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07 maio, 2007

O rei e a censura togada


Entrevista com Paulo César Araújo para IstoÉ

Biógrafo de Roberto Carlos diz queo cantor maculou a imagem e queimpedir a venda de seu livro é umato reacionário

Por Eliane Lobato
O historiador e jornalista Paulo Cesar de Araújo tem 45 anos de idade, 22 deles vividos na Bahia e 23 no Rio de Janeiro. Uma grande paixão atravessou a infância e virou objeto de pesquisa da última década e meia: a vida e obra do cantor Roberto Carlos. Entretanto, foram necessárias apenas cinco horas para Araújo confirmar o quanto as paixões são cruéis: esse foi o tempo que durou a audiência realizada na semana passada na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, São Paulo, na qual seu livro Roberto Carlos em detalhes foi proibido, em caráter definitivo, de ser produzido e comercializado. Lançada em dezembro pela editora Planeta, a obra de 504 páginas chegou a vender espetaculares 22 mil exemplares. No acordo, a editora entrega a Roberto Carlos os quase 11 mil exemplares restantes e fica obrigada a ressarci-lo caso ele compre algum livro não recolhido em lojas. O autor fica proibido de falar sobre a vida íntima do artista. O Rei, por sua vez, retira os processos civil e criminal que movia contra eles e suspende a cobrança de multas. Isso foi chamado de audiência de conciliação.

As partes que mais desagradaram ao Rei, segundo ele disse ao juiz, são referentes ao sofrimento de Maria Rita na fase final do câncer, ao suposto caso que teria tido com a cantora Maysa (já falecida) e sobre a suposição de que teria participado de orgias na casa do produtor Carlos Imperial. Casado, pai de uma menina de cinco anos, Araújo trabalha como professor. A ISTOÉ, ele diz que tem chorado diariamente pelo desfecho “reacionário”, mas continua amando Roberto Carlos.

ISTOÉ – Houve acordo ou uma rendição?
Paulo Cesar de Araújo – Foi um acordo bom para a Planeta, foi muito bom para o Roberto Carlos. E ruim para mim, para a história, o público e o mercado editorial.

ISTOÉ – Para a Planeta foi bom por quê?
Araújo – Porque a expectativa, segundo os advogados, era de uma derrota na Justiça. Iríamos perder a causa, dois processos, um civil e outro criminal, e haveria uma indenização alta a pagar. A Planeta avaliou que seria melhor fazer o acordo agora sem pagar nenhuma indenização. O livro tinha sido proibido por liminar e os advogados de Roberto Carlos já estavam lá com uma petição pedindo multa acumulada de R$ 250 mil. No início, eles tinham estipulado multa de R$ 500 mil por dia se houvesse venda após a liminar. O juiz é que passou para R$ 50 mil.

ISTOÉ – Não valeria a pena lutar?
Araújo – Se dependesse só de mim, evidentemente que eu continuaria. Eu queria arriscar, queria testar os limites desse sistema, dessa democracia, dessa liberdade. Mas, na avaliação dos advogados da Planeta, todo o quadro era favorável a Roberto Carlos. A forma e a rapidez inédita como o processo andou, a postura do juiz, dos promotores. Na audiência, os promotores e o juiz pediam para fazer acordo. Veja o clima em que a audiência transcorreu: o juiz (Tércio Pires) disse ao diretor da Planeta (Cesar Gonzalez) que se ele não tivesse comparecido seria expedida uma ordem judicial para fechar a editora! Então, na avaliação da editora, a derrota era iminente. Preferiram fazer o acordo.

ISTOÉ – Você chegou a falar diretamente com Roberto Carlos?
Araújo – Sim, fiz uma proposta a ele. Eu disse: Roberto, a proposta que vou apresentar agora é a melhor para todo mundo, para você principalmente porque queimar 11 mil livros em pleno século XXI é lamentável. Será uma mácula para sempre na sua biografia. Proponho que você tire do livro o que acha que não deve ser tocado, que considera ofensivo, que o magoou. O que chama de invasão de privacidade representa apenas 5% do meu livro. Você também reclamou que eu estava usando a sua história em benefício próprio, então eu cedo a você todos os direitos autorais, não quero mais um centavo. Mas que o livro continue a existir, após a revisão que será feita por você. Roberto Carlos falou: “Posso até pensar nisso depois, mas prefiro seguir o que está acordado aqui.” E o juiz já foi entregando o papel para ele assinar, ninguém mais se manifestou. Saí chorando da audiência.

