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16 agosto, 2006

Na mídia...

Globo paga o resgate: ibope às avessas?


I – Dois saem da padaria, outros entram na sinuca


Quando vemos a poderosa Rede Globo pagando o “resgate” (publicação do vídeo em horário nobre a mando do Primeiro Comando da Capital, o PCC) para a libertação do seu funcionário, repórter Guilherme de Azevedo Portanova, que ficou em poder dos seqüestradores por 40 horas, é sinal que salvar uma vida (dependendo de quem) dá Ibope.


O diretor de jornalismo da TV Globo São Paulo, Luiz Cláudio Latgê, disse que a decisão de atender a reivindicação dos criminosos foi da emissora, sem participação do governo de São Paulo ou da polícia. Em nota, a emissora informou ter sido orientada por órgãos internacionais a ceder à pressão.


Hum, fator interessante, falta de confiança na polícia e no governo? Sabemos que a Globo “depende” apenas das verbas públicas, e não precisa pedir conselhos às instituições “inoperantes” que está cansada de acompanhar diariamente. Melhor mesmo é pedir conselhos aos órgãos externos, pois foi assim que sua história de grande mídia começou no Brasil, com capital estrangeiro e favores. Na hora do aperto o remédio importando cura mais rápido...



II - Sabemos o que dizer, nem sempre o que fazer...


Nesse ínterim, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, tentou evitar que a Rede Globo exibisse o vídeo com o manifesto do PCC. E, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, coordenador do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos), também defendeu a não exibição da fita. Ele argumentou que a exibição abriria um precedente arriscado, porque significaria atender, sob ameaça, a uma exigência do PCC. "Isso vai abrir um precedente grande", afirmou Gonçalves, que esteve na sede da emissora. Ele foi enviado pela secretaria para falar com a Globo.


Claro, melhor arriscar a vida de um jornalista que ceder ao poder de criminosos. Não é assim que eles recomendam quando qualquer cidadão é diariamente seqüestrado? A tentativa de mostrar “poder e controle da situação” à sociedade é imperativa. Agora, agir é mais complicado diriam, a escassez disso, daquilo. Reclamar as mazelas tem momento oportuno, demonstrar fortaleza também.



III – Conspirações dão voto...


Enquanto isso, os candidatos ao governo de São Paulo se posicionaram no melhor estilo as eleições estão chegando. Aloizio Mercadante (PT) analisa que "não é possível o Estado ficar o tempo inteiro fazendo acordo e se rendendo à pressão de organizações criminosas. Eu pergunto se esse é o caminho para nós colocarmos ordem nesse Estado. Não é."


Por outro lado, José Serra (PSDB) diz que "o crime organizado não gosta do PSDB. Esse é um dado da realidade e que aparece em todas as gravações e conversações que até hoje vieram a público. Tem lá gente do PCC conversando, dizendo que se o presidente da Câmara dos Vereadores é do PSDB, deve matar", afirmou, quando questionado se o crime organizado estaria declarando guerra ao PSDB.


Pergunto-me, bom, e daí? Quais as propostas de vossas excelências? O crime organizado da corrupção está declarando paz? O Estado deve continuar fazendo os acordos com parlamentares acusados de corrupção e se rendendo aos conchavos de coligações para inocentar A, B ou C? As CPIs inocentadoras são o caminho para a ordem e democracia? Bandidagem legalizada é melhor que a informal?





IV – Nem todos são nobres, para uns casa-grande para outros senzala


O pagamento do resgate, que não foi em dinheiro vivo (embora custe uma boa bolada veicular qualquer coisa em horário nobre), foi a exibição de um vídeo criticando o sistema penitenciário. Em parte dizia "como integrante do Primeiro Comando da Capital, o PCC, venho pelo único meio encontrado por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os governantes... Não estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. Se nossos governantes, juízes, desembargadores, senadores, deputados e ministros trabalham em cima da lei, que se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário, sem assistência médica, sem assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada... O sistema penal brasileiro é, na verdade, um verdadeiro depósito humano, onde lá se jogam seres humanos como se fossem animais”.


Talvez, o conteúdo seja novidade para parte da população que sequer pisou em um presídio para conhecer e saber as condições reais dos falidos sistemas prisional e judiciário. Contudo, não é mentira dizer que se trata mesmo de um depósito de pessoas. No entanto, muita gente “estudada” dirá que “bandido” merece isso mesmo, pois distribuição de renda e oferta de oportunidades, dignidade para todos, passa longe do vocabulário daqueles que oprimem. Até mesmo porque tem muito criminoso no ar condicionado do Congresso e de outras instituições públicas.



V – Enhem enhem enhem


Já o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) foi um dos raros integrantes da cúpula do governo federal a se manifestar sobre a mais recente ação do PCC. Disse que demonstra uma "ousadia inaceitável" por parte do crime.


