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02 outubro, 2010

Twitter e Facebook não podem mudar o mundo real'

NOTÍCIAS

'Twitter e Facebook não podem mudar o mundo real'

05/10/2010 |
Tim Adams*
IHU - Instituto Humanitas Unisinos
O autor de best-sellers como "The Tipping Point" irritou os usuários das redes sociais, rejeitando seus impactos nos problemas reais.
As redes sociais, aquelas comunidades soltas, ocupadas e autoabsorventes de Facebookers e Tuiteiros, sempre se prestaram a analogias com o mundo dos insetos. Se aceitamos a mais comum delas, então, na semana passada, Malcolm Gladwell, provocador-em-chefe da revista New Yorker, enfiou um graveto afiado em um ninho de formigas online. Os tuiteiros responderam à sua provocação reunindo-se como enxames em blogs e sites para proteger a crença que os une: de que o futuro lhes pertence.
Gladwell é um enérgico contra-corrente. Seu artigo na revista New Yorker foi um ataque à ideia predominante de que as redes sociais online representam o futuro das campanhas e dos protestos e talvez – em estados totalitários – da revolução. O autor de best-sellers como "The Tipping Point" desconstruiu essa noção com uma ousadia típica, movendo-se rapidamente de casos de estudo individuais emotivos e cuidadosamente selecionados para princípios universais radicais.
Gladwell examinou o protesto de massa mais eficaz dos tempos modernos – o movimento norte-americano dos direitos civis. Por meio dos corajosos sit-in [protestos não violentos em bares, onde os negros exigiam ser atendidos como qualquer outro cidadão] em Greensboro, na Carolina do Norte, em 1960, ele argumentou que o ativismo estava baseado na força de amizades íntimas e experiências compartilhadas, dirigido pelo poder hierárquico, e nunca poderia ter surgido a partir dos "laços fracos" e associações "horizontais" que caracterizam a mobilização de "amigos" e "seguidores" online.
"Os entusiastas das mídias sociais, sem dúvida, fazem-nos crer que a tarefa de Martin Luther King, em Birmingham, Alabama, teria sido infinitamente mais fácil se ele fosse capaz de se comunicar com seus seguidores por meio do Facebook e se contentasse com os tuítes de uma prisão em Birmingham", argumentou Gladwell.
"Mas as redes online são desorganizadas: pensem no padrão incessante de correções e revisões, alterações e debates, que caracteriza a Wikipedia. Se Martin Luther King Jr. tivesse tentado fazer um 'wikiboicote' em Montgomery, ele teria sido esmagado pela estrutura do poder branco. E de que adiantaria uma ferramenta de comunicação digital em uma cidade onde 98% da comunidade negra poderia ser encontrada a cada manhã de domingo na Igreja? As coisas de que King precisava – disciplina e estratégia – eram coisas que a mídia social online não pode fornecer".
Como exemplo da ineficácia comparativa do 'wikiativismo', Gladwell cita os grupos de apoio virtual que surgiram no auge da guerra civil no Sudão ocidental. A página do Facebook da Save Darfur Coalition tem 1.282.339 membros, observou ele, antes de detalhar, com um floreio, o compromisso financeiro dos "manifestantes" com a sua causa: uma média de 15 centavos cada um.
A partir dessa e de outras anedotas, Gladwell chega à seguinte conclusão: embora as redes sociais possam ser úteis para algumas comunicações – para alertar os conhecidos afins sobre eventos sociais, ou para resolver um problema de "laço fraco" específico, como a localização de um doador de medula óssea –, elas não promovem o envolvimento coletivo apaixonado que faz com que os indivíduos assumam compromissos que resultam na mudança social.
Os "gostadores" do Facebook, argumenta ele, não são sitters-in, ou ativistas não violentos, nem mesmo manifestantes ou ativistas de vela na mão. Eles podem até querer se associar a um aplicativo de protesto, mas a natureza do seu meio significa que eles o fazem com um risco insignificante e, portanto, com um efeito insignificante.
"Os evangelistas das mídias sociais", concluiu, "parecem acreditar que um amigo do Facebook é o mesmo que um amigo verdadeiro. As redes sociais são eficazes para aumentar a participação – diminuindo a motivação que a participação exige. Em outras palavras, o ativismo do Facebook tem sucesso não por motivar as pessoas a fazer um sacrifício real, mas por motivá-las a fazer as coisas que as pessoas fazem quando não estão suficientemente motivadas para fazer um sacrifício real".
Para muitos dos indignados anônimos, esse foi um discurso de guerra. O usuário "Cynic", em uma discussão longa e corrosiva no site da revista rival Atlantic Monthly, argumentou que, "tempos atrás, um grupo de ativistas locais colocariam anúncios no jornal local; hoje, ele tuíta. Há mudanças importantes implícitas nessa transição, de fato. As organizações têm muito mais facilidade para chegar a públicos mais amplos. Elas podem atrair um número enorme de pessoas para executar pequenas tarefas, que, coletivamente, somam grandes realizações".
