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23 julho, 2006

Oficina de pintura







Título: Natureza morta na pós-modernidade
Autora: Solange Pereira Pinto
Técnica: óleo sobre tela
Data: 22.07.2006
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Hoje foi dia de oficina no CCBB, paralela à mostra Giorgio Morandi e a Natureza Morta na Itália.
Desanimada que estou, resolvi pintar para espantar os males.
Lembro-me que a última vez que pintei tela foi em 1999, com acrílica.
Da tinta a óleo eu não passava perto há mais de 20 anos.
Sei que a pintura assim como o desenho necessitam de treino.
Como tudo na vida...
Quanto menos se pratica, mais enferrujadas ficam as mãos.
Fazia tempo também que não me metia em oficina "dirigida".
Bom, vou tentar relatar a experiência.
Tarde ensolada, fria, ateliê ao ar livre.
Agradável sensação.
Vontade de pintar e encontrar novamente pincéis e tintas.
Embrenhar em cores e lambuzar as idéias.
De repente, me vejo novamente com carvão nas mãos para fazer esboço.
(coisa que já aboli há tempo, pois prefiro ir direto sem muito ensaio. Contudo, foi sugerido se fazer o esboço. Então topei, né)
Fazer rascunho é interessante, principalmente, para alguém (como eu) que não sabe desenhar.
Olha daqui, olha dali. Está lá. Rascunhada a tela.
A proposta era pintar a tal "natureza morta". Essa foi minha primeira vez. (Sempre preferi paisagens, temas livres ou abstratos).
Lancei-me ao desafio.
Lembrava algo sobre primeiro pintar o fundo, para depois dar corpo aos "objetos em primeiro plano". (técnica também sugerida hoje pelos monitores).
Lá fui eu brincar com o branco, um pouco de amarelo cádmio, óleo de linhança, solvente...
Depois passei para a base (a mesa) com branco e "grees" (um cinza escuro meio azulado).
Na minha cabeça a vontade de não fazer uma "natureza morta padrão".
Perguntei se poderia.
A monitora me olhou um pouco "espantada".

E, disse: "a proposta é observar os objetos, luz, sombra etc...".
Entendi.
Pensei, mas não farei um fundo padrão, pelo menos esse deve ser livre.
Passei em seguida para os objetos.
Nesse momento, o outro monitor (eram dois, uma moça e um rapaz) disse: "é melhor você ter cuidado com as cores, talvez esses tons não combinem com as cores dos objetos depois..."
Hum. Será?

O quadro deve seguir a linha de quem?

Não poderia então mudar as cores do objetos?

Não poderia destacar o fundo?

Precisaria mais uma vez na vida seguir o referencial?


Já comecei a achar que eu estava no lugar errado.
Mas, continuei no desafio.
Do vaso preto passei para o cinza, fui para a garrafa verde e, finalmente, cheguei na louça branca.
Dar volume era algo de louco.

Nossa, teria que ser "realismo"?

Precisaria pintar como os "mestres"?

Onde estava eu?

Só queria me divertir...
Dei o quadro por terminado ao pintar o último objeto.


Foi quando a monitora me disse: "precisa fazer a sombra dos objetos na mesa"
Ahn? pensei.
Completei dizendo: "precisa mesmo?". "Para mim está bom".
Ela retrucou delicadamente: "assim eles ficarão voando".
Então tá. Põe a sombra aí.
Foi quando a toalha, que eu queria lisa, ganhou as primeiras rugas.
Vem o outro monitor e me diz: "esse grafismo do fundo destoa do restante, deveria ser mais neutro, e a garrafa pode ganhar mais luz".
Ahn? pensei novamente.
Então tá. Põe a luz aí.
Foi quando a garrafa verde ganhou amarelos.
Eu que pensava havia concluído a "minha obra" antes da última foto, resolvi carregar a mão no tal "grafismo".
Se ele destoava, se as cores não combinavam, se não havia harmonia, se... se... se...
Eu ia agora era destoar de uma vez, para não ficar nos ahn? ahn? ahn?
Peguei os tons que estavam na palheta e comecei a pincelar mais forte o fundo.

Quebrar de uma vez a tal da "harmonia".
Quando me viu "carregando" a mão no fundo, o rapaz ficou em silêncio (e continuou observando).
Eu terminei os riscos, dei mais uns riscos na toalha, mais outros nos objetos e pensava: "agora vou riscar tudo".
Eu tinha perdido o interesse no quadro.

Ele já não era mais a "minha" pintura (do meu jeito).


Afastei, olhei de longe e comentei com o monitor: "veja ficou ótimo, o fundo está completamente diferente do resto".
Ele disse " é. está muito 'destacado'".
Sim, está, completei.
(por que as coisas têm que seguir um mesmo padrão? por que não experimentar o diferente?)
No final, expusemos todos os quadros no chão para olharmos os resultados, as várias leituras.


Sem dúvida o meu era o único com "fundo destoante".

Fiquei feliz por isso.
O quadro que mais gostei foi o de um outro rapaz que fugiu completamente do referencial, do volume, da luz, da sombra.

Era um tipo mais geométrico, moderno.

Pena que não tinha mais como fotografar.
No mais, foi muito válida a oficina, os monitores foram muito atenciosos.
Enfim, uma tarde gostosa sem pensar na vida.
Peguei meu quadro, saí de lá, fui para uma festinha de criança pensando: por que toda flor é vermelha com o caule verde?

3 comentários:

Alena disse...

Me inspirou um texto. Vá lá ver.

Alena disse...

Ah, venha cá, estes "orientadores" (pensei opressores) eram por acaso Van Gogh e Monet? Ou será o Sandro Botticelli e Michelângelo?

rogerio disse...

A pintura ficou muito bonita. Além de escrever muito bem, tens talento para pintura.Legal!

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