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21 agosto, 2007

Trocando os livros pelos celulares

É incrivel como a gente passa grande parte da vida tentando entender aquilo que nos tira (ou nos põe) no trilho, e, de repente, uma simples matéria no Fantástico/Rede Globo lhe economiza anos de terapia.


Ontem, ao assistir ao quadro “Emprego de A a Z”, com o consultor particular de carreira Max Gehringer, pude constatar minha incompetência profissional. Nem preciso dizer o quanto me encolhi diante de um gigante como ele (seu primeiro emprego, aos 12 anos, foi de auxiliar de faxina. O último: presidente da Pullman. Atualmente, palestrante global). Logo ele que, “no auge de uma carreira bem-sucedida que o levou à direção de grandes empresas (Pepsi, Elma Chips e Pullman), tomou uma decisão raríssima no mundo corporativo: abriu mão do poder e das mordomias de alto executivo para dedicar seu tempo a escrever e a fazer palestras pelo Brasil”. Por que será?


Voltando ao Fantástico, a chamada era: quem está procurando um emprego e não consegue, apesar de ter um bom currículo, precisa aprender uma palavra nova: networking”. Uau, finalmente vou sair da lama, pensei. Atenta que só, vidrei na TV 29 polegadas, mirei os olhos azuis do Gehringer e sorvi cada palavra do super-consultor (especialista em Marketing e Consultor de Empresas, tendo formação acadêmica em Economia com pós-graduação pela Fundação Getúlio Vargas e Mestrados e Doutorado na PUC RJ, Harvard e Cambridge).


Passados os minutos da matéria, pasmei! Ou eu não entendi nada, ou tudo compreendi. Minha leitura sintética: para se ter um emprego é preciso, praticamente, puxar-saco para ser lembrado; que as habilidades (e competência) profissionais não são quase nada diante de um bom marketing pessoal; e, principalmente, saiba reconhecer e se aproximar da pessoa certa”. Acompanhe:


Nota-se que nossa cultura da panelinhas nada evoluiu (apenas se sofisticou), quando Gehringer diz que “no Brasil, esta prática (dos contatos) já completou 507 anos... Quando Pero Vaz de Caminha escreveu para o rei de Portugal anunciando o descobrimento do Brasil, ele aproveitou para pedir a transferência do genro da África para Lisboa... No passado, existiram várias palavras para quem furava a fila e conseguia um emprego: cunha, pistolão, peixada e QI, a sigla para ‘quem indicou’. Todas essas palavras queriam dizer mais ou menos o seguinte: um incompetente conseguiu um emprego só porque conhecia a pessoa certa. Isso era justo? Claro que não... O networking tem um sentido bem diferente”.


Ahn? Como assim? Qual é a diferença do networking para as mencionadas palavrinhas em português, senão por ser um termo em inglês? Não servirá a “rede de relacionamentos/contatos” para o mesmo objetivo que a tal “peixada” ou “pistolão”?


O consultor bem que tenta demonstrar que o networking difere do “QI - Quem Indica” (o caso do incompetente que conseguiu um emprego só porque conhecia a pessoa certa). Entretanto, ao mesmo tempo, argumenta que “conhecer a pessoa certa vai fazer toda a diferença para a nossa carreira”, que se deve “conhecer a pessoa certa, que pode ser útil na hora certa”. E, acrescenta, “se você não tem curso superior, sequer você passa da portaria da empresa. Só que aí a porta é muito estreita, não vai passar todo mundo. Provavelmente vai passar aquele que alguém vai botar a mão nas costas e diz ‘entre, por favor’’".


Sinceramente? Não saquei a diferença do inglês "networking" para o português "QI".


O consultor também ensina: “então, a grande referência aqui, pela quantidade de pessoas que ele conhece e vai conhecer é exatamente o professor. Descubram o dia do aniversário dele, qual é o cantor favorito, né? Mandar um CD... ‘Professor Ivan, seu sorriso me cativou’, aquelas coisas assim, né?” E, resume “um bom currículo, cheio de cursos, ou um passado com muita experiência, levam alguém até a porta da empresa. Networking é conhecer quem tem a chave que abre a porta”.


Pode-se constatar, pelas falas, que a faculdade deve ser mais um lugar para se fazer boas amizades, que o cafezinho no intervalo do curso tal é mais importante que o conteúdo, em si, a ser adquirido etc. Talvez, esteja aí a falha daquele que aproveita o intervalo para estudar ao invés de desfilar. Talvez, esteja aqui o demérito daquele que acredita mais no conhecimento da profissão do que nos conhecidos profissionais.


Faço uma ressalva, discordo da afirmativa “networking é conhecer quem tem a chave que abre a porta”, pois melhor mesmo é conhecer o dono do prédio inteiro. A garantia é maior, uma vez que conteúdo, habilidades e competência profissionais são artigos de segunda “catiguria” nesse país do quem conhece quem.


