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01 dezembro, 2008

Vida da pré-história à pós-modernidade em quadros


Um dia urbe de mulher
No seu turbinado conversível, fêmea-de-37-anos sai de casa para mais um dia de mulher independente. Agenda anotada e atividades para todos os segundos do calendário lotado nos próximos seis anos. Incluindo a data do casamento com o homem que irá conhecer e lhe pedir em casamento, os preparativos para o batizado dos dois filhos que irá conceber, um garotão macho e uma linda meninha, e... mais... muito mais... Já são quase nove da manhã.

A mulher-iniciada vence o tráfego com humor instável e dá uma passada na academia para deletar os brigadeiros da festa do afilhado e o vinho da despedida de solteira da amiga de 35 anos. Por duas horas faz planos imaginários que levantam a bunda, endurecem peitinhos, ajeitam a barriga, torneiam coxas, e assim conseguir brevemente se casar para crescer a barriga, amolecer os seios, correr atrás do bebê e sentar no chão para brincar de tatibitate.


No horário do almoço, eufórica-tarja-preta engole um saladinha de alfafa e outros vegetais descobertos quando a vida ainda era apenas agricultável. Mira as vitrines e investe o salário todo em prestações adquirindo umas roupinhas para um fim-de-semana-na-moda. Bola um visu feito maquiagem dos pés à cabeça. Trabalha até meio da noite e vai pra casa arquitetar a sexta, o sábado e o domingo.


Enquanto isso, fêmea-hormonal pinta as unhas e esquenta algo no microondas. Um chá verde e mais umas três ou quatro coisas da ordem boa forma propagandeada na TV e revistas de celebridades.


Pronta a ser caçada (melhor dizer caçar), mulher-enturmada passa na casa dos amigos para uma jogadinha embalada em absinto, som eletrônico e umas doses de atualização sobre quem-está-com-quem-e-quem-ainda-está-só-no-melhor-estilo-lattes-amoroso (naquele em que se verifica a performance das quantidades).


Eis que surge o homem-45-divorciado-ombros-largos. Apertos de mãos e olhares cruzados ela marca um almoço sabático.



Os lábios gesticulam: qual foi o último filme que você viu? Ela emenda, quando era pequena gostava de caçar coelhos. Ele devolve, fiz um projeto de engenharia para o metrô no ano passado. Ela assente, a firma de advocacia WYWQ quer me contratar. Eu adoro beijar, repetem juntos.



Splashssssssssss de ida e volta. Mãos nas contramãos. Flashes na memória. Ela vê para cima. Ele olha para baixo. Melhor tentar... Será que ele vai me pedir em casamento? Suspira silenciosa. Será que ela transa bem? Sorri atencioso.





No motel das vinte-e-duas-tardes-executivas ele abre o champanhe. Ela vibra e vibra nele. Ele vibra e vidra nela. A noite (se) passa.

Num átimo de retirada do preservativo ele volta para a ex-namorada de cinco anos. No ensaio de uma mecha por detrás da orelha esquerda, ela volta para casa e espera o telefone tocar o domingo inteiro. Repinta as unhas ao som do Tunai... "você caiu do céu/um anjo lindo que apareceu/com olhos de cristal/me enfeitiçou/eu nunca vi nada igual".

A segunda nasce. Mulher-carente-desolada apronta o visual super-independente-bem-resolvida e marca outra sessão no psicanalista. Espreme a espinha que surgiu no meio da testa. Come cinco barras de chocolate com menta. Comenta com as amigas também. Acaba a bateria do celular.


Entra no turbinado. Agenda anotada e atividades para todos os segundos do calendário lotado nos próximos seis anos. Incluindo a data do casamento com o homem que irá conhecer e lhe pedir em casamento, os preparativos para o batizado dos dois filhos que irá conceber, um garotão macho e uma linda meninha, e... mais... muito mais... Já são quase nove da manhã. Ela vai.

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