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10 novembro, 2008

Vidas que não coagulam


(Por Solange, em 30.10.2008)




“Ser brasileiro é ser multicultural”, define o músico Ivan Lins em certo trecho do documentário “Três irmãos de sangue” (2006), com roteiro e direção de Ângela Patrícia Reiniger.

Lançado para homenagear o sociólogo Betinho (1935-1997), após dez anos de sua morte, o filme entrelaça a vida dele com as de seus irmãos Henfil (1944-1988) e Chico Mário (1948-1988). Todos vitimados pela AIDS a partir de transfusões de sangue.

Alternando cenas de arquivo pessoal, da mídia televisiva e de depoimentos emocionados, a película documenta de fato o que é “viver com a dor constante”. Não somente àquela das restrições e dos cuidados incumbidos aos hemofílicos, condição hereditária irreversível, mas também àquela outra nascida na alma (também condição hereditária irreversível?). Constante.

Um incômodo tal que moveu – de fato – esses mineiros (de Bocaiúva) filhos de dona Maria da Conceição a “sonhar até o infinito”. Menos que isso era pouco, sabiam. A mãe permanentemente indignada com a injustiça social foi o exemplo. Tirar da terra a força da ação, era a mensagem para o sentido de existir. A origem. O nascimento. “Transformar o lamento da vida em apoteose”. Fizeram.

“Respirar é um encontro com o ar”, metáfora para representar a necessidade vital de se buscar liberdade a cada enchida de pulmões. Voar para o essencial, uma vez que o sangue que lhes corria nas veias tinha urgência. Na fluidez constante, sem coagular. Sem tempo para a inércia tal como aqueles que têm sangue parado.

Qual a água que não se represa, eles não se continham neles mesmos. “Solidão e solidariedade”, sentimentos que escorriam constantemente nos veios de Henfil, pai do slogan “diretas já”. Combate à fome e à miséria, uma campanha pela vida, dueto perseguido por Betinho, indicado ao prêmio Nobel da paz. Denunciar a tortura e não calar jamais eram as claves de Chico de Mário e de seu violão em acorde.

Um ativista político, um artista cartunista, um músico independente que se complementavam como terra, água e ar. Viveriam assim até a última gota, ainda que de sangue. Ou utopia.

Castores que construíram diques que não usufruiriam. Chico Mário, Henfil e Betinho eram três irmãos de sangue. Intensos. Sanguíneos. Autoconfiantes. Incontidos. Viveram na urgência da vida que não coagula. Exilados do conformismo. Graúnas da abertura, dos novos tempos. Enfrentaram o medo de ter medo. A revolta dos palhaços, eles fizeram. Individualmente agiram pela coletividade. Na urgência de uma insatisfação constante não se coagularam como gente.

“Eram três irmãos embriagados de utopia, no sentido forte dessa palavra, não apenas como um sonho, mas como um projeto que os engajou numa militância permanente”, analisou Frei Betto no início do filme.

Participando de circuitos oficiais e alternativos, o premiado documentário – patrocinado pela Petrobrás – foi considerado, por votação popular, melhor filme no V Cinefest Petrobrás (Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque 2007). Ganhou também o prêmio de melhor roteiro no Festival de Goiânia de 2006 e no Recine 2007, além da menção honrosa no Femina Fest 2008, tendo sido o único representante brasileiro na competição internacional de longas.

Oxalá! Vida longa para o longa que mostra vidas que não coagulam porque vivem na urgência do tempo de quem tem consciência e luta pela dignidade; de si e dos outros irmãos, ainda que não sejam de sangue...

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Saiba mais sobre o documentário em: http://www.3irmaosdesangue.com.br/

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