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01 abril, 2010

(À)VIDA EM A4 (porque a vida é recorte)




Ausências, amnésias, autismo e abacaxis: a vida em sociedade no século XXI

Por Solange Pereira Pinto

sollpp@gmail.com

Bsb, 4 de março de 2010.

Oficialmente, de onde narro, são oito da noite. Quinta-feira, quatro. O ano é 2010. Recém chegado, porém velho. Tudo quase igual se não fossem os dias a mais na conta de quem faz conta. Os rituais e as datas comemorativas se transformam ao ritmo – da mesma sensação que temos – de a Terra girar em torno do Sol; praticamente imperceptível, mas em diário movimento orbital.

Passaram as festas do fim do ano, passaram as férias para quem as teve em janeiro, passou o carnaval e o Dia Internacional da Mulher ainda não passou, pelo menos por aqui.

No planalto central, as chuvas de março já não caem tanto, como antes, para finalizar o verão. O trânsito volta ao que chamam, equivocadamente, de normalidade, uma vez que ruas livres se tornam cada vez mais a exceção. O padrão é engarrafar; estressar-se na tentativa do ir e vir urbano.

As tendências apontadas pela medicina sugerem aumento exponencial de doenças tais como: diabetes, hipertensão, anorexia, derrame, alcoolismo, infarto, bulimia, depressão, fobia, ansiedade entre outros transtornos e enfermidades originados pelo estilo de vida farto (ou inversamente carente) em gorduras, açucares, sal, imagens e tensões que perturbam a homeostase humana.

Do lado ocidental do mundo, abaixo do hemisfério, percebe-se pela televisão – com programação 24 horas – que há distintas tribos espalhadas pelo planeta, diversas raças, variadas crenças, muitas teorias, infinitas controvérsias, muitos paradoxos, e, inúmeros conflitos e dúvidas.

Aliás, as certezas possíveis que podemos depreender desse cenário, mais que moderno, no qual estamos inseridos neste início de terceiro milênio, é que todos os seres vivos morrerão algum dia e grande parte dos seres humanos insiste em viver ainda que o panorama não seja tão animador.

Passado o aquecimento (não aquele temido propagandeado global, mas interno e intelectual) das ideias, passo ao morfológico:

Ela fala que estou por fora. Ele diz que sou teimosa. Elas reclamam que não apareço. Eles me chamam de ranzinza. Ela acusa minha conduta. Ele questiona o cozido. Elas comparam as bijuterias. Eles admiram os comprimentos das saias. Ela... ele... Elas... eles...

Entretanto, dizem que estamos em tempos de nós (das conjugações plurais ou das cordas atadas?). Nós podemos. Nós queremos. Nós somos. Nós temos. Nós devemos. Nós estamos. Anunciam que é a época da coletividade, das parcerias, das políticas públicas, da solidariedade, do senso de comunidade.

Por outro lado, acima, defendem-se os direitos individuais. E, assim, o sujeito EU rouba os verbos para si e passa a pronome da vez. Um “Eu” se sente sozinho. Outro “Eu” ignora “Ele”. Algum “Eu”, por ai, se torna antissocial, casmurro, misantropo, sorumbático. E tem “Eu” que se esquece de si para cuidar de outro “Eu” que só olha para si.

Interessante notar que surge, também, um “autismo social voluntário” que privilegia, em seus pensamentos e sentimentos, a perda da relação (obrigatória ou preestabelecida) com o (as exigências do) mundo circundante.

Observo que existem mais tipos de isolamento consentidos (ou tidos como “normais” tanto quanto o são os engarrafamentos que cobrem o asfalto às 18 horas nas metrópoles), desde aqueles seres mais egoístas que apenas se vêem no espelho (valorizando a própria imagem e interesses) e continuam suas vidas sociamente (formando o desejo da maioria) até quem se isole numa montanha, mosteiro, caverna e são tidos como monges, sábios ou eremitas.

Há, ainda, quem se tranque em um apartamento ou cobertura no centro da cidade, expondo-se minimamente ao convívio em sociedade, por sua vez chamado pela massa de louco, excêntrico, bizarro, esdrúxulo, esquisito, estapafúrdio, estrambótico, estranho.

