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27 fevereiro, 2010

BBB é um espelho para cada um

JOHN DE MOL

Curiosidade real

Inventor do primeiro Big brother diz que o programa é um espelho no qual o público observa a si próprio

Ana Paula Franzoia

Às vésperas de completar 47 anos, John De Mol tem uma certeza. Ele é um curioso. E foi essa curiosidade que acabou convertendo o executivo de TV numa estrela, apesar de sua imagem não estar exposta na telinha. Apaixonado pela televisão, o produtor costuma converter tudo em sucesso, de programas de variedades agame shows. Foi com o sócio da produtora Endemol, Joop van den Ende, que De Mol encontrou a galinha dos ovos de ouro. Ele inventou a fórmula Big brother apostando na simples curiosidade alheia. A idéia de um programa em que anônimos passam dias confinados numa casa sendo monitorados por dezenas de câmeras explodiu na Holanda em 1999 e se espalhou rapidamente pelo mundo. Chegou ao Brasil no dia 29 de janeiro e já é um dos programas de maior audiência da Rede Globo. Orgulhoso do barulho que provocou em países tão diferentes como Portugal, Estados Unidos, Argentina, França e Rússia, De Mol explicou a Época por que acredita que a realidade pode ser um show.

Perfil

• Dados pessoais
Nasceu na Holanda em 24 de abril de 1955

• A trajetória
Começou a trabalhar em rádio e foi para a televisão em 1979

• Maior negócio
A Endemol, produtora criada por ele e Joop van den Ende, em 1994, foi comprada pelo grupo Telefónica em 2000

ÉPOCA – O senhor já leu o livro 1984, de George Orwell?

John De Mol – Sim, li. Mas somente depois da produção de Big brother.

ÉPOCA – Qual a relação entre aquela visão assustadora de uma sociedade vigiada que o escritor previu e o programa que o senhor criou?

De Mol – Não há nenhuma relação entre o livro e o programa de TV. A única coincidência é o nome de um personagem que aparece no livro (Big brother é o governante de uma sociedade que controla tudo e todos com câmeras) . Na verdade, nós achamos muito engraçado tomar emprestado o nome do personagem.

ÉPOCA – Como surgiu a idéia de fazer o primeiro Big brother?

De Mol – Juntamos a idéia de mudança de uma rotina com um projeto científico que ocorreu há alguns anos chamado Biosfera 2. Um grupo de cientistas viveu junto numa casa de vidro por dois anos e era completamente auto-suficiente. (O projeto Biosfera 2 foi construído no Arizona, nos Estados Unidos. Numa redoma de vidro com 12 mil metros quadrados, oito cientistas ficaram confinados de 1991 a 1993. O objetivo era construir uma miniatura do planeta, mas o projeto fracassou) .

ÉPOCA – Mas por que o senhor acreditou que um programa que não tinha roteiro definido e mostraria pessoas comuns convivendo 24 horas numa casa fechada faria sucesso?

De Mol – Nós achamos que seria interessante observar como essas pessoas se relacionariam e formariam um grupo. Esperávamos que depois de alguns dias a personalidade real das pessoas começasse a aparecer. E foi exatamente o que aconteceu. Isso significou uma atração televisiva extremamente interessante, pois se podia ver o conflito entre o interesse do grupo e o interesse pessoal de cada participante.

ÉPOCA – É isso que, em sua opinião, explica o sucesso dos reality shows?

De Mol – Big brother chega muito perto das pessoas. Como espectador, você está constantemente pensando: ”Qual seria minha atitude diante de uma situação como essa?” Na realidade, você está olhando para si próprio. Nós sabíamos desde o começo que o show seria um sucesso, mas o que não esperávamos era que fosse um sucesso tão grande.

ÉPOCA – Então, se o senhor acreditava tanto na fórmula, por que demorou para transformá-la em um programa de televisão?

De Mol – Não sei ao certo. Na verdade, um programa como Big brother é tecnicamente complicado de ser montado. A tecnologia que usamos hoje não existia há alguns anos.

ÉPOCA – A novela é um gênero muito antigo e popular na TV. O senhor não acha que a novela da vida real corre o risco de apagar a ficção?

De Mol – As pessoas também gostam de assistir a novelas, do sonho da ficção, e sempre vão gostar. Mas Big brother é outra história. Mostra a realidade. Se uma pessoa ri ou chora no programa é porque ela está feliz ou triste de verdade. Pode-se dizer que é como um espelho, no qual você pode observar a si próprio. É isso que torna o programa especial, e completamente diferente das novelas, nas quais os atores estão o tempo inteiro representando.

