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09 abril, 2008

Arte e Ciência: Imagens e Contextos

Olá amigos e amigas do Idéias e Ideais, confiram abaixo a entrevista que dei para a Revista Espiral,
do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (NJR-ECA/USP).

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Arte e Ciência: Imagens e Contextos
(ANO 9- No.34 / JAN-FEV-MAR de 2008)


Cleide Borovik
Andrea Ramirez
Fernanda Ramirez *


A convergência entre arte e ciência pode ocorrer de várias formas. Nota-se que por um lado a ciência tem inspirado a produção de obras artísticas. Por outro, cientistas utilizam arte para ilustrar as suas descobertas.

A dicotomia entre ciência e arte ganha, ao longo da história, importância no século XIX com a Revolução Industrial. Segundo Celso Lafer, “a ansiedade relativa à separação entre ciências exatas e ciências humanas provem do impacto do conhecimento científico-tecnológico no funcionamento das sociedades. Deriva da preocupação que o cálculo e a mensuração, inerentes ao método científico, poderiam abafar o cultivo da personalidade e da sensibilidade que as humanidades propiciam.” (O Estado de São Paulo, 2007).

Entretanto, o livro de C.P. Snow,“As duas culturas e a revolução científica” (1959) sustenta a importância da comunicação entre as “duas culturas”, sem a qual não seria possível lidar com os desafios e os problemas contemporâneos.

Para o cientista Paulo Alberto Otto arte e ciência têm em comum simplesmente o aspecto estético de ambas. Mario Schenberg, cientista e critico de arte, destaca com insistência a presença de elementos estéticos na ciência, em particular na física teórica (ED, 2006). Já para a artista plástica Solange Pereira Pinto, ambas – arte e ciência – surgem da necessidade humana de "ordenar", "organizar", dar forma à imaginação de novas possibilidades ou nascem da tentativa de "explicar" que o há. Para ela, enquanto o artista "denuncia suas descobertas por meio da arte", o cientista "divulga suas descobertas por meio das teorias". Questiona a diferença entre ciência e arte: o que torna “ciência ser ciência” e o que torna “arte ser arte”? Método? Técnica? Objetivos? Experimento? Sua universalidade? Acredita que a inspiração do homem é o "todo" em que ele vive o contexto. Se por um lado a ciência pode desenvolver novas tecnologias para servirem de meios (ou mesmo "inspiração") para a produção artística, por outro a arte também pode servir de instrumento (ou "inspiração") para o desenvolvimento científico. Artistas e cientistas têm em comum a curiosidade, a experimentação, a imaginação, a ousadia e a inventividade.

Watson e Crick utilizaram a arte para materializar a estrutura química da molécula de DNA elucidada em 1953, sob a forma de uma “escultura” formada por placas e hastes de metal (Figura 1). Esta descoberta marcou o início de uma nova era no campo da genética.

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A molécula de DNA é constituída de uma dupla hélice formada por duas fitas contendo açúcares, fosfatos e bases nitrogenadas. A sua representação esquemática encontra-se em todos os livros de biologia.

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O cientista Paulo Alberto Otto, acha que sob o ponto de vista prático claramente é a ciência que inspira (ou "ajuda") a arte. Por exemplo, na maioria das criações (desenhos, pinturas e gravuras) tanto do Leonardo da Vinci como do Albrecht Dürer – que considera os maiorais juntamente com o Rembrandt van Rijn - os espaços estão distribuídos harmonicamente obedecendo a cânones rigorosamente geométricos.

De fato, a molécula de DNA tem inspirado diversos artistas desde 1953 até os dias de hoje e está presente em inúmeras obras de arte. Vejamos alguns exemplos.

Salvador Dali, artista plástico da escola surrealista, foi contemporâneo de James Watson e Francis Crick e manteve freqüentes contatos com eles. Fascinado pela estrutura do DNA como forma básica da vida, a inseriu em uma série de obras (Figura 2). Dali achava que a descoberta da estrutura do DNA seria a chave para a imortalidade, significava a “prova real da existência de Deus”.

