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25 abril, 2008

Dica de blog


Escrito em:11/2/2008 por Rosana Ferrão



A SÍNDROME DO ELP
Dia desses eu vi, na TV, uma entrevista onde o Eurico Miranda, do Vasco, parecia estar chorando, enquanto falava da saída do Romário. Um amigo me disse que aquilo não era choro. Os olhos dele estavam só lacrimejando. Mas isso não importa. Até porque nem sou ligada em futebol. O que me chamou atenção nessa cena foi o fato de homens, que parecem durões, com essa mania de chorar na TV. O próprio Romário chora à toa, Lula já derramou lágrimas inúmeras vezes diante da nação... Enfim, basta ligar a televisão para ver que a síndrome do ELP (lê-se ‘elpe’) vem crescendo ultimamente. Ela agora é mais visível, mas sempre existiu e atinge homens e mulheres indistintamente. Não é uma síndrome ainda, digamos, catalogada. Por enquanto estamos chamando de “síndrome do ELP”, mas pode ser também “transtorno do ELP”. Registramos os dois nomes.

Vou explicar desde o início: uma amiga, que é bastante equilibrada, andava chorando à toa. Por exemplo: via uma lua cheia, achava aquilo lindo e começava a chorar; ouvia uma música do Caetano e chorava. Um dia, o padeiro, distraído, serviu uma cliente que estava atrás dela na fila e pronto: um rio de lágrimas... Então ela comentou comigo: “eu ando chorando à toa, acho que estou com meu equilíbrio lacrimal precário.” Achei muito engraçado aquilo: equilíbrio lacrimal precário??

Pois no dia seguinte fui ao cinema com um amigo que é todo seguro de si e muito divertido. Ele tinha tido uma briguinha boba com a namorada na véspera e fomos ver uma comédia, pra distrair. Na primeira cena – a imagem de um avião aterrissando não sei onde – ele começou a chorar. Tudo bem… ele até estava um pouco triste, mas senti, enquanto meu amigo fungava baixinho, que algo diferente estava acontecendo com ele. Fui percebendo, desde então, que o Equilíbro Lacrimal Precário (ELP) poderia acometer qualquer um, em qualquer fase de nossas vidas.

Com isso na cabeça, fui conversar com minha amiga – a que cunhou esta expressão pela primeira vez – e propus uma sociedade: esse negócio de ELP podia dar o maior pé, fazer sucesso. Hoje tem síndrome disso, síndrome daquilo, transtorno disso, transtorno daquilo…A gente podia, também, classificar esse tipo de comportamento – que, aliás, vocês devem concordar comigo, tende a aumentar nesses dias estressantes em que vivemos – e faturar um pouco em cima.

Antes que me critiquem por eu estar querendo investir no mercado dos problemas emocionais, deixem eu esclarecer logo uma coisa: não estou falando de coisas sérias, tipo doenças mesmo. Não vamos competir com marcas já famosas como TPM, por exemplo. O nosso negócio é pegar mesmo um nicho que está aí, uma galera que chora à toa e às vezes precisa de um apoio ou pelo menos de um reconhecimento. Aí é que nós entramos. Não estamos querendo faturar em cima das lágrimas dos outros. Estamos, isso sim, abraçando uma oportunidade. Existe claramente uma demanda para nossos serviços.

Afinal, as idéias estão no ar, não é mesmo? Amanhã ou depois a gente abre os suplementos familiares dos jornais e vai estar lá, mesmo com outro nome, a descrição deste chororô desenfreado que não escolhe sexo, raça, religião ou idade para atacar suas vítimas. Antes que alguém se adiante, eu e minha prima, então, já registramos as marcas ELP e Equilíbrio Lacrimal Precário e estamos começando nosso planejamento de marketing. Já tivemos uma primeira reunião com a agência de publicidade e a primeira coisa que decidimos é que, para um projeto ambicioso como este – lançar uma nova marca no mercado de problemas emocionais – vamos precisar de um patrocinador de peso. Fabricantes de lenços de papel ou de óculos escuros, por exemplo.

Nesta mesma reunião, tivemos ótimas idéias: a criação de clínicas especializadas em ELP; terapeutas formados exclusivamente para lidarem com o comportamento elpiano (ou será melhor élpide? Vamos resolver isso mais tarde. Sabemos, por enqüanto, que em estágios avançados o cliente será ELPlus); jingles em campanhas de rádio... Já posso até ouvir:

(entra fundo musical) “ELP! I Need Somebody… ELP!
Você vê um por do sol e chora?
Abraça um amigo querido e chora?
Você pode estar sofrendo de ELP
Procure um especialista…
(volta fundo musical) You Know I need someone… EEEEELP!”

Vamos também contratar modelos e manequins (homens e mulheres) para caírem no choro em lugares públicos – festas, ilhas badaladas, estréias – de preferência diante das câmeras. Depois eles dirão que estão numa fase de ELP, mas que já estão se tratando, etc, etc. Dependendo do nível de celebridade em que se encontram, podemos até oferecer uma participação nos lucros, em vez de só pagar um cachê.

Além dos serviços (clínicas especializadas e terapeutas), queremos também entrar no ramo de produtos: travesseirinhos confortantes, poções “mágicas” de água com açúcar, que virão em garrafinhas tipo água mineral, adesivos de carro “NO ELP” e outros.

Se você quer fazer parte desta história, pode colaborar voluntariamente com nossa pesquisa de mercado, respondendo a duas perguntinhas:

1) Você já sofreu ou sofre de ELP?
2) O que é bom fazer numa situação em que o ELP ataca você?

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