ISTOÉ – Há mágoa com a Planeta?
Araújo – Não. Acho que são interesses diferentes. O interesse da editora é vender livro. O autor, embora também queira vender livro, quer também manter a obra viva. Lamento a decisão da editora porque acho que foi imediatista. Esse caso seria emblemático, definitivo para se conhecer a liberdade de se fazer biografias no Brasil, um divisor de águas. Lamento que os editores todos não tenham se unido para fazer um “corporativismo positivo” já que isso afeta a eles também porque abre um precedente importante. Advogados da Planeta me revelaram que, nesse momento, todos os livros que a editora publica passam por uma banca de advogados que estão cortando trechos. Tive informação de que outras editoras também estão fazendo isso. Isso é censura prévia, interna, que era vista nos anos de chumbo da ditadura militar.

ISTOÉ – Ficou acordado também que você não pode mais falar sobre a vida pessoal de Roberto Carlos, não é?
Araújo – Os advogados do Roberto Carlos queriam botar uma cláusula no acordo me proibindo de falar do livro. Eu falei: não dá, esse livro já é parte da história, é uma obra de referência e ainda prevalece a liberdade de expressão no Brasil. Vou passar o resto dos meus dias falando desse livro. Aí ele disse: então, não vai poder falar da vida pessoal de Roberto. Falei: também é impossível porque a obra dele é marcadamente biográfica, pessoal. Ele fala da mãe em Lady Laura, fala do pai em Traumas, dos filhos em Quando as crianças saírem de férias, da cidade em que nasceu em Meu pequeno Cachoeiro, do sofrimento do filho, Segundinho, em As flores do jardim da nossa casa. Não tem como falar da obra do Roberto sem aspectos da vida pessoal. Aí, ele disse que não posso falar da vida íntima dele. Tudo bem. Vida íntima não me interessa mesmo, nem a do papa nem a do Roberto Carlos.

ISTOÉ – O que ficou, para você, dessa experiência?
Araújo – É lamentavel que o livro tenha sido condenado não por uma questão objetiva. Os advogados jamais questionaram, em nenhum momento, nos dois processos, qualquer afirmação do livro. Não se fala que tal fato não é verdadeiro. Foi condenado por uma coisa subjetiva: o artista se sentiu ofendido, ficou magoado, incomodado. Atribuo isso à personalidade do Roberto Carlos, uma pessoa complicada, com todo o processo de superstição e de Transtorno Obsessivo Compulsivo e, infelizmente, mal assessorada também. A boa fama e a respeitabilidade do artista estão sendo atingidas. Ele tem sido alvo de crítica de muitos fãs, formadores de opinião, leitores. A imagem dele está arranhada justamente por causa desse ato reacionário, totalmente fora do contexto na sociedade brasileira.
ISTOÉ – Existe alguma garantia constitucional para o biógrafo?
Araújo – Existe. Eu comecei o livro acreditando nisso. A liberdade de opinião, de expressão está na Constituição. Esse debate envolveu dois poderes: a mídia e o Judiciário. Ganhei no primeiro, os formadores de opinião deram razão ao autor. E Roberto ganhou no Judiciário – onde sabemos que se encontra respaldo para as teses mais retrógradas, reacionárias.

ISTOÉ – Cabe ação ainda? A proibição é válida também para outras línguas?
Araújo – Não sei.

ISTOÉ – Deu para ganhar dinheiro? Qual é seu porcentual?
Araújo – Meu porcentual é o tradicional, 10%. Ainda não recebi nada de direitos autorais porque agora é que vai ter a prestação de contas. Era um livro para vender muito porque não fala só de Roberto Carlos. É uma obra de referência para a música: trato de tropicalismo, festivais de canção, bossa nova, ditadura militar.

ISTOÉ – Mas o título é Roberto Carlos em detalhes...
Araújo – Claro, ele é o fio condutor. Mas não é uma biografia de Roberto Carlos, é um ensaio biográfico. Falo de Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Tim Maia. Entrevistei cerca de 200 pessoas, entre as quais Tom Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Tim Maia.

