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16 outubro, 2006

Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo....



Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo....




por Solange Pereira Pinto



De repente outro convite. O quinto do ano. Quando foi isso mesmo? A festa de 15 anos de Roberta foi há duas décadas. Troca de olhares com Aldo. Cara brava por causa do vestido amarelo. Porre de leite de onça. Ontem Vanessa fez 40 anos. Daniela lembrou do último début. Salão lotado dançando discoteca. A balada estrangeira esquentava. A timidez ia embora. Velhos tempos. Anos 80 cheio de rock pop. Até suar. Olhava mais uma vez aquele piso colorido de idades. Um xadrez de luzes com dezenas de gente desconhecida. Antes nem era bem assim. Havia um nome certo para cada rosto. Adolescência registrada. Logo, logo, comemorariam a carteira de motorista. Os aniversários iam se modificando. A expectativa do vestibular. Sorria e dizia um oi para quem passava. Maneava a cabeça. Talvez já estivesse desmemoriada. Melhor não arriscar. Apertos mãos e beijinhos na face. Sorriso grudado. Mais um uísque. Era diferente. A vida se formalizando aos poucos. Porém, depressa. Estranho. Trezentos convidados. Banda ao vivo. Vinha o flash. As festas de 30. Independência. Sexo. Casamento. Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo? Bordão da madrugada. E não via mesmo. Mais gordos. O sábado se encerraria. Mais míope. Como todos. Ou a maioria. Menos cabelos. Àquela hora pouca gente por ali. Recontou sua história. Sem conta! Quase ao amanhecer. Várias doses “on the rocks”. Uma leve dor nas costas. Dani levaria os pais do anfitrião. Tirou a bota. Faltavam ainda 442 dias. Calculou. Cabelo praticamente grisalho. Acompanhou no último verão duas tias. Três comemorações de bodas de ouro. Teria que levantar cedo. Praticamente após o almoço. A festinha dos Rebeldes esperava. A mais antiga amiga de Lili. Cantaria parabéns. É big. Com quem será. Bolas coloridas na parede. Feito o xadrez no chão. Não conhecia as crianças. Já não identificava ninguém? Talvez três. Faria festa? Comemoraria também os 40? Oi, como sua filha cresceu! A tarde passava. Os brigadeiros sumiam. Ou faria dos 50? Chamaria as colegas da faculdade, do segundo grau, do primário. Será? Caiu fanta uva no colo de dona Margarida. Corre e pega o pano. Quem sabe 60? Pela oitava vez a mesma música. A meninada pulando. Bolo com velinhas? 70? Faltariam muitos amigos. Certamente. Duda apagou as seis num sopro só. 80? Não chegaria até lá. Cada vez mais ouviria “oi, há quanto tempo eu não lhe vejo?” Pegou a lembrancinha da filha. Dez da noite. Exausta. Subitamente os convites mudaram. Pessoas mais envelopadas. Encontros em volta de caixas. Bolo embrulhado em papel laminado. Não foi a nenhum de 90. Tirou a maquiagem. Passou o creme anti-rugas. Lili adormecida. Dani abriu o álbum. Viu Danilo. Não lhe vejo há mais de dez anos, disse à fotografia. Deitou-se sozinha. Começou a lista mental. Dormiu calculando a antiga agenda. Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo? Daniela nunca mais respondeu.

4 comentários:

eduardo disse...

Nossa texto muito bem escrita. Uma saga passado, presente e futuro.
Parbéns!!

Soll disse...

Dudu, obrigada!

Cesar Cardoso disse...

Só consigo dizer que o conto está sensacional, sensacional e sensacional!

Soll disse...

:)

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