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01 setembro, 2006

Marcelino Freire na Feira do Livro

Fotos e textos por Solange Pereira Pinto

Marcelino Freire
Maravilha! Ouvir Marcelino Freire na Feira do Livro Brasília (1/9), nesta seca capital federal (que hoje acredite choveu), é o mesmo acolher o seu estribilho Êta danado! Simpático, simples, informal, inteligente. Ele é assim. Maroto, fala, ri, comenta e se despe. Sem pieguice, se solta como em seus contos num sacolejo. “Cresci ouvindo minha mãe bater panelas. Agora também quero bater panelas nos ouvidos dos outros”.
Para Marcelino, a literatura tem que sacudir, remexer poeiras, levantar o tapete. Literatura sem perturbação? É qualquer outra coisa. E, completa, “tenho uma goteira no meu juízo, e tenho que fazer algo com ela”. Escrever um conto pode ser traduzir uma ladainha e formar um canto. Marcelino interpreta, tece as palavras em melodia.
“Escrevo porque gosto de escutar”. Não restam dúvidas de que sua escuta é tão forte que reverbera. Lá vai ele, recitando, cantando seus contos, e deixando um rastro de som que teima em repetir. Seu texto ecoa e nos cai como gotas insistentes, inquietantes, feito coro. Êta danado!





Escondida no terraço (uma resenha)



Pow! Pow! Foi seco. Preto e Branco. Simples? Duplo. Duro. Não entendia aquela impulsividade. Compulsiva. Misturava medo, vergonha e prazer. Olhava de longe e não acreditava. Danado. Eu tentava negociar. Saravá. A menina gritava. Mãeeeeee! Pára! Calma. Respire fundo. Oh mãeenhe! Psiuuu! Silêncio, gente. Silêncio! Por favor, assim as coisas vão piorar. Virei refém. Vai...continua...anda... Aquela capa apontada para minha cara. Não tinha forças para reagir. Onde me esconder? Talvez debaixo da cama. Ou no banheiro? Havia passado uma hora. Palpitação passando pela garganta. Minhas idéias pelos poros. “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”, berrou. Ele veio de Sertânia, interior de Pernambuco e chegou em São Paulo. Sabe das coisas. Até do que não sabe, sabe. Se chama Marcelino. Sua origem afiou o olhar. A cidade grande a língua. O tempo as idéias. Negreiros bem ali na minha frente. Forte. Intenso. É o porta-voz. Confessa. Dubla. Denuncia. Meus olhos não piscavam. Eram agora lentes coletoras. As desigualdades. Os preconceitos. As marcas. Os fingimentos. A violência. O silêncio. A vida e a morte severina. Urbana. Intestina. Rural. Favelada. Panorâmica. Ainda assim não perdia a sensualidade. O sexo. O tesão. Lembrei das covardias. Das contradições. Das sacanagens assentidas. “Devia nascer sem coração”, ele sussurrou. Passa logo mulher! Anda. Falta pouco! Minha agonia de chegar ao fim sambava entre meus dedos. Num descuido, corri. Fui para o terraço. Escondida nas alturas. Recostei-me nas barras de ferro. Enferrujadas. Olhei para cada lado. Abaixei os olhos. Trêmula. As páginas saltavam. Ligeiras. Lidas. Refletidas. Impressionadas. Finalmente estava a sós com “Contos Negreiros”. Na boca o gosto de vida de morte. Olhei do sexto andar para baixo. Salivei o cotidiano. Onde estão seus outros livros Marcelino Freire? Agora que estou aqui, mais perto das nuvens e do inferno. Com tempo para ver a lua saltar.

4 comentários:

Anônimo disse...

boa idéia. beijos. Liana

Soll disse...

LIana, o passeio foi ótimo. E obrigada pela visita no blog. Deixe seu link aqui, ok? bjs

Luis Fernando Moreto disse...

lindo texto

\o/ disse...

Obrigada!

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