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20 novembro, 2008

EUA, bem-vindos ao Terceiro Mundo!

por Rosa Brooks
professora de Direito na Georgetown University Law Center





Não é todo dia que uma superpotência tenta se transformar em nação do Terceiro Mundo. Por isso, nós aqui do Banco Mundial e do FMI desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boas-vindas à comunidade de Estados necessitados de ajuda econômica internacional.

Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação de seu Departamento do Tesouro para que participemos de uma avaliação conjunta da estabilidade de seu setor financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até especialistas.

Como vocês sabem, há muito tempo é necessária uma intervenção na sua economia. Semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de vários países se reuniram na Virgínia e concordaram que vocês precisam reformar seu sistema financeiro. O ex-ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês peçam ajuda ao FMI.

Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já estiveram nessa posição. Já resgatamos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da Coréia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução de superpotência econômica até o descontrole econômico.

Normalmente, tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, em razão de sua oscilação entre o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do Terceiro Mundo.

Suas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em setores críticos permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de moradia, uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, seus políticos, que deveriam supervisionar o sistema, estavam dormindo com lobistas.

Tomemos como exemplo John McCain, seu candidato republicano à presidência, cuja equipe principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou recentemente que foi presidente do Comitê de Comércio do Senado, que supervisiona todas as partes da economia. Não resta dúvida, portanto, o fracasso de sua liderança em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável.

Agora, vocês enfrentam as conseqüências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu sua renda estagnar. Um número cada vez menor de cidadãos tem acesso a moradia, assistência médica ou segurança social. Até a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas econômicos passaram de crônicos a agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um programa extenso de nacionalização de empresas privadas.

As suas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao Estado. Nesta semana, sua gigante dos seguros, a AIG, foi também foi nacionalizada, com o conselho administrativo do Fed 80% da empresa. Alguns podem chamar isso de socialismo, mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas.

Sua transição para o terceiro mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em se acostumar às favelas que crescerão nos subúrbios das cidades, mas com o tempo elas se tornarão parte da paisagem.

Conforme as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar utilidade para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês perceberão que podem recrutá-los para alguma guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados do terceiro mundo antes de vocês.

Talvez esta carta os surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao terceiro mundo. Não fiquem preocupados. Apesar de nunca terem percebido, vocês já estão se preparando para este momento há anos.





*Rosa Brooks escreveu este artigo para o "Los Angeles Times",

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