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18 dezembro, 2006

O esperado...


Título: Luz às avessas
Autora: Solange Pereira Pinto
Técnica: fotografia
Data: outubro/2006


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O esperado

“Esperar” é ter esperança, contar com, confiar em. É, também, ficar aguardando, não ir embora, não desistir... Isso quando se fala do verbo, mas indo para o adjetivo e substantivo masculino “esperado” se configura aquilo que já se prevê de antemão (redundante!); provável, previsto, esperável. Se o inesperado é o imprevisível, então, melhor falar em previsibilidades neste texto.


Enquanto espero chegar à hora de tomar o remédio da meia-noite, vou tecendo as elucubrações de irritantes probabilidades do cotidiano. Há quem não consiga “administrar” bem os imprevistos, por outro lado é também “ineficiente” aquele que não sabe lidar com certas previsões.


Se viver é tão incerto e somos tomados de sobressaltos que exigem alguma habilidade para tornar tranqüilo o momento seguinte, por que acontecimentos esperados são capazes de também causar transtornos, desassossego e desordem interna?


Cada indivíduo pode ter uma lista particular, de esperados e de inesperados, que lhe tira o sono. Confesso que esperar não é um verbo muito conjugado por mim, embora confiar eu flexione em vários tempos, modos, pessoas e números. De alguma forma me sinto menos “revoltada” com os inesperados (óbvio que nem todos). Mas, o inesperado é inesperado, por isso mesmo “incontrolável”, o que facilita o meu entendimento.


Pra quê falar de tudo isso? Nem eu sei. Vamos ver o que sairá daqui. Hoje tomei uma injeção que custou quase R$ 600, o preço foi inesperado, mas espero que cumpra os efeitos prometidos sem efeitos colaterais. Alguém me disse para tentar pelo SUS. Aí se chega a um ponto: a saúde pública no Brasil funciona de forma capenga, não é o que se espera (ou é?), mas é o que se encontra.

Da mesma forma, a Educação no país está mais do que perneta. O sistema está caótico, não é o que se espera (ou é?), mas é o que se encontra... Para falar mais diretamente da parte que “me toca”, a situação do ensino superior particular, em geral, é vergonhosa. Alunos muito despreparados e desinteressados (grande maioria) “comprando” seus canudos. Professores, coordenadores, direção cúmplices do cenário (nem vou falar dos proprietários que só visam quantidade e lucro). Alguém me alertou: “não ande na contramão, se é para aprovar, aprove”. Qual é a previsibilidade aqui? É chegar numa sala de aula cheia de disposição para romper o padrão (quebrar o paradigma esperado, porém indecente) e encontrar o “esperado”. Pior que isso, não saber como lidar com esse “esperado” que causa (pelo menos em mim) a sensação de impotência, incompetência e irresponsabilidade. Sei que não sou a única, é um dilema debatido na sala dos professores em várias instituições Brasil afora.


Ora, se alguém se propõe a fazer um trabalho “sério”, “correto”, como pode não entrar em conflito ao ter que “entrar no esquema”? É como o caso das propinas e corrupções que apenas aparentemente “assustam”, pois debaixo dos panos, no dia-a-dia, se faz a tal “vista grossa”.


Pelo dicionário, “imoral” é algo “contrário à moral, às regras de conduta vigentes em dada época ou sociedade ou ainda àquelas que um indivíduo estabelece para si próprio; falta de moralidade; indecoroso, vergonhoso”.


Vejo que hoje a conduta vigente no Brasil é “entrar no esquema”, ainda que, particularmente, para algumas pessoas, isso seja imoral. Para se ter o emprego, ou melhor, se manter no emprego é preciso não ver, não ouvir, não falar. Sábio presidente Lula que levou ao “pé da letra” essas negativas.


Atualmente, um professor que vê que o aluno não tem condições mínimas de passar não pode “enxerga-lo”. Assim como, um funcionário público que vê um sistema de corrupção, e é subalterno, não pode “enxergar” os colegas, chefes envolvidos etc. E, ainda, um médico não vê seu paciente "terminal" para abrir vaga a outro "menos comprometido".


Ter que sobreviver se adequando às “previsibilidades” do jeitinho brasileiro, ou dos costumes que estão se formando (ou já estão formados?) neste país, é revoltante. Fingir que não vê, que não se importa, que não se percebe, para se manter vivo é um aprendizado oneroso para alguns (dentre os quais eu me incluo).


No mundo contemporâneo é “esperado” (ou previsível?) que não tenha médico para todos, que não tenha vaga na escola para todos, que não tenha remédio para todos, que não tenha emprego para todos, que não tenha comida para todos, que não tenha moradia para todos, que não tenha sobrevivência para todos. Provavelmente, em outras épocas também era assim, a diferença é que eu vivo hoje, e não consigo simplesmente ignorar, ou, talvez, me conformar que eu deva ser cúmplice da covardia de não transformar a parte que me cabe.


Dizem. Ah, isso é utopia! (Uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade). É verdade, é utopia. Contudo, o que fazer diante da falta de capacidade ser unicamente realista? Não aprendi a ver apenas o concreto, vejo as paredes brancas com os inúmeros “possíveis” quadros que ainda se recostarão sobre ela. Vejo as páginas virgens com os inúmeros “possíveis” textos que ainda se deitarão sobre elas. Só não vejo como me calar, conter meu atrevimento, diante das “previsíveis” e “esperadas” situações que tendem perpetuar certas vilezas.


Fico por aqui. Chegou a hora de tomar o remédio da meia-noite, tão “esperado” e com resultados, talvez, “imprevisíveis”. Resta-me engoli-lo e acreditar que o efeito não seja inverso ao prometido. Ou será que preciso aprender que o "esperado" pode ser "imprevisível"?

Um comentário:

eduardo disse...

bela crônica...

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