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02 maio, 2007

A loucura da normose

Dó do dobermann (por Mscudder)


Eu disse um dia desses a uma amiga, acerca de um sujeito: – Aquele é doido. Insisti: – Doido, doido. Ela não entendeu: – Como assim, doido? Detesta o cara, mas não o associa à loucura. Considera-o somente um ultracertinho; por isso o detesta.

Antigamente, doidos eram só os que têm parafusos soltos. Mas, faz um tempo, estudiosos descobriram os normóticos, os que sofrem de normose, a mania da normalidade. Meu doido é assim: doido-dobermann.

Criança, ouvi a história – não sei se verdadeira – de que o dobermann é uma raça surgida de cruzamentos induzidos. O resultado é aquele cachorro alto, magro, ágil, forte e agressivo. E, segundo a historinha da minha infância, com um crânio pequeno demais. O crânio pequeno aperta o cérebro do dobermann. Isso enfurece o bicho, faz o cachorro surtar. No surto, o dobermann ataca até o dono. Coisa de doido.

O meu doido se parece com um dobermann porque é um normótico. Os normóticos são do tipo parafuso ultra-apertado. Nas horas de maior aperto, o sujeito surta.

O que me inspirou estas linhas é um homem importante. Ocupa um cargo de direção numa empresa entre média e grande. Ministra palestras aos subordinados. Exibe obviedades. Suas frases mais profundas são: "a grama é verde"; "sem nuvens, o céu é azul"; "de noite, as estrelas brilham" etc. Nessas horas, os parafusos estão na última volta, quase espanando.

Em um conto que não canso de citar e indicar – Os Famintos, de Thomas Mann –, o narrador afirma que somos todos criaturas precárias e sofredoras, mas não reconhecemos uns aos outros. Minha amiga olha o sujeito e vê somente força, adequação, certeza. Não enxerga a aflição.

Sou doido do tipo parafuso solto. Quando ando, minha cabeça chacoalha. Doidos assim podem ser chamados de idiotas. Os de parafusos ultra-apertados são os imbecis. No entanto, ninguém é totalmente idiota ou imbecil, mas apenas predominantemente. Tenho um quê da imbecilidade do doido-dobermann; ele, um quê da minha idiotia.

Aquele sujeito desfila soberano, impávido pelos corredores da empresa. Acho que minha amiga tem medo dele. Mas ele sofre. Minha amiga também. E eu?
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