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25 junho, 2006

Jornalismo x jornalismo

"Jornalismo é a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter."

Cláudio Abramo (1923-1987)




"Vivemos tempos muito estranhos, em que as coisas que precisam ser ditas ficam escamoteadas, camufladas, sussurradas, caladas. Nada se reclama, nada se critica, para preservar amigos, cargos, salários, posições, espaços de poder, enquanto o jornalismo vai se diluindo e dissolvendo na sua incapacidade de autocrítica. Não sou de freqüentar boteco, nem de extravasar minhas mágoas em mesa de bar, Marques. Prefiro ganhar a guerra resistindo, pensando e escrevendo".


"Neste quadro recessivo, que inquieta patrões e assusta empregados, é natural o surgimento do "jornalismo de resultado" e seus profetas – os executivos moderninhos que prometem redações baratas, revistas idem, amenidades muitas e reflexão zero. Apostam no padrão do leitor que consome mas não pensa, no perfil Homer Simpson que se satisfaz com o atendimento às suas demandas meramente consumistas, do estilo shopping center que simboliza o templo de devoção da classe média e seus periféricos".


"Para este tipo de leitor, com tanto a comprar e tão pouca disposição para ler, o jeito é o modelito USA Today, o jornalão fast food destes tempos midiáticos para uma leitura rápida, calórica e saborosa como um Big Mac. Assim, nossas semanais sofrem cada vez mais a tentação de atender a este novo mercado emergente, abdicando de sua função primordial: o texto mais consistente, mais abrangente, para refletir e ponderar sobre a salada de informações frenéticas e redundantes que o dia-a-dia de jornais, rádios, TVs e internet enfia goela abaixo do cidadão".


"A revista, que devia ser o oásis de reflexão para ajudar o pobre leitor a atravessar esta overdose semanal de notícias e mais notícias, abdica de seu papel e mergulha no turbilhão do jornalismo rápido e rasteiro. A estética vale mais do que a essência. A forma se impõe ao conteúdo. O texto curto confina os detalhes. A foto, espelhada e escancarada, come os espaços de uma informação cada vez mais estrangulada. Tudo induz uma leitura ligeira, quase leviana, para não afrontar o relógio e a agenda do nosso leitor tão apressado. E, em vez de procurar saciar a fome de informação e conteúdo, a revista sucumbe e se submete à magra dieta jornalística que ela diz ser exigência do leitor moderno. Alguém está enganando alguém neste jogo".


"Gostaria de alertar os leitores sobre o fato de que sua recente "entrevista" com o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, John Danilovich, foi montada. O repórter Marco Damiani, da Istoé Dinheiro, na realidade não fez uma entrevista com o embaixador. Em vez disso, entre cinco perguntas que alguns jornalistas dirigiram ao embaixador durante o intervalo de um seminário, três foram feitas pelo repórter . Várias das "perguntas" incluídas na sua entrevista nunca foram formuladas. O repórter tirou as últimas três respostas, fora de contexto, dos comentários preparados pelo embaixador para o seminário, cujo texto pode ser encontrado na íntegra na homepage da embaixada: (http://brasilia.usembassy.gov/). Esse formato montado de "entrevista" foi desonesto e é um desserviço aos seus leitores. Obrigado, R. Wesley Carrington, adido de Imprensa".

Luiz Cláudio Cunha

Trechos do texto: Como a IstoÉ tornou-se IstoEra


[Brasília, 27 de março de 2006]

Carta na íntegra



Um comentário:

José Sequeira disse...

EM CEM (100) INDIVIDUOS DE AMBOS OS SEXOS, QUE GATAFUNHAM EM JORNAIS E REVISTAS, COMENTAM ASSUNTOS VÁRIOS E FAZEM ENTREVISTAS NA TV, QUANTOS JORNALISTAS ENCONTRAMOS, AQUI OU AÍ? kkk...UM NÚMERO DECIMAL INFERIOR A ZERO! SE A BASE DE PARTIDA FOR DE MIL E NÃO APENAS CEM, ENTÃO, TALVEZ ENCONTREMOS UM NÚMERO INTEIRO , MAS INFERIOR A DEZ. MAS...QUANTOS DE NÓS SOMOS CAPAZES DE SOBREVIVER, FAZENDO UM TRABALHO DO QUAL GOSTAMOS E AINDA POR CIMA DE MODO HONESTO?????

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