um colega de classe. Batia um frio paulista e caia a garoa. Tempo bom pra um chocolate quente ou batida de morango, quem sabe.

A tarde começava. No segundo andar do conjunto habitacional da Rua dos Dominicanos, a moçada estudava. Até que Lindemberg Alves, sem ser convidado, chega com o coração em pedaços. Inconsolado. Indignado. Obstinado. Arma 32 no punho. Um saquinho de munição a tiracolo. Às 13h30min, Orgulho ferido. Macheza a pino. Esbraveja para moça: “isso não ficará assim”. Não suportava o fim do namoro. Estava uma pilha de nervos. Logo de chegada, estapeou os garotos com ciúme doente. Deu um tiro no modem e matou o PC.

A noite aproximou. Eloá não acreditava no que via. Melhor, lembrava de quantas vezes apanhara do namorado e do quanto ele era possessivo. Não agüentava mais viver assim. Não abriria mão do rompimento. Lindemberg ameaçava. O grupo estava rendido. Todos assustados. Os meninos passaram mal e foram libertados. Ela não. Seriam reféns do amor enlouquecido.

Os celulares tocavam. Os pais buscavam notícias. Os vizinhos queriam detalhes. A polícia foi chamada. Estava erguido o espetáculo. A periferia de Santo André era palco do noticiário. Pela primeira vez Lindemberg e Eloá na TV. Era show. Ao vivo. Pela janela do apartamento se movia o filme parecido com seqüestro. O anjo bom e o anjo mau assopravam o ouvido do rapaz. Nayara testemunhava. O tempo passava. Outro dia nasce.

Um tiro descortina rua afora. Havia mirado o policial. Ele erra. E sorri. E se acha herói em cadeia nacional. 28 horas. O moço vira plantão do Jornal Nacional. Seu nome ganha a voz da Fátima Bernardes. Ele vibra. Enaltece sua importância. Ao mesmo tempo destempera. Oscila. Não tinha planos definidos. Não sabia o que fazer. Queria Eloá para sempre. Queria domá-la. 30 horas. Queria controlar. Queria não sentir. Queria se anestesiar. Abre a porta do apartamento e manda Nayara correr e fala “não olhe para trás”. 33 horas. Ela obedece num fôlego só.

40 horas. Sofrendo pede um beijo. Ela nega. Ele força. Ela rejeita. Ele bate. Três dias se completam. Ninguém cede. A multidão se avoluma perto do prédio para acompanhar o folhetim. Ávidas por mais uma cena, as filmadoras se projetam em direção ao terceiro andar. Voyeurs a postos. 44 horas. Registram apenas cimento e vultos esparsos do casal em negociação.

A família exilada à força tenta contato. Seu Aldo Pimentel, o pai da garota, quer voltar para casa. Pede ao ex-namorado da filha que recue. 50 horas. Não consegue. Lindemberg não negocia. 55 horas. Não quer nada em troca. Não abre mão. Profetiza: “se Eloá não é minha não será de mais ninguém”.

60 horas. Em alerta, os policiais barganham. 68 horas. Nayara volta para a casa da amiga. Prefere o cativeiro a ficar longe de Eloá sem ter notícias. Acalenta. Os jornais vendem em disparada. A história se avoluma nos salões. Nos parques. Nos escritórios. Nos restaurantes. No metrô. Na grande São Paulo. No Brasil inteiro. O enredo toma ares de horário nobre. Trama de Janete Clair. 72 horas.

Sob a mira do revolver elas não podiam dormir. 80 horas. Amarradas com camisetas e fita adesiva velavam o sono do rapaz amador. Já era quinta-feira. O cansaço abatia todos. 85 horas. Menos a paixão insensata de Lindemberg. Essa esquentava. 90 horas. A mensagem de Felipe para Eloá o havia tirado ainda mais da razão. Era insuportável pensar nela com outro. Isso não. Jamais!

Um estampido. Outro. Mais um. 100 horas. A porta cai sobre a barricada. Os homens invadem a saleta. O paraibano de Patos sonhava com o casamento. Não bebia. Não fumava. Era trabalhador. A família enaltecia. Como podia agora estar medido com isso? Essa coisa de amor armado...

A face de Nayara avermelhava em sangue. A cabeça de Eloá pendia sobre o sofá em tons mostarda. A almofada escorava-lhe o queixo. O colchão sobre o tapete central embolava os lençóis de noites mal vividas. Os restos de comida registravam 100 horas de solidão. O retrato da saída era do Lindemberg trancado em si mesmo.

A mãe chora. A outra chora. A irmã dele sofre. A mãe chora. O outro chora. O irmão dela sofre. A televisão foca. A platéia arregala. Uns choram. O pai passa mal. O Samu salva. Lá vai seu Aldo para o hospital. Inconsolado. Pobre homem. Vítima de uma bala fincada no cérebro da filha. Ele não agüenta. A mãe se ergue forte e mostra a cara na TV. Ele não.

Mas o inesperado acontece. Seu Aldo, pai da menina morta por ciúmes, vira manchete nacional. Seu nome verdadeiro Everaldo Pereira dos Santos. Procurado pela polícia. Ficha corrida longa. Fugitivo de Maceió. Homem da gangue fardada. Pistoleiro. Assassino do delegado. Não vai ao velório. Não vai ao enterro.


Lindemberg ouve a notícia na prisão. Lembra de João de Santo Cristo. Não acreditou na história que ele via na TV. E o repórter anuncia: “Nayara pede aos médicos a visita de Pato, o Alexandre”. O jogador do Milan se comove e manda a camisa autografada.


O orkut estoura de scraps. A filha de seu Ronaldo pede uma bicicleta ao avô de Natal. Fernanda manda um conto para Marçal. Solange começa a escrever um conto com o título “a morte que revela a morte”. 172 horas. Ele nega. O assassinato, ele nega. A morte dela, a ele revela. Lindemberg chora. A mãe vela. Procura-se...

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