ÉPOCA – Como será a televisão do futuro?

De Mol – Imagino que, de vez em quando, um novo gênero aparecerá ou algo antigo voltará a fazer sucesso, criando uma mistura entre o novo e o consolidado. Foi o que aconteceu com Big brother. Mas acredito que todos os gêneros televisivos sobreviverão. A televisão é muito parecida com a moda. O gosto das pessoas muda muito lentamente. Mas os estilos, as tendências do passado estão sempre sendo reciclados.

ÉPOCA – O senhor acredita que os reality shows vieram para ficar?

De Mol – Claro que sim. Como já disse, os reality shows são apenas um novo gênero dentro da televisão. Mas somente os bons sobreviverão.

ÉPOCA – Em quantos países Big brother é um sucesso?

De Mol – O programa já foi montado em cerca de 25 países.

ÉPOCA – Houve algum fracasso?

De Mol – Não tenho notícia de nenhum Big brother que tenha dado baixa audiência em nenhum canto.

ÉPOCA – Mas as críticas são ferozes. Em todos os países onde o programa é ou está sendo exibido aparecem críticos dizendo que os reality shows estão contribuindo para piorar a qualidade da programação de TV. Como o senhor vê isso?

De Mol – Em primeiro lugar é preciso dizer que Big brother é feito com muito cuidado e profissionalismo. Os críticos que não reconhecem isso estão errados. De qualquer forma, a audiência em todo o mundo é capaz de perceber isso e assiste aos programas. É o que importa. Não me interesso pelas afirmações feitas por críticos individualmente.

ÉPOCA – Invadir a privacidade, exibir cenas picantes e fomentar conflitos não é apelativo, de mau gosto?

De Mol – Isso é bobagem. Como produtores, nós temos responsabilidade sobre o produto final. Se necessário, devemos proteger os participantes. É exatamente o que fazemos.

ÉPOCA – Em algum lugar do mundo em que Big brother foi exibido a produção precisou intervir dentro da casa?

De Mol – Em Portugal aconteceu um fato inédito e foi preciso fazer uma intervenção física. Dois participantes partiram para a briga e a produção teve de intervir. Mas durou apenas alguns segundos. E foi só. No mais, foram só coisas engraçadas e emocionantes.

ÉPOCA – Os outros produtos da Endemol são parecidos com Big brother?

De Mol – Claro que não. Nós fazemos programas de todos os gêneros para a televisão. Temos cerca de 500 em nosso catálogo.

ÉPOCA – Quanto a Endemol já ganhou com Big brother?

De Mol – Big brother e outros reality shows representam apenas uma pequena porcentagem dos rendimentos da empresa. Também somos fortes em outros gêneros, como seriados, game shows e programas de variedades.

ÉPOCA – O senhor conhece a televisão brasileira?

De Mol – Claro, eu já vi inúmeros programas brasileiros, mas não sou um especialista.

ÉPOCA – Atualmente existem dois reality shows no país. O Big brother Brasil, exibido pela Rede Globo, que se associou à Endemol para produzir o programa em nosso país, e outro pelo SBT, a Casa dos Artistas. A Globo acusa o SBT de plágio e já perdeu vários recursos na Justiça brasileira, mas a sentença definitiva ainda não foi julgada. Qual a posição da Endemol nesse caso?

De Mol – Casa dos Artistas é 100% plagiada do Big brother original. Se a Justiça brasileira não reconhecer isso significa que vocês não conseguem proteger a propriedade intelectual. Isso pode ter tristes conseqüências para o Brasil.

ÉPOCA – A que o senhor costuma assistir na televisão?

De Mol – Claro que não sou um espectador médio. Gosto de zapear e vejo muitas fitas gravadas com antecedência. Acabo vendo um pouco de tudo o que aparece na televisão.

ÉPOCA – O senhor aceitaria viver numa casa monitorada por câmeras por dias ou meses, como acontece no Big brother?

De Mol – Sim, Big brother é o único programa de que eu realmente gostaria de participar. Sou curioso e gostaria de saber quais seriam minhas reações dentro da casa.

ÉPOCA – O senhor já bisbilhotou a vida dos vizinhos de sua janela?

De Mol – Nunca. Por que faria isso? Mas, se por acaso as cortinas estivessem abertas e eu estivesse passando por perto, sem dúvida que daria uma olhadinha. Isso porque todos nós somos curiosos. Eu também sou.

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