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26 outubro, 2007

Uma crônica sem aspas nem latim



As frases odiosas que evitaram as frases grandiosas

26.10.2007
(texto e foto) Por Solange Pereira Pinto

Tento escrever há dois dias e simplesmente não consigo. Quero dizer, não consigo passar para o papel virtual o texto mental que já está praticamente pronto e tenho certeza que esse impedimento é o que tem me empacado para escrever os outros zilhões de textos laborais que tenho a edificar! (êta frase feia!)

Falando assim parece até religião e nem sei que pecado eu cometi para ter tamanha penitência. Talvez, o fato de ser cronicamente sedentária e adorar um computador e uma internet seja o meu ilícito.

Então, vou aproveitar que “cai” da rede, me esborrachei, para digitar meu veneno. Sou do tipo que se um desejo forte não é realizado a fila das obrigações fica paralisada. E o meu desejo forte é organizar meus projetos, o que paradoxalmente emperra os meus projetos.

?!?!? A internet da minha casa parece discada, mas não é. O laptop Toshiba da minha casa parece bom, mas não é. A minha formação multidisciplinar parece um diferencial, mas não é. Minhas habilidades múltiplas parecem dignas de retorno financeiro, mas não dão.

Assim, vejo que eu pareço, mas não sou. E, pior, nesse mundo fake total, de um Brasil amador total, eu estou totalmente lascada por tentar ser e não parecer.

A história toda começou com a Fernandoca e o tal currículo lattes (aquele que morde o CNPQ). Estava lá humildezinho o meu “lattes”. Sincero. Conciso. Objetivo. Verdadeiro. Real. Por isso mesmo, ruim! Fraco! Parco... O coitado nem aparecia no google. Acho que era pelo baixo número de caracteres. Será?

- “Amigaaaaaaa, como pode você com tantos ‘talentos’ e produções ter um currículo com objetos e sujeitos ocultos desse jeito?”.
Era a voz que tombava em meus ouvidos. Melhor, internamente berrava!
- Tá bem. Falta colocar o quê?
- Tudo, né!
- Tudo o quê?
- Ué, o que você já fez. Oh, amigaaaaaaa ta faltando muita coisa ai. Sua arte, suas aulas, seus textos, suas pesquisas, seus suas seus...
- Ah, ta... É? Pode?


Ela pirou, hein! No lattes só se põe... só se põe... só se põe... O que hein? O que se põe em um lattes?

Demos uma passeada em um monte deles e vimos. Vimos? Vimos. D E U M T U D O, como diz Kalina. Eu acho muita graça nessa coisa de regra. Elas existem para atrapalhar o sujeito leal, correto. Alguém já viu estelionatário esquecer a identidade falsa para dar um golpe? Já o cidadão “de bem” tem que andar nos trinques! E professor andar no lattes.

Voltei para ele e fui pensar o que caberia ali além do que ali já estava. E fui lembrando e lembrando e lembrando e lembrando, até ver que eu tinha uma listagem (tabelinha de word) com 107 projetos lembrados.

Nisso fui esquecendo e esquecendo e esquecendo que eu tinha que preparar uma aula que vou dar na pós amanhã. Quanto mais eu ia me lembrando dos meus deliciosos projetos realizados, realizáveis, irrealizados, irrealizáveis, proporcionalmente ia me esquecendo da apostila, dos slides, dos textos, das correções de provas, dos das dos.

O jeito era parar de fazer tabelinha e emplacar um power point. Fui no internet explorer, meu ex-amigo. E... nada...nada....nada... Nada de mar virtual para navegar. PC travado. Autenticador da Link Express morto precisando de respiração boca-a-boca. Conhecem o nitro? Pois é, parece nitroglicerina! Cada vez morro um pouco (de raiva) ao tentar conectar o Aker.