Melhor nem comentar o que seja “ousadia inaceitável”.


VI – Já fui melhor nisso, agora quero o meu de novo...


Na outra ponta, vem o jornalista Alberto Dines, no seu Observatório da Imprensa, que tem por objetivo “acompanhar o desempenho da mídia que tem responsabilidades sociais e conscientizar os cidadãos”, por meio de um texto “curto” dizer que o “terror ataca a mídia”, que a Globo agiu bem, mas a democracia foi golpeada. Um trecho aponta “o ataque dos narcoterroristas a jornalistas é a forma mais abjeta de intimidação, ameaça ostensiva aos fundamentos do Estado de Direito, tentativa de golpear uma democracia alcançada justamente graças ao destemor dos profissionais de imprensa”.



Muito se pode concluir desse seqüestro. Um ponto é que a mídia serve aos interesses de uns, enquanto outros ficam realmente excluídos e sem voz. No entanto, há audiência quando se dá espaço para o sórdido, estranho, inusitado, degradante.
Faz tempo que a TV se utiliza de desgraça para enriquecer, mantendo sempre um viés parcial voltado para o maior número de moedas na conta. Será que a Globo está abrindo espaço, ainda que forçado, a outros clamores? Ou tudo não passou, mais uma vez, de audiência?
Definitivamente poder, mídia, dinheiro e política ascendem os letreiros e os aplausos, e criminosos de toda espécie já sabem disso. Terá conseguido o PCC chamar a atenção aos seus propósitos? Ou tudo não passa de um Ibope às avessas beneficiando vários segmentos?
Quem viver, verá!



VII – As vozes de outros Zés


Nesse caso vamos ouvir as vozes de outros “Zés Ninguém” que comentaram o texto de Dines no site do Observatório. Selecionei aqueles que dizem também por mim.

Antonio Esses bandidos seqüestradores são filhos deste modelo falido que vc (Alberto Dines) que já trabalhou nos chamados GRANDES MEIOS DE COMUNICAÇAO também contribuiu para fabricá-los.


Luiz Carlos O que se precisa combater é a corrupção em todos os níveis e tornar claro que o crime não compensa.


Bezaliel Não tenho um comentário e sim uma pergunta ao brilhante jornalista Alberto Dines: Quando outros profissionais, como médicos, religiosos, engenheiros, e os trabalhadores comuns, forem seqüestrados, a Rede Globo vai divulgar as possíveis fitas para salvarem as suas respectivas vidas? Ou as vidas dos jornalistas valem mais?


Marco Antônio Essa democracia existe somente para algumas classes privilegiadas pelo sistema capitalista, pois, para a grande massa de espoliados, ainda vivemos sob o jugo da ditadura cível.


Calypso Jornalistas concubinados com governo, governo amasiado com Pcc,a política é o bacanal irreconhecível do Zé Povinho.Estou pra lá de enojada.


Pablo Pergunta que os jornalistas não querem responder e que o Observatório ainda não propôs: se o seqüestro foi trocado pela exibição de uma matéria com pouco conteúdo ofensivo, tratando-se apenas de uma pauta de reivindicações, algumas delas bem justas (discordo de Dines: o mutirão judicial é importante num Estado praticamente sem defensoria pública), será que isso não indica uma cobertura jornalística até aqui absolutamente parcial? Dito de outro modo, se os bandidos precisam seqüestrar (ação desproporcional e espúria) para serem ouvidos, será que não deve haver alguma coisa de errado com a imprensa?


Luiz Richards Lamentável Dines que vc diga, sem justificar, que o manifesto dos bandidos é uma peça cínica, politicamente primária e tosca. Onde está o cinismo e a idéia rudimentar?? Talvez, na verdade crua do manifesto quando diz: "se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário, sem assistência médica, sem assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada". Incrível como vcs da imprensa têm um comportamento de superioridade, como se estivessem acima da lei, quando a vítima são vcs. Vc chega a ponto de defender o fato de a Globo não ter escutado a polícia, comportamento, insistentemente, condenado pela imprensa quando o seqüestrado é o cidadão comum. Pense se o seqüestrado fosse um padre, um lixeiro, um empresário, uma criança, o governador... Qualquer outro cidadão, de qualquer classe, por qualquer motivo, a sua recomendação seria não avisar a polícia??? Lembre-se, sempre, da sua frase: “Este programa nasceu sob o signo do compromisso da imprensa com a melhoria da humanidade. E, exatamente em função deste compromisso, queremos lembrar o papel dos jornais e dos jornalistas na construção da paz. Os dois lados têm as suas razões, mas a razão só pode estar com aqueles que acima de tudo querem a paz.”

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