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28 julho, 2006

um suco de laranja

Queira não ou acreditar, o suco da laranja é ingênuo. Sim. Ele é ingênuo porque pensa não se misturar. Ele é suco de laranja natural. Mas, sempre vem aquele descolado que diz:
- Quero maracujá com laranja.
- Quero abacaxi com laranja.
A pobre fruta, específica, da laranjeira, se vê diante do hibridismo e diz:
- OK, não serei mais laranja. Ok, eu topo me misturar.
O carinha anotante do pedido, simpático, e atencioso, diz:
- Que ótimo que a laranja não criou maiores problemas. O que seria de mim?!
A pobre laranja, que nem metade tinha, resolve compor-se ao impasse.
- Melhor que eu não seja uma laranja autêntica, do que sequer ser uma laranja qualquer.
O bar calorosamente brada a opção da fruta e percebe que se ela não regredisse a um estágio anterior, o bar jamais teria a mesma graça.
A laranja incontida na sua decepção e infortúnio se joga a ser espremida ao bel prazer da máquina de suco.
- Ufa!, pensa o garçom. Que mal quer um suco ou bebedores contumazes de fim noite?
Enfim, a laranja está livre para mim.
Entre uma espremida e outra, a laranja se espreita, faceira, ácida, redonda, sulcosa, semi-liquída àqueles que desejam devorá-la.
Um alívio para o garçom, um alívio para a moça casta, um martírio para a simples laranja. Mas, nada disso importa. Lá vem ele com o copo alaranjado, com gelo, e gracioso, mostrar que laranja finalmente está no suco, no copo.
E, ela bebe como se o mundo estivesse limpo e lindo aos seus pés.
Num gole. Num ácido. Num doce.
Numa laranja cobiçada que o dinheiro pagou, e a pobre fruta, enfim, morreu trucidada, acalentada, mortificada, num rompante de bar. Pois, o que restaria a uma laranja, senão o espremedor e o copo?
Sim!! ela foi digna, e bebida até o fim. Queira não ou acreditar, um suco da laranja é ingênuo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Decifra-me ou te devoro.
A autofagia da ingenuidade...

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