Finalmente, agora que currículo não é o fundamental, eu aprendi a lição: é melhor largar – urgentemente – os livros teóricos, filosóficos, literários e grudar os olhos na TV domingueira, porque o Fantástico me trouxe a salvação. Amanhã mesmo, vou ao shopping comprar um vestido novo, depois cortar os cabelos, com direito a chapinha, passar um belo batom e visitar uns conhecidos de outrora. Nada como vistoriar a agenda numa segunda-feira entediante. Ah, sem querer fazer o anti-networking, se alguém souber de algum bico por aí, estou à disposição.

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P.S.
A seguir os links para a matéria veiculada no Fantástico
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veja o vídeo
ou leia o texto

Um comentário:

Fernanda Ramirez disse...

Soll, agora que eu entendi porque me senti andando pra trás, dando aulas na universidade particular. O chefe me disse: Fernanda, o que a gente quer aqui é que o professor entre, dê sua aula, vá embora sem que os alunos reclamem.

E eu achava um saco um ambiente em que os professores nem se falavam, só reproduziam conhecimento de outros. Se os professores eram impossiveis até para os próprios professores, imagine para os alunos. Estes jamais puderam saber o meu perfume preferido, o meu tipo de música preferido, que pena.

Que tempo precioso eu perdi longe dos cafezinhos, dos bate-papos. Eu bem que achei (com certa razão, vejo agora), assim que eu entrei nesta universidade, que deixei de dar aulas na pós porque os contatos foram sumindo, sumindo... ó vida, ó céus, ó azar!

Tá, eu não concordo com um bando de coisas, mas já que a tal da rede de relacionamentos está ai, ô amiga, vamos usá-la em nosso favor. Uma boa proposta, analise comigo.

É facil. É só darmos as dicas certas para nosso alunos queridos.

As minhas são:

1. Odeio perfume doce, você (aluno) pode se danar caso me dê um. Aliás, perfume é muito pessoal, melhor mudar de estratégia, ok? Conselho da futura amiga.

2. Cds de boa música brasileira pode ser uma coisa inteligente, e se for comprado em grandes lojas não é necessario se preocupar se me serão repetidos ou não, devido a possibilidade de troca. Prometo saber reconhecer a generosidade implícita deste gesto tão sonoro.

3. Penduricalhos como joias e bijouterias também são pessoais demais, não recomendo. Vai perder ponto na certa e, no máximo, vai ouvir um "obrigada", dito por educação mesmo.

4. Livros. Óquei, todo professor adora um bom livro. Mas seja inteligente o suficiente para não escrever dedicatória e também para pedir um selo de troca, para caso de repetição ou de erro de estratégia. Olha, livros nunca são demais. É, de longe, a melhor opção.

5. Elogios em excesso podem ser um crime. Se me disserem: "professora, seus olhos são bonitos", correrão o risco de ouvir um: "pena que eles não te olham". Isso vale para todas as expressões do tipo: você é linda, você é maravilhosa, etc e tal. Fica evidente que há um exagero politicamente correto que de tão incorreto nao lhe servirá pra nada.

6. Mas uma sacada genial, uma piada bem contextualiza, que difira você dos demais alunos vai ajudar bastante, pode ter certeza.

7. E se você quiser chegar na vaidade mesmo, leia todos os meus escritos, e reflita com inteligência sobre eles. De preferência encontre um furo, saiba debatê-lo a partir de outro autor. É garantia de uma vaga no mestrado, na certa (quando eu for orientadora de mestrado, claro!).

8. Se ficar muito difícil, dinheiro. É uma faca de dois gumes, mas eu sempre digo, todo professor tem seu preço. Eu tenho um. Se quiser tentar descobri-lo, óquei. Ah, mas não se esqueça da faca de dois gumes, se a proposta me ofender, ui, tenha certeza de que você estará perdido (e para sempre!) porque, claro como dois e dois são quatro, caso eu aceite uma proposta destas, será a única por toda vida.

9. Bebidas. Um bom vinho vale a pena. Saber escolher um bom vinho demostra um diferencial em relação aos demais alunos e uma grande possibilidade de se estreitar uma amizade. E já digo logo: deve ser tinto e seco. Nada de vinho suave, que é uma lástima.

10. Caso você viaje para outra cidade ou para o exterior, uma lembrança regional é sempre bem vinda, desde que não seja uma camiseta estampada de qualquer coisa. Um artesanato local, uma bebida local, uma gentileza local pode sim, gerar boas orientações.

E você Soll, é melhor ir avisando aos seus alunos o que você gosta. No mínimo a gente abastece nossa biblioteca, nosso bar, a adega e arranja uns enfeites para a casa.

Hein, que me diz?

Beijos amiga.

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