Gladwell reservou boa parte de sua ira a Clay Shirky, o carismático evangelista do poder das multidões online da New York University e autor do texto seminal de mídias sociais "Here Comes Everybody". Shirky, argumentou Gladwell, exagerou o potencial do wikiativismo como ferramenta de transformação social.
Quando contatei Shirky para saber o que ele opinava a respeito, ele sugeriu que sua resposta inicial foi de mistificação. "Que artigo estranho", afirmou Shirky. "Ele começa com duas observações inquestionáveis: o perigo requer que os ativistas políticos sejam fortemente comprometidos uns com os outros, e não só com a causa; e que as pessoas falavam um monte de bobagens sobre o Twitter durante a revolução verde [as manifestações do ano passado no Irã, que foram indicadas por alguns como uma evidência do poder da comunicação virtual]. Isso o colocou em uma posição para falar sobre como os laços fortes e fracos, ou as hierarquias e as redes, na verdade, se relacionam entre si em movimentos de protesto. Mas, pelo contrário, ele parece ter se comprometido com a ideia de que eles não se relacionam, que as redes sociais são inúteis para passar a 'febre' sobre a qual ele estava falando, ou para o recrutamento daqueles que pegaram a 'febre'". O mais estranho de tudo, segundo Shirky, foi que "o livro que mais fez para explicar ao público como os laços fracos poderiam espalhar a espécie de febre política sobre a qual Gladwell escreveu é 'The Tipping Point'".
Se tudo isso soa como uma batalha mortal entre as elites midiáticas de Manhattan, há um contexto mais amplo. A The New Yorker, para a qual Gladwell é um correspondente estelar, se vê como o lar espiritual de um tipo de leitura, de escrita e de engajamento que poderia parecer ameaçado pela sobrecarga de atenção e pelos interesses superficiais online. Eu falei com Gladwell algum tempo atrás sobre o seu uso dos computadores: ele nunca passou muito tempo na Internet, disse ele: "Eu termino o que estou fazendo para olhar para cima muito rapidamente". Ao defender a questão aparentemente contra-intuitiva de que a mídia social será de pouca utilidade na sociedade em mudança, Gladwell parece estar apresentando um ceticismo mais geral sobre a comunicação tecnológica: os tipos de relação sem risco que a tecnologia promove são a antítese da genuína interação humana complexa.
O editor da New Yorker, David Remnick, argumentou recentemente que, "pelo que eu vejo, nós não vamos mudar quem somos, independentemente de quais sejam os sistemas de entrega, independentemente dos meios de nos lermos. Isso tem a ver com a leitura. Tem a ver com o jornalismo da grande reportagem... uma sensação de prazer, uma sensação de seriedade quando for apropriada. Não vamos abrir mão dessas coisas fundamentais porque, a curto prazo, nós pensamos: 'Nossa, na verdade, o futuro é das notas de três parágrafos de tamanho. Ao inferno com escrever 15 mil palavras sobre a política norte-americana, ou com enviar alguém para o Afeganistão três vezes para entender a história...'".
Em um – irônico – fórum online que se seguiu ao furor que ele havia criado, Gladwell argumentou na última quinta-feira que o que o deixava maluco com relação aos "digerati" [mistura de "digital" e "literati", ou seja, a intelligentsia da computação ou da Internet] era que eles "se recusam a aceitar o fato de que existe uma classe de problemas sociais para os quais não existe nenhuma solução tecnológica".
"Vejam, a tecnologia vai resolver o problema energético. Estou convencido disso. Mas a tecnologia não vai e não pode mudar a dinâmica subjacente dos problemas 'humanos': ela não torna mais fácil o amar ou o motivar ou o sonhar ou o convencer".
Em um artigo que vai correr e correr por aí, ele parecia estar invertendo a sabedoria de um teórico social de um período anterior: a mensagem não é apenas o meio.
Fundação
Twitter: O primeiro tuíte foi enviado pelo co-fundador Jack Dorsey, no dia 21 de março de 2006.
New Yorker: A primeira edição foi lançada pelo editor fundante Harold Ross em 1925.
Leitura
Twitter: 106 milhões de usuários e mais de 180 milhões de visitas únicas à página do Twitter a cada mês.
New Yorker: Vende pouco mais de 1 milhão de edições semanais. Nos EUA, o site recebe uma média de 1.130.000 visitas únicas por mês.
Colaboradores famosos:
Twitter: Com 6,5 milhões de seguidores, Lady Gaga é a tuiteira mais popular. Outros tuiteiros são Barack Obama, Oprah Winfrey e Stephen Fry.
New Yorker: Entre os antigos colaboradores, encontram-se Vladimir Nabokov, Philip Roth, J.D. Salinger, John Updike e James Thurber.
Maior artigo:
Twitter: Um máximo de 140 caracteres.
New Yorker: O artigo de 31 mil palavras sobre Hiroshima de John Hersey, de 1946, cobriu uma edição inteira.
Relevância social:
Twitter: A Biblioteca do Congresso dos EUA cataloga cada tuíte.
New Yorker: Ganhou 52 prêmios de revistas nacionais.
Temas:
Twitter: Os principais eventos noticiosos de 2009 foram a eleição no Irã, a gripe suína e Gaza.
New Yorker: Temáticas recentes incluem o Tea Party [movimento conservador dos EUA], o futuro do Tibete e os campos de prisioneiros na Sibéria.
*no jornal The Guardian (03/10/2010); com tradução de Moisés Sbardelotto.

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