As frases odiosas vieram em gangue. “Finalizar tarefa”. “O fulano não está respondendo”. “No cookies”. “Timeout”. “Firewall aguardando resposta”. “Ah, não página corrompida” (essa é uma das mais cômicas, queria saber quem a inventou). “Carregando...” “Carregando...” “Carregando...” (lá lá lá lá lá) “Carregando...” (larilará) “Carregando...”. Ploft! Monitor pretinho da silva! O computador apaga! Infarto fulminante!

Contudo, sou persistente! Ligo! Reinicio! Nessa altura já não sei mais das incompatibilidades: google + msn = pane, ou google + orkut + msn = suicídio, ou i-google + msn + word + power point = vai se lascar, ou nitro... deixa prá lá.

Nesses meios inteiros tempos de perdas totais eu relia as agendas para recuperar a memória dos projetos perdidos. Entrei em quase delírio quando encontrei comigo aos 24 anos. Sem gozar por duas semanas, era previsível.

Eu adorava mapa astral, astrologia, numerologia, quiromancia, grafologia, psicologia e as outras logias que não fossem bio, fisio, pato, neuro, essas que o lattes gosta. Foi quando encontrei as grandiosas. Em 1991, proféticas frases. Ano da cabra.

Canalize sua energia em atividades artísticas”. “Estaremos mais emotivos e sentimentais, produtivos e imaginativos”. “Ano indicado para as pessoas pararem, analisarem e refletirem sobre aquilo que devem mudar em suas vidas para serem felizes”. “Cor = amarelo”. “Ginástica. Ginástica. Ginástica” (essa repetição aparece coincidentemente em todas as agendas).

Naquela época eu queria roupas de linho (era moda. E como amassa! Argt), meias-fina, morar em um flat, camisolas de cetim, óculos vuarnet, roupas de couro, scarpins de salto e bico fino, secretária eletrônica e um aparelho telefônico néon (parece a descrição de uma puta ou estou enganada?). Por fim, coleções de livros de Direito (?!?! Fetiche maluco, talvez. Transar sobre a coleção do Damásio enfileirada com os tombos do Rui Barbosa entrecortados de Dallari).

Registrados no meu “códice” os planos: queria no futuro montar um negócio, escrever livros, desenhar, ir a Paris, esperar menos dos outros, falar mais baixo... Havia também uma lista de beijos.

Pela “página dez”, “auto-realização é o surgimento do adulto. Um resultado da capacidade da criança descobrir por si só aquilo que é diferente do conceito ensinado de vida no seu pai e do conceito sentido de vida na sua criança. O adulto desenvolve um conceito pensado da vida baseado em dados acumulados e processados”.

Meu lentium seria capaz?

E, mais. “Probabilidades não examinadas podem ser a base de muitos dos nossos fracassos transacionais e os sinais inesperados de perigo podem causar mais ‘quedas’ ou atrasos do adulto que os sinais esperados”.

(Nem me fale em tombos ou quedas de qualquer espécie... Atrasos, então! Não sei o que será da apostila, se já são quase quatro horas da madrugada e este conto não chega ao fim).

Continuava, “se o adulto está alerta para a possibilidade de um problema, através do exame das probabilidades, ele pode também imaginar soluções para o problema quando este se concretizar”.

(Dessa vez veio à mente o filme “Quem somos nós” e “o segredo”. Enquanto isso, minhas amigas apitam o MSN falando de sexo, desejo, tesão, putaria, homossexualidade. As escolhas e probabilidades...)

De fato eu começava a crescer naquele tempo. Saída recentemente da faculdade, emprego em estatal, advogada, jovem, bonita, inteligente, desejada, corpão, grana estável... E a solidão funda.


Número 22.
“Deve trabalhar em grandes organizações. Pode dirigir projetos importantes, pois sua missão é realizar coisa em grande escala. Seu trabalho será reconhecido por muita gente. Você tem muita imaginação e sabe se expressar bem por meio das palavras, seja falando, escrevendo ou representando em teatro. Seu talento só será desperdiçado se for dirigido para muitas atividades diferentes. Se concentrar as forças em uma coisa só, o sucesso virá naturalmente. Pode ser uma escritora, crítica, líder religiosa ou decoradora de ambientes”. “Prefere trabalhar em parceria”.