Em meio a esses isolamentos e ausências, há quem prefira a amnésia daquilo que ouve e vê nas festinhas e nos amigos ocultos do escritório, nos casamentos e velórios familiares, nos aniversários comemorados nos botecos, nos chás de fralda, panela, bar ou das cinco com a terceira idade.

Nessas ocasiões, para não descumprir a etiqueta social, tem indivíduo que, (quase) a contragosto, usar o kit social composto por sorriso amarelo e olhar fixo num ponto de fuga. Aquela pessoa que sempre balança a cabeça afirmativamente e depois de meia ou uma hora de vida social corre para casa e se afunda em 48 DVDs alugados ou nos 358 relatórios que levou para “finalizar” no fim de semana.

Cada qual se alheando como bem queira. Uns fingem enquanto outros fofocam que mal educado mesmo é quem não vai aos eventos recheados de expectativas performáticas, poupando todos da sua presença constrangedora (ou irônica?) e diz a (temida) verdade de não ter ido por que simplesmente não desejava ou não lhe interessava.

Porém, abacaxi mesmo, não o verdadeiro – o fruto (abacaxi-branco, aberas, ananá, ananás, ananaseiro, nanaseiro, naná, nanás, pita), é ter que conviver com gente maçante, desagradável e que se acha detentor da coroa real, nesse caso a espinhosa “sabedoria” das relações sociais.

Manja aquele pessoal padrão classe média que se levanta e rotineiramente bate a continência dos três artificiais beijinhos no rosto, do abraço que não abraça, do aperto de mão frouxo, dos talheres paralelos ao final das refeições e do guardanapo dobrado sobre as pernas? Uma gente bege. Politicamente (aparentemente) correta. Sem sentimentos ou pensamentos contrariantes, conflitantes.

Assim, entre ausências, amnésias, “autismos” e abacaxis vem se conformando a vida em sociedade no século XXI. E, eu estou perdendo o bonde das ditas “boas relações” que tão mal têm me feito.

Venho me descobrindo muito bem comigo mesma (obrigada!) sem a proximidade (perversa) com “gentes” que são máquinas registradoras. Estou muito bem sem relações forjadas ou obrigatórias, sem a rotina permeada pelas velhas etiquetas reformatórias de se fazer assim ou assado por que alguém está vendo. Mas ainda tenho que me fazer entender (muitas vezes estabanada) para ter paz, pois há menos respeito às diferenças do que cobrança e imposição.

Sei que...

Estou preferindo cada vez mais meus papéis coloridos, furadores com várias facas e carimbos de estrelinhas.

Estou preferindo cada vez mais meu teclado, monitor e impressora para ouvirem minhas impressões do mundo.

Estou preferindo cada vez mais meu ventilador, minha cadeira vermelha e minhas estantes de livros reveladores, instigantes, curiosos.

Estou preferindo cada vez mais ficar acompanhada de Big Brother Brasil, da novela Viver a Vida e do Fantástico nos domingos chuvosos.

Estou preferindo cada vez mais o sexo casual, com um, com dois, com três prazeres consensuais.

Estou preferindo cada vez mais chocolate quente, vinho tinto e pizza de aspargos e shitake acompanhada de um bom papo presencial ou virtual, mas tendo a afinidade como requisito obrigatório.

Estou preferindo cada vez mais salas de aula semanalmente e as pessoas (escolhidas) que tiram o melhor de mim (ainda que sejam poucas).

Estou preferindo cada vez mais as exposições de artes, as palestras com escritores e os programas fora do circuito comercial.

Estou preferindo cada vez mais dialogar sobre aborto, eutanásia, ateísmo, homossexualidade, ética, suicídio, moralidade, jogos de azar, drogas, inferno, censura, pobreza e outros temas que sucumbem diariamente ao preconceito e à superficialidade da ignorância, que reina mais ácida do que passiva, a comentar sobre vestidos e carros, quilos e plásticas, carnês e eletrodomésticos.

Por fim, recolho-me ao meu autismo socialmente voluntário até que algo interessante, para ambos, surja por aqui ou aí. Por enquanto, estou escolhendo (relacionando-me com muitos) à vida em A4 e já ciente do seu comentário.

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