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20 outubro, 2010

Liberdade de calar

18 de outubro de 2010 | 0h 00
  • lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
NOVA YORK
Quem é o lendário crítico de literatura que confessou observar por um telescópio, do alto de um edifício do Greenwich Village, uma conhecida acadêmica e autora trocando de roupa?
Quem é o acadêmico estrela que engravidou uma jovem aluna e, para distrair a atenção do escândalo potencial, trocou de universidade, fingindo indignação contra o cerceamento acadêmico?
Quem é o grande, repito, grande romancista que transou com a muito mais jovem e premiada atriz do filme baseado no seu livro? Tal como o sujeito da velha piada, preso numa ilha deserta com a Sharon Stone, que recusa a oferta de sexo com ela porque não vai poder contar para os outros quando voltar para o continente, o dito homem das letras, ficou ansioso para clamar o troféu sexual. Não percebeu que estava contando a história para o homônimo secretário de seu agente literário, que atendeu o telefone do chefe.
Quem é o autor que, depois de publicada sua entrevista neste diário aproveitou-se da viagem da mulher para convidar esta repórter para "um dia de relaxamento no campo", no Estado onde mora? Ensaísta brilhante, paquerador medíocre.
Quem é o superpoderoso rapper e empresário musical que, ao lado da estrelíssima esposa, incluiu na mesa de um jantar em setembro a pós-adolescente brasileira que faz biscate na sua cama?
O que as histórias acima têm em comum?
1. Foram verificadas pela colunista.
2. Não vazaram pelo Twitter, Facebook ou blogs.
No caso do rapper, a corte sexual à brasileira foi lenta exatamente para testá-la contra a fofoca que, se divulgada online, pode lhe custar dezenas de milhões de dólares em divórcio. A estupidez do gajo, considerado um gênio pela indústria da música, é não levar em conta que a menina não vai ficar calada. Como não sou habitualmente encontrada na mesa de rappers às 4 da manhã, o fato de que conheço detalhes do caso sugere a fragilidade do segredo.
A lista de indiscrições compiladas acima é apenas um exemplo do seu potencial como arma contra os envolvidos, caso se tornem virais. E se eu comentar alguma dessas histórias sem perceber que estou ao alcance do ouvido de algum empreendedor membro do Facebook? Em 24 horas, pode aparecer um item na Page Six, do New York Post, a mais famosa página de fofocas do país. Está armada a quizumba.
Um professor de jornalismo da Web na Universidade da Califórnia adverte seus colegas de que acabou a fronteira entre o pessoal e o público na mídia social. Ele está certo. Não espere colocar no Facebook sua foto tomando cerveja com amigos de uma milícia racista em Michigan e manter seu emprego como jornalista político de um grande jornal. Quem vai acreditar que o que você compartilha com o público na vida "civil" não vai afetar seus critérios como repórter? Minha família sabe que, além de não ter página no Facebook, não quero frequentar as dos parentes.
Censura? Não, compostura.
Simplesmente acredito que não posso dizer em qualquer mídia social o que não poderia escrever como profissional, nas mídias para as quais trabalho e prefiro me censurar. Sim, pratico autocensura nos e-mails para amigos, baseada no fato de que recebo dos mesmos amigos inúmeras cópias de manifestos, abaixo-assinados, divagações políticas. Copiar e colar virou um tique nervoso. Em pouco tempo, estranhos me incluem nas suas listas e haja filtro de spam para separar o joio parasita do trigo profissional.
Quando tenho que dizer algo que causaria desconforto a mim ou aos outros, cada vez mais, recorro à invenção do Graham Bell.
No ano passado, as principais redações americanas impuseram limites ao uso de mídias sociais aos jornalistas. Examinando algumas listas de regras, fiquei surpreendida com a necessidade de chamar atenção de veteranos sobre normas de comportamento baseadas no mais simples bom senso.
Um incidente ocorrido em 2009 é um ótimo exemplo. Bill Keller, editor chefe do New York Times, reuniu a redação para discutir o futuro do jornal online e as opções de cobrança por conteúdo. Vários jornalistas presentes twitaram as conversas, outros sites reproduziram os twits, linha por linha e, numa reunião seguinte, Keller argumentou, com razão, que os colegas iam pensar duas vezes antes de abrir a boca em grupos.
O que parece escapar aos acalorados defensores do vale-tudo digital é que não lhes ocorreria interromper uma conversa privada, e dizer "com licença, vou fazer uma conference call para revelar o que você está me dizendo". Cometer uma indiscrição online é pior porque não se pode voltar atrás, apagar o que está lá.
O outro fato raramente admitido é que o jornalista não revela tudo o que sabe ao leitor. Por instinto protetor, medo de ações legais ou puro autointeresse, somos portadores de informações privilegiadas que decidimos omitir.
A liberdade de expressão costuma ser atacada de fora, por interesses organizados.
A era digital mudou o equilíbrio de forças. É bom fazer uma pausa para lembrar quanto pode ser irresistível redefinir esta liberdade com base na rapidez e na onipresença do conteúdo digital.