Depois do projeto genoma, iniciado em 1990 e que em 10 anos alcançou seu objetivo de seqüenciar todo o genoma humano, o DNA tornou-se muito popular. Mais interfaces genético-artísticas surgiram. É o caso dos Retalhos do genoma elaborados após uma palestra sobre o Projeto Genoma Humano em 2001, cuja proposta é revelar o significado profundo do código genético por meio do prazer proporcionado pelas cores em design teoricamente tradicionais.

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Genome quilts, traduzido aqui como Retalhos do genoma, é uma forma de costurar retalhos especificamente organizados de acordo com uma seqüência do código genético. Para a realização de tais obras de arte a psiquiatra Beverly St. Clair criou formatos de retalhos, alternando tons claros e escuros, que representasse cada uma das letras de cada base nitrogenada da molécula de DNA conforme o quadro abaixo:




Assim, a seqüência GATCGCCCTT é artisticamente representada por





Desse modo ela explora a estética e a disciplina exibindo Ciência na forma de genomas artísticos em exposições de arte desde 2003. Para saber mais visite http://www.genomequilts.com/genome.php

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Recentemente, uma empresa americana passou a oferecer o enquadramento de identidade genética. Só é necessário que o interessado passe um cotonete especial pela boca e pronto: as células contendo DNA são enviadas à empresa que cria quadros gigantes com trechos daquele código genético. Chamam esses quadros, que não passam de fotografias digitalizadas e coloridas de géis de eletroforese com amostras de DNA, de arte abstrata.

Cientista e artista respondem se esses quadros podem ser considerados obras de arte ou ilustrações científica.

Paulo Otto – Neste caso acho que os artistas aproveitaram simplesmente os resultados de técnicas moleculares, que simplesmente são esteticamente agradáveis, para compor as suas "obras". Por outro lado quando faço uma preparação microscópica preocupo-me com o seu aspecto estético e, muitas vezes, considero algumas dessas lâminas verdadeiras obras de arte.

Solange - O que é obra de arte? Penso que um dos problemas da ciência seja exatamente a mania de classificação e categorização de tudo que há. Hoje é sabido que a definição de arte é fruto de um processo sócio-cultural e depende do momento histórico em questão, variando bastante ao longo do tempo. Logo, estas obras são arte, pois por trás delas estão seus autores-artistas. E, ainda, por que uma ilustração (seja ela científica ou não) deixa de ser arte por ter sido simplesmente denominada ilustração e não obra de arte?

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Foram muitos anos de pesquisa até que os cientistas chegassem nesse ponto. No fim do século 19, um bioquímico alemão concluiu que os ácidos nucléicos, longas cadeias de polímeros formados por nucleotídeos, eram feitos de açúcar, ácido fosfórico e diversas bases nitrogenadas. Mais tarde, descobriu-se que o açúcar podia ser a ribose ou desoxirribose, formando o DNA ou o RNA. Em 1943, Oswald Avery provou que o DNA continha a informação genética. Ele até sugeriu que o DNA poderia ser o gene. A maioria dos pesquisadores na época achava que o gene seria proteína e não o ácido nucléico, mas no final dos anos 40, o DNA já era aceito pela maioria como a molécula genética. Os cientistas precisavam, entretanto, saber como era a estrutura dessa molécula para saber como ela funcionava.

Em 1948, Linus Pauling descobriu que muitas proteínas adquiriam a forma de uma alfa hélice. Em 1950, o bioquímico Erwin Chargaff verificou que o arranjo das bases nitrogenadas no DNA variava muito, mas a quantidade de certas bases mantinha sempre uma proporção constante 1:1.

Em 1950, Maurice Wilkins e Rosalind Franklin no King’s College de Londres seguiam as pesquisas com uma estratégia experimental, utilizando difração de raios-X de imagens de DNA. Franklin verificou que o DNA poderia existir em duas formas, dependendo da umidade relativa do ar e deduziu que o fosfato estaria na parte externa. Mais ainda, verificou que uma das formas do DNA tinha características de uma hélice. Ela suspeitou que o DNA fosse constituído por uma hélice, mas não divulgou suas idéias porque achava que não tinha suficientes evidências para isso.

