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20 abril, 2006

A festa da corrupção: o custo-Brasília


Arte digital - Fotografia manipulada

Título: Enquanto o forno esquenta

Autora: Solange Pereira Pinto

Data: 20.04.2006





O que JK não viu

21.04.2003.

A cidade planejada não comporta em si apenas os erros estruturais de sua dimensão física prejudicada pelo crescimento desordenado, mas esconde em suas tesourinhas, entrequadras, eixos e viadutos a cultura extrativista da terra de ninguém, nascida bem antes dessa jovem de 43 anos. Aqui, no marco de Dom Bosco, a profecia não evitou que o sino da catedral naufragasse três vezes. Seria um sinal dos tempos vindouros?

Era domingo, na véspera do aniversário da criticada e amada Brasília que as duas mulheres resolveram discutir. Afinal, quem pagaria aquela conta? O aluguel mais caro do país venceria dali três dias.

- Mas nhônhô, talvez não soubesse que ao fazer nascer a capital federal no centro do país, construiria não só uma cidade moderna e estética, mas um local onde mais que a visibilidade política é o sumiço do dinheiro o fio condutor do seu cartão postal, argumentou a mais velha.

- Ah, tá bom. A vida é que é cara mesmo, afinal estamos longe de tudo. Ou você acha que frete pelas esburacadas estradas brasileiras é barato?

- Não é disso que estou falando. O custo de vida aqui é caro por causa da corrupção. Não há renda suficiente para se manter nessa cidade, por exemplo, uma loja de grife que nem São Paulo tem.

- Como não? E a concentração de altos salários do legislativo e do judiciário? Isso não dá uma condição de vida melhor que em outras cidades?

- Não, pois é uma minoria que recebe bons salários e além disso há teto. Além do mais aqui não há indústria. Aliás, esqueci da indústria da grilagem de terras públicas.

- Ah, ah, ah! Sem cinismo. Faças as contas: some os ganhos de, todos os ministros de tribunais, desembargadores, juízes, promotores, procuradores, deputados, senadores, cargos comissionados, empresários da construção civil, donos de imobiliárias, empresários do ensino particular, etc...

- Ainda assim não se justifica. A elite é uma minoria aqui. O dinheiro que circula para justificar apartamentos luxuosos e caríssimos, consumo de produtos finos e de marca, carros importados para todo lado, lanchas, festas glamourosas e ostentações variadas, não vem de salários...

- Ok. E o pessoal que veio para cá quando a cidade ainda estava começando, você não acha que teve a oportunidade de construir um belo patrimônio que lhe rende?

- Esses também são poucos. Imagine que nas grandes cidades do sudeste há muito mais gente rica, turismo, empresas, lazer, restaurantes, enfim, e a vida não é tão cara quanto aqui.

- Claro, lá também há muito mais exploração da mão de obra. Veja bem, aqui um assalariado concursado de nível médio pode ganhar cerca de três mil reais. Onde mais servidor público ganha tão bem? Não se esqueça que nossa cidade reúne os três poderes e todos os tribunais superiores.

- Pode até ser. Mas o preço que pagamos para viver aqui tem outras causas.

- Você insiste nisso, né? E os apartamentos funcionais vendidos a preço de banana para servidores de várias categorias? Quando um motorista de outra cidade compraria um bom apartamento em uma quadra nobre? Além do mais, ele poderá vendê-lo agora e comprar dois na sua cidade de origem. Outro ponto, quantos filhos de porteiros, como os daqueles que trabalham no plano piloto, podem estudar na escola classe perto de casa, conviver com os filhos dos condôminos classe média e mudar totalmente o destino familiar? Em quais cidades grandes ou não, por aí, se tem essa oportunidade de formar uma vizinhança harmônica?

- Até parece que em Brasília as pessoas são hospitaleiras e tão caridosas como você fala. O que vejo é uma individualidade terrível, um salve-se quem puder, e creches com mensalidades de quatrocentos reais.

- Mas quando a gente fala sobre a cultura de um lugar, devemos observar como ela foi construída, o que foi importante e o que interferiu nessa edificação. Essa cidade atraiu muita gente de fora, e ainda atraí mesmo com todas as dificuldades. Aqui sempre teve subsídio e incentivo. É normal que a capital de um país seja diferente das outras, afinal o poder mora aqui.

- É exatamente disso que estou falando. O custo de vida aqui é abusivo porque o dinheiro é fácil e a vista grossa!

- Explique-se melhor...

- Quem não sabe que as grandes licitações daqui são direcionadas? Que há formação de cartéis e que os donos de quase tudo são os mesmos? Que o sobrenomes abrem portas e engavetam processos? Que o dinheiro público é quem manda nessa cidade? Que os privilégios de uns aumentam os custos dos outros? Que existem comércios de lavagem de dinheiro? Que pessoas jurídicas vendem notas fiscais? Que se trocam favores e nomeações? Posso desfilar um rol de porquês por toda a noite...

- E por que você ainda vive aqui, sabendo de tudo isso?

Oh, brasiliense nativo, nesta terra de clichês, algures há orgulho para sentir! Alguém há de tomar conta desse berço esplêndido! Muitos já passaram por aqui e outros nem pensam em sumir. Jânio vassourinha, renunciou. Jango olhou. Castelo ditou. Costa e Silva morreu. Brasil, ame-o ou deixe-o, quem irá esquecer? Ainda tem os três patetas de outra era. A tortura de Médice. O tempo de Geisel. A escolha de Figueiredo. A volta de Aluísio cassado por corrupção, o governo Sarney. O pode tudo. O Collor da fábula dos marajás. Itamar sei lá entende. FHC do bingo da estatais, Sivan, BNDES. E, agora Silva? Lula, apavorado!, tudo parou.

As duas mulheres saudaram seu Antônio, entraram no elevador e se esqueceram de decidir quem pagaria o aluguel da quitinete de seiscentos reais.

Solange Pereira Pinto




ps. apesar de escrito em 2003, parece que as coisas não se alteraram tanto, né?

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