08 outubro, 2010

Nem sempre se pode calar...

"Fui demitida por um 'delito' de opinião"



Reproduzo entrevista concedida ao jornalista Bob Fernandes, publicada no Terra Magazine:

A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. O texto, intitulado "Dois pesos...", gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.

Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo e o motivo de sua demissão:

- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião (...) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

Leia abaixo a entrevista:

Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você...

E provocou, sim...

Quais?

Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião.

Quando?

Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).

E por qual motivo?

O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.

Você chegou a argumentar algo?

Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável...

Que sentimento fica para você?

É tudo tão absurdo...a imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo..

Você concorda com essa tese?

Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado..

...Por outro lado...?

Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um "delito" de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (Senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?

Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.


__________________________



Altamiro Borges: Estadão censura Maria Rita Kehl

No final da noite desta terça-feira (5), circulou a notícia de que o jornal O Estado de S.Paulo teria demitido a renomada psicanalista Maria Rita Kehl, articulista do diário. Agora, o jornalista Xico Sá informa que “o Estadão não demitiu Maria Rita Kehl, mas exige que ela não escreva mais sobre política. Só psicanálise. Quem explica, Dr. Freud?”. A confirmar qual é versão verdadeira!

Por Altamiro Borges

Mas, como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”. Tenha ela sido demitida ou censurada, isto só prova o cinismo dos barões da mídia, que vivem esbravejando sobre a liberdade de expressão e criticando a censura — principalmente para fustigar o governo Lula e para colocar na defensiva os mais vacilantes. Como já ensinou Cláudio Abramo, “a liberdade de imprensa só existe para os donos dos jornais”. O resto é pura bravata sobre neutralidade, imparcialidade e democracia.

Espaço só para colunista da direita
A perseguição à psicanalista teria como motivo artigo publicado por ela na véspera da eleição. O Estadão parece que só aceita colunistas da direita, ligados à seita fascista Opus Dei, ao Instituto Millenium ou aos saudosos da ditadura militar. O artigo de Maria Rita Kehl, intitulado “Dois pesos”, era até cauteloso e, inclusive, fazia elogios ao próprio Estadão. Vale ser lido e relido:

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Eugênio Bucci tem algo a dizer?
Ao estimular a reflexão crítica, principalmente da “classe média” emburrecida pela manipulação midiática, Maria Rita Kehl virou alvo da sanha autoritária da famíglia Mesquita. A máscara do Estadão, já borrada por inúmeros outros episódios, caiu de vez. Seu discurso sobre liberdade de expressão é falso, hipócrita. Os barões da mídia confundem “liberdade de imprensa” com liberdade de empresa, dos monopólios, para enganar os ingênuos. Confirmada a perseguição à altiva psicanalista, é urgente o repúdio do Sindicato dos Jornalistas e das entidades democráticas.

Em tempo: Em 2004, a Boitempo Editorial publicou o excelente livroVideologias, de autoria de Maria Rita Kehl e Eugênio Bucci. A psicanalista manteve-se na trincheira, refletindo sobre os riscos da manipulação midiática. Já o jornalista hoje é badalado pelos barões da mídia, fazendo críticas ao governo Lula, do qual inclusive fez parte no primeiro mandato. Para ele, Lula é hostil à liberdade de expressão. Perguntar não ofende: ele também será duro na crítica ao Estadão e prestará solidariedade a Maria Rita Kehl?


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