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11 agosto, 2006

Um domingo com Marçal Aquino (Resenha)

O domingo acordou preguiçoso, como sempre. O sol numa alegria incontida entrava por toda a casa gritando a urgência de sair um pouco da poeira do desânimo habitual. O telefone tocou. Tomei um café, fiz uma careta (algumas coisas cheiram melhor que o próprio gosto). Rendi-me. Calcei o tênis, vesti o short e a camiseta, peguei o boné, nessa espantada ordem e chamei o paulista Marçal Aquino para uma volta no parque.

Sabe como é, domingo de sol no parque da cidade, lugar perfeito para famílias, crianças, patins, bolas, bicicletas, pipas, casais, pais, mães, tias, avós, desocupados, ambulantes, churrascos, piqueniques e duchas... Lá fomos nós ao encontro das Famílias terrivelmente felizes.

Cada raio ia se alongando sobre o corpo e Aquino me contando a primeira de muitas histórias do dia. Logo diz “meu tio morreu em um hospício numa tarde de segunda. Conversando com seus fantasmas, a única coisa que aprendeu na vida”. E, num ato contínuo, foi relatando tudo o que ele poderia ter sido.

A cada passo dado, minha atenção redobrava, e novos cotidianos iam surgindo. Os onze jantares, o escritor saxofonista, a mulher com ar de quem é absolutamente íntima de incêndios, e ressaltou “o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco”.

Fiquei pensativa. Quantas escoras fabricamos! Como um traçado de vida pode se complicar a cada parágrafo vivido? Foi quando ele me contou sobre a família no espelho da sala, “é, não tem jeito, viver não permite escolhas. Não se esqueça. Antes de sair, olho a redação: todos envolvidos na tarefa febril do fechamento. As pequenas tragédias pessoais – e, por que não, as grandes também -, adiadas por algumas horas. Para recomeçar tudo amanhã”. (Marçal é também jornalista e sabe bem o que é inventariar as causas alheias, esquecendo das próprias em nome do ofício).

Ora leve, ora intenso, o tempo vai caminhando entre traduções de silêncios e verdades. São expostos os cacos, as colagens. Numa pausa me fixo nessa fala “...Mas hoje eu sei que a vida trapaceou com eles. Lembrando um relance aqui e um flagrante ali...”.

Suas histórias vão me fascinando sob a paisagem dominical de crianças saltitantes e de casais enamorados debaixo de copas verdes. No mesmo instante, vem ele contar de um dia de casamento, para em seguida narrar noites, acontecimentos em casas, em bares, falar das conspirações, dos casos, dos amantes, dos desejos urbanos, das emoções rurais. “Mortos não respondem por jogos perdidos em vida”. Entre risadas e tamanha curiosidade me torno voyeur daqueles seres de papel.

Algumas nuvens se unem cobrindo a tarde. A água de coco chega ao fim. Eu me apresso em ouvir a última história que meu novo amigo tem a contar “Miss Danúbio”. Em meio às diversas finitudes possíveis de mais um dia, despedi-me de Marçal, que com seu jeito enigmático, surpreendente e simples, passou o domingo a mostrar os entrelaces do dia-a-dia de pessoas comuns. Famílias terrivelmente felizes. Vários contos numa teia de vida. “Até mesmo os cheiros envelhecem...”, ele disse em algum momento. Alguém duvida?

Solange Pereira Pinto

2 comentários:

Alena disse...

Sem ler, ontem eu dava aula e falei esta frase: até os cheiros envelhecem.

eduardo disse...

Encontro bacana. Adorei o texto!!!

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