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23 junho, 2006

Criminosos educacionais: um genocídio diário

O texto é longo. Sei que a maioria não terá a menor paciência para ler. Fazer o que, né? É isso que escuto diariamente dos alunos que insistem em não ler: o tema é chato, tenho outras prioridades, o livro é grosso, tenho preguiça, me dá sono, não tenho hábito etc. Que reine a ignorância, mas para quem tiver saco lá vai.

Se eu tivesse aqui falando do último suicídio, de uma jovem de 15 anos em Porto Alegre, que vi outro dia no orkut, teria leitores atentos. Ou, se eu narrasse aqui a história do pai que jogou os dois filhos pela janela e depois pulou a janela, um oncologista americano, também. Mas a violência que tentarei descrever é outra. Ela é um pouco mais sutil, se é que há sutileza no que é violento.

Nossa quanta introdução para um assunto! Dois parágrafos! 146 palavras! É final de semestre, e quem é professor de graduação sabe o que isso significa: trabalho, muito trabalho! Chega à hora de dar notas, avaliar alunos, dizer quem vale quanto. Nesse momento me pego no velho conflito que baixa meu travesseiro sempre que tenho que fechar o diário da faculdade.

Sou contra o sistema de ensino que é utilizado no Brasil. Acho decadente. Mas, para um país como o nosso, temos uma educação à altura. Para um país que tem presidente que não estudou formalmente, isso é balela. Ainda não descobri qual é a função da escola e nem se ela é tão necessária assim, do jeito que está.

Eu pensava que a educação, a escola, tinha por objetivo formar pessoas para a vida, para o pensamento crítico, para a cidadania, para a construção de valores éticos, entretanto devo estar enganada. Não é o que se pratica. Mas, vamos ao que interessa.

Mesmo eu tendo feito dois cursos superiores e algumas especializações, acho que o diploma é uma grande mentira. Conheço muito autodidata que deixa PHD no chinelo. Além disso, muito do que aprendi na minha vida não veio pela escola, mas pelo meu interesse, por minha curiosidade, por minha inquietude e vontade de saber. Os livros que mais me marcaram não foram indicados pelos professores que tive em sala de aula. Não faço aqui apologia ao não estudo, mas à valorização dele.

Estudar é muito mais que freqüentar escola chata, com professores despreparados, com coordenadores medíocres. Adquirir habilidades ou conhecimento está vinculado à escola, assim como fazer sexo às conversas entre adolescentes. Aprendemos mesmo é fazendo e não, somente, olhando ou ouvindo sobre.

Quando chega a hora de dizer ao aluno que ele vale zero ou dez, ou todas as notas intermediárias da dezena, vêm à tona os chamados critérios. E, para se formular os requisitos existem mil e uma maneiras. Mas, temos que pensar nas competências e habilidades necessárias, mínimas ou suficientes, a serem aprendidas pelo aluno para que ele seja considerado “aprovado”. Qual é o mínimo?

Falo aqui, por enquanto, de Língua Portuguesa. Num país onde se lê tão pouco, onde se escreve tão mal, o que exigir de nossos alunos? A escola tem em sua grade curricular as disciplinas e os conteúdos importantes para a formação do estudante.

Supõe-se que ao sair do primeiro grau, o indivíduo domine com certa destreza o seu idioma materno. Pressupõe-se, também, que, ao sair do segundo grau, o cidadão não só saiba ler bem, como se expressar adequadamente por escrito e oralmente na língua nacional. Ou seja, ele estará habilitado a escrever dissertações, cartas, e textos variados, bem como ler criticamente, ao pegar seu diploma do secundário.

Essa é a realidade do Brasil? Vejo que não. Os cursos mais baratos, na maioria das faculdades particulares, são Pedagogia e Normal Superior. Os futuros educadores, que formarão nossas crianças, ganharão salários proporcionais aos valores das mensalidades que pagaram durante sua formação acadêmica. Triste realidade. A saída é aumentar o valor da mensalidade da graduação?

Todo início de semestre pergunto aos alunos sobre o que motivou a escolha do curso. Ouço muitas respostas do tipo: “eu queria fazer direito, mas é muito caro. Então, escolhi o Normal”; “gostaria de cursar psicologia, mas só passei para pedagogia”; “escolhi esse curso, pois é o mais barato da faculdade”; “ser professor tem mais mercado de trabalho”; “o curso é mais rápido”. São inúmeras as considerações dos graduandos. Penso que não é só para os cursos que formam professores. Existe uma grande dúvida entre os jovens na hora de escolher uma profissão. Eu também tive.

O que me deixa mais chocada, talvez, é o fato de perceber que, em geral, o aluno (de qualquer curso) está mais preocupado com o diploma do que com a sua real formação intelectual e crítica. Há o mito que, com o simples canudo na mão, as portas do mercado de trabalho se abrirão. Quando sabemos que neste país ainda impera muito o “quem indica” e que diploma por si só não é suficiente.

Outro ponto é que quem está dando aulas em faculdade nem sempre está habilitado ou é competente a fazê-lo. É a velha roda girando. Professores despreparados, indicados, ou com títulos, mas sem o conhecimento e a didática para praticarem bem o ofício. Isso começa lá no maternal. Aquela professora que leva muito jeito com criança, mas que mal sabe escrever três parágrafos com coesão e coerência. Na universidade não é diferente. Já vi doutor que não usa os plurais. Já ouvi palestrante mestre que não tem concordância verbal. Já li texto de coordenador acadêmico que não tem sentido.