Na mesma época, na universidade de Cambridge, Francis Crick e James Watson, baseados nos trabalhos de Pauling, tentavam criar um modelo físico da molécula. Inspirados pelos achados iniciais de Franklin estabeleceram, inicialmente, um modelo falho. Entretanto, com as novas hipóteses de Franklin e os achados de Chargaff, concluíram que a molécula de DNA seria composta de duas cadeias de nucleotídeos, sob a forma de hélice e que as bases estavam interligadas na parte central, mantendo a distância constante entre as duas cadeias. Mostraram que cada cadeia de DNA era complementar à outra. Durante a divisão celular elas se separariam e cada metade serviria de modelo para a construção (síntese) de uma nova molécula. Dessa forma o DNA se reproduz (replica), sem mudar a sua estrutura.

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Os caminhos da Arte e da Ciência convergirão ou divergirão neste novo Século?

Para o cientista Paulo Otto os caminhos da Arte e da Ciência continuarão apenas a manter associados os elementos que possuem em comum. Para ele, como cientista, também fica difícil vislumbrar o que mais pode ser feito em matéria de arte pictórica e plástica, da mesma maneira que a música começou com os italianos e Bach, passou por Haydn, Mozart, Schubert, Beethoven e terminou com Brahms. Mas sempre aparece alguma coisa diferente, que pelo menos marca época, como o impressionismo francês e o expressionismo alemão.

Já para a artista plástica Solange Pereira Pinto há pouca informação e conhecimento quanto aos caminhos que a ciência tem trilhado ultimamente. “Sei, por alto, das novas descobertas e insistentes pesquisas, por exemplo, na área de DNA, genoma, visando não somente o conhecimento da estrutura e funcionamento humano, sua ancestralidade etc, mas também ambicionando deter certo "controle" do que possamos vir a ser ou não futuramente, a partir da possibilidade de manipulação genética...” Da mesma forma, a arte tem promovido rupturas ("moleculares" se é que podemos chamar assim) de velhas formas artísticas para, por intermédio de novos meios de expressão e linguagem, chamar atenção, denunciar, registrar, transformar o olhar da época em que vivemos e seguimos.

A arte está aí para fragmentar os textos, para apresentar objetos conceituais, para em seguida unir tempo, homens e máquinas (arte-virtual-eletrônica) numa espécie "cyborges" que possam, em terceira dimensão – a artística –, enxergar os caminhos em franca construção pela humanidade, para, se quiserem, mudar o rumo da história. Mas, na essência, todo cientista é um artista e todo artista é um cientista, o que muda é o valor que a sociedade lhe atribui.

Arte e ciência caminham juntas, embora nem sempre artistas e cientistas o percebam como diz Solange “A ciência cria. A arte cria. A ciência desvenda. A arte desvenda”. E ambos concordam que é necessário Investir na educação. Popularizar sem distorcer é o desafio maior tanto da arte quanto da ciência. Solange acredita que arte é mediadora de tudo quanto o que se queira, do auto-conhecimento ao ensino multidisciplinar e transversal de outros conhecimentos e conteúdos.

Em nosso meio a Estação Ciência pode ser considerada como um bom exemplo de interação entre arte e ciência.

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Imagens

Fig. 1


Reconstrução do modelo da dupla hélice do DNA feito por Francis Crick e James Watson em 1953, usando algumas das peças originais. (Science Museum, Inglaterra).


Fig. 2

Salvador Dali “Butterfly Landscape (The Great Masturbator in a Surrealist Landscape with DNA)“ 1957-58.



Fig. 3

Escultura de Tom Otterness, em NY

Fig. 4


Gaby F. de Castro “Kroma Soma” Pintura em Acrílico sobre Tela de 300 x 200





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* Cleide Borovik é bióloga e doutora pela USP, especialista em genética humana
Andrea Ramirez é bióloga, mestre em genética pelo IB-USP
Fernanda Ramirez é mestre em Educação Física e desenvolve pesquisas em Psicanálise, Esporte e Cultura.

2 comentários:

Cesar Cardoso disse...

Tá ficando famosa! :D

Soll disse...

pois é pois é hehehe

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