ISTOÉ – Do que ele não gostou no livro?
Araújo – Na audiência, ele disse que não gostou que eu tivesse abordado questões da vida pessoal dele. Citou o episódio Maysa, a Maria Rita e o “caso Imperial”. Ele interpretou que eu teria afirmado que ele teria participado de orgias na casa de Carlos Imperial, um escândalo que envolvia menores e que abalou a jovem guarda. Mas eu digo no livro, está lá: esse acontecimento não atingiu Roberto Carlos.

ISTOÉ – Roberto Carlos disse que admite que escrevam 500 livros sobre a vida pública dele, mas que sobre a vida pessoal só ele pode falar. É um direito?
Araújo – Claro que não! Imagina se cada personagem da história se arvorasse proprietário exclusivo da trajetória. Vai contra o bom senso e o direito da liberdade de expressão... Que ele possa contar, e deve contar, é evidente. Torço para que Roberto Carlos faça o livro dele, será um depoimento importante. Imagina o presidente Lula dizendo a mesma coisa: só eu posso contar minha história quando quiser e como quiser. Evidentemente isso não se sustenta, ainda mais nos tempos atuais. Até porque uma história está relacionada a outras histórias. Roberto Carlos teria que pedir permissão aos herdeiros de Tim Maia quando for falar dele, e a todos os outros que citasse. Já pensou?

ISTOÉ – Diferentemente de outros artistas, Roberto Carlos sempre trancou sua vida pessoal e foge de holofotes. Esse comportamento não dá direito a não querer que se divulgue com quem ele dormiu?
Araújo – Artista discreto e reservado é como é o João Gilberto. Não dá entrevista para a Rede Globo, ninguém sabe para quem ele dedicou tal disco, tal música. Ele sempre foi assim, a vida inteira. Já no caso de Roberto Carlos, é diferente. Ele leva, atualmente, uma vida discreta, mas sempre expôs publicamente tudo da sua vida, seus dramas e sentimentos. O Brasil sabe as mulheres que ele amou intensamente: a Nice, a quem dedicou Como é grande o meu amor por você, a Míriam Rios, para quem fez A atriz, e a Maria Rita, que ele ama e a quem dedicou outras canções. Ele dividiu isso com o público; mantém uma exposição relativa. Agora, por exemplo, tornou público o problema do TOC. Tem edição antiga da revista Amiga com Roberto Carlos com a esposa e filhos na sala de sua casa. Ele ficou discreto nos últimos 15 anos. Mas sua carreira é a de um astro pop, de celebridade. Ninguém entra hoje na casa de Roberto Carlos para tirar foto, mas já entrou.

ISTOÉ – Você continua fã dele?
Araújo – Claro. Continuo achando As curvas da estrada de Santos uma grande canção... Não interfere. O que está acontecendo é circunstancial. A obra é eterna.

ISTOÉ – Que sentimento você tem hoje por Roberto Carlos?
Araújo – Digo que meu caso com Roberto Carlos é um caso de amor não correspondido. Acontece na vida. Sou fã dele desde a infância. Fiquei 15 anos tentando falar com ele e não consegui. Mesmo assim, entrevistei todo mundo, escrevi um livro que considero uma homenagem e ele vai e me processa. É uma relação de amor não correspondida mesmo.

ISTOÉ – O que acha do verso “sua estupidez não lhe deixa ver que te amo...”?
Araújo – (Risos) É para mim. Pode ser sim. As canções do Roberto servem para todo mundo, ele expressa o sentimento próprio e o dos outros também.
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NOTÍCIA COMENTADA:
Bom, diante de tudo isso agora EU VOU LER O LIVRO! JÁ COMPREI! Eu não o leria em circunstâncias normais, mas o fato de ter sido censurado me atiçou a curiosidade: o que tem lá que não pode ser lido?
Acho o Roberto Carlos um problemático que deveria se tratar. Se ele não quer exposição que deixe de lado sua carreira e fama.
Acredito que ele tem dinheiro suficiente para se APOSENTAR!
Que ele largue a MãE REDE GLOBO e vá ficar em um mosteiro! Ou em casa, ou em alto mar, sei lá, menos no espetáculo de fim de ano da Globo diante da mídia, dos fãs, da exposição.
Se ele faz programa para a maior rede de televisão do país é por que GOSTA DO SUCESSO! GOSTA DA FAMA! GOSTA DE SER O REI!
E todos falam do rei, não é mesmo? Absurdas as atitudes do Roberto Carlos e do judiciário brasileiro.

Um comentário:

Cesar Cardoso disse...

Essa história toda é bizarra desde o princípio...

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