O que tudo isso significa? Que o Português é o entrave na vida do brasileiro? Só se for o colonizador, que seria com letra minúscula. Alguém pode sugerir que o nosso idioma é complexo demais. Concordo que seja. Outro dia li um texto que achei interessante, e um trecho dizia “não se ensina língua portuguesa para saber língua portuguesa, mas para desenvolver capacidades de comunicação (ler, escrever e expressar o que se deseja ou o que se pensa) e de representação da realidade imediata, bem como de se relacionar e de se integrar social e culturalmente”.

Então, dá para entender qual é a proposta: comunicar para se relacionar e se integrar socioculturalmente. Contudo, o vestibular está repleto de peguinhas gramaticais, de interpretações enlatadas de textos, de perguntas sobre o emprego do “que”, isso para se entrar em universidades públicas, pois para as particulares nem a redação sei se realmente é corrigida. Desta forma, vamos exigindo que nossos alunos fiquem “decorando” análise sintática ao invés de treinarem sua expressão e leitura crítica. Ou, ainda, empurrando de série em série para evitar a evasão escolar, com o pensamento: é melhor isso do que nada; o que faz certo sentido.

Os chamados analfabetos funcionais (nome tão em moda nos dias atuais) estão por toda parte, médicos, engenheiros, advogados, analistas de sistemas etc. Pessoas ditas “formadas” incapazes de lerem uma notícia de jornal e entender o que se passa no planeta. Eu confesso que meu domínio da língua portuguesa é relativo. Nem sei se um dia chegarei à qualidade de especialista, mas não tenho dúvidas de que sei me comunicar bem e entender o que leio. E, certamente, não foi a partir das enfadonhas aulas de gramática, mas da leitura constante que me habituei desde criança.

Quem lê bem, fala e escreve bem, diz o velho ditado. No entanto, por que não se lê bem neste país? Os livros são caros é uma realidade, porém existem bibliotecas (ainda que poucas em alguns lugares), hoje existe internet, há amigos que compram livros, as possibilidades estão por aí. Acredito que o que falta é valorizar a leitura. O que falta é incentivar a curiosidade, a pesquisa, a autonomia.

Outros dirão, mas, diante da perversa realidade social em que vivemos, não há tempo para ler, tem que se matar o leão para trazer a carne de todo dia. Até quando acreditaremos que o leão estará disponível na selva de pedra, se não houver habilidade para buscá-lo?

Voltemos às salas de aula da infância e da juventude. Professores matando seu leão diário não se preocupam (nem todos é claro) em mostrar que aprender pode ser interessante, divertido, necessário para o desenvolvimento individual e social. Dão suas aulas burocráticas para receberem o salário sofrido e reclamar da profissão. Professor não gosta “ensinar”, aluno não gosta de “aprender”. Como resolver essa equação?

A cada ano milhares de novos professores são lançados no mercado. Muitos deles apenas freqüentaram a faculdade, vários não leram quase nada, outros leram e não entenderam e foram aprovados. Creio que o nível dos diplomados, genericamente, está baixo. Lembrando que o tempo de graduação está diminuindo. Hoje, se “forma” um futuro professor do ensino fundamental em três anos, míseros 36 meses, tempo de um consórcio de carro. Considerando que a base escolar foi caótica, o que esperar desses futuros “educadores”?

O modelo atual da educação superior é baseado no lucro, na quantidade de alunos, na aprovação em massa. Diploma é mero produto de consumo e o conhecimento nem sempre entra nesta embalagem. Pagou levou, se aprendeu não sei. A fila anda. Professor que reprova muito é jubilado e mal visto, deve ser “incompetente”.

Os pontos são tantos que daria para escrever um livro. Todavia, o interesse deste texto não é solucionar os problemas da educação brasileira, nem simplesmente apontar culpados, tão menos depreciar quem luta fazendo sua parte profissional e social. Os responsáveis, por uma educação melhor, de qualidade, estão em todos os lares e âmbitos: escola, professores, alunos, sociedade, governo, família.

Pais que lêem e incentivam os filhos criam leitores em potencial. Mais um clichê que faz sentido. Não se pode responsabilizar o governo (ou falta dele) por todos os fracassos educacionais e tampouco a escola. A obrigação é coletiva. A educação está para além dos bancos escolares, embora seja, em muitos casos (excetuando o autodidatismo que eu apóio, mas a sociedade não), necessário passar por eles. Educar passa pela cultura de um povo, passa pela identidade nacional e sua expressão mais profunda.

Temos que acabar com a mania de culpar o outro e tirar dos próprios ombros o compromisso. O ônus é de todos. A sociedade brasileira está repleta de criminosos educacionais que cometem diariamente um genocídio social e cultural. As crianças estão sendo assassinadas em sua chance de viver melhor. O país está sendo estuprado todos os dias pela ignorância. Há um suicídio generalizado do comprometimento de se formar uma civilização melhor. Há um seqüestro do que é verdadeiramente importante e ético. Até quando?

Se você conseguiu chegar até o final deste texto, provavelmente não é o leitor a quem ele se destinava, visto que são sempre os mesmos que lêem, têm o senso crítico, e clamam pela mudança estrutural. Aqueles que deveriam ler isto aqui, refletir, questionar, duvidar, acham que estão matando um leão por dia e que ver TV é o que resta. Ah, de volta ao começo, estou no final do semestre fechando notas e o diário, que nota eu dou de zero a dez?


Brasília/DF, 21 de junho de 2006.

Solange Pereira Pinto
Cidadã brasileira

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