Fernanda insistia:
- Põe o curso de controle da mente, uai.
- Mas, Fê...
- Amigaaaaaaaaaaaaaaaa, foco amiga, foco!
- ah, tá...


Parecia que ela havia lido a agenda. E, eu que já havia partido para ser pastora evangélica, ficar rica, hospedar em hotéis caros e fazer o que eu mais gosto que é falar, fiquei em dúvida em qual das opções - do meu 22 sem foco – investir meu tempo e meu texto.

Veja que lá estavam váriosssssssss talentos! Mas o lattes quer um. O planeta quer um. O mundo quer um.

Logo eu que sou avessa ao mono, tenho que ser uma. Falei para ela, “não sou mais uma na multidão, eu tenho multidões dentro de mim” (parafraseando o Whitman).

Caramba, para ser líder religioso precisa de lattes?

Finalmente compreendi que eu apenas queria escrever. Relatar. Fazer gracejos com as palavras para me desentupir dos academicismos, das aspas bibliográficas, e poder voltar mais leve ao google. Assim, continuar a pesquisa sobre a História da Língua e, também, preparar a aula de jornalismo de logo mais.

O problema é, novamente, encontrar as frases odiosas saltitando na tela do Pentium III, 1GB, HD 20GB e 256RAM (é isso mesmo?). Dentre outras que evitam as frases grandiosas, porque devemos ser apenas “um” que caiba encaixadinho num lattes.

Ou partir sem foco, balançando ao vento, catando cavaco, sorrindo do nada, chorando para as dívidas, e numa quarta-feira qualquer tomar uma garrafa de vinho na Praça dos Três Poderes e ver o Planalto apagado, o Supremo semi-árido, o Congresso apartado, ao som de funk, rock, tecno, dar gargalhadas, para novamente chegar em casa ligar o PC e virar a noite revirando papéis na tentativa de montar um novo, frio, gélido lattes.

Viva! Viva! Viva! A reserva de mercado e a indústria dos diplomados! Enterrem os desenquadrados! Ainda que seja na curva de um rio...

2 comentários:

Fernanda Ramirez disse...

O que que eu vou dizer, o que que eu vou dizer... o que que eu vou dizer? que... que... que... ora pois amiga, você ja sintetizou tudo: você é a vanguarda dos curriculos lattes... Você é o amanhã do currículo lattes. E eu que causei tudo isso? Huahuahauha... me sinto privilegiada de fazer este reboliço na sua vida neste tanto para você escrever tal obra prima... Beijos

Rogério Silvério de Farias disse...

ahahahahahaha tu é louca, guria! Doida mesmo. Bom sinal! Já que tá todo mundo falando em curriculos lattes, eu nao posso falar nada porque o meu cu rico late. Nossa, essa foi de amargar, de doer. Eu não sei, mas...vocês de Brasília são todos loucos, né? Incrível,andei pesquisando no Google e vi que vocês brasilienses são ultra-loucos. Posso perguntar uma coisa? Em Brasília o povo se masturba igual nós do Sul? Eu não sou galinha, mas eu quero é chocar mesmo. Tem hora que me dá uma vontade louca de sair gritando pelas ruas: Merda! Merda quente! Beijos, ai que maravilha, essa internet é uma lousa de doido: os meus dedos são dedos de louco: metralham o teclado, CRIANDO ESPAÇOS! KKKKKKKKKKK SOLANGE, FIZ O MAIOR SUCESSO NA WEB CAM, DISSERAM QUE EU SOU PARECIDO COM O DAVID BOWIE!!! COMO DIZ O LULA, PRESIDENTE: "MENAS, MENAS". KKKKK